Questão indígena no MS: disputa a ser resolvida entre as bases ou guerra híbrida à qual a extrema direita assiste de camarote?

Por Jorge Eremites de Oliveira*

 Pelo visto, estamos diante de uma espécie de “guerra híbrida” da política em Mato Grosso do Sul, travada desde o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2023. De um lado, o deputado estadual José Orcírio Miranda dos Santos, popular Zeca do PT, e associados. Do outro, o Prof. Dr. Luiz Henrique Eloy Amado, mais conhecido como Dr. Eloy Terena, secretário-executivo do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), e lideranças indígenas que o apoiam e a ele se aliam.

Vejamos quem são os principais protagonistas desse conflito, marcado por críticas e, sobretudo, por uma campanha denunciada como estruturada a partir de mentiras, injúrias, calúnias e difamação dirigidas contra o citado patrício Terena. Essa denúncia tem sido formulada de maneira categórica e igualmente repudiada por meio de notas públicas e vídeos divulgados nas redes sociais, todos assinados por lideranças indígenas do estado.

Zeca do PT, 75 anos, é bancário aposentado, parlamentar e produtor rural. Descendente de migrantes gaúchos, nasceu em 1950, em família que seria abastada e ligada à política no município de Porto Murtinho. Foi deputado estadual eleito em 1990 e 1994, exercendo dois mandatos consecutivos. Em 1998 e 2002, respectivamente, venceu a eleição e a reeleição para governador do estado. Posteriormente, em 2014, foi eleito deputado federal e, em 2022, voltou a se eleger para a Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul. Até onde se sabe, ele nunca concluiu qualquer curso superior, embora teria iniciado algumas graduações.

Dr. Eloy Terena, 37 anos, nasceu em 1988, em família humilde, na Aldeia Ipegue, localizada no município de Aquidauana. É advogado, jurista, antropólogo social, sociólogo, liderança indígena de projeção nacional, professor na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e, em 2023, passou a integrar o segundo escalão do governo federal. É bacharel em Direito e mestre em Desenvolvimento Local pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), com títulos obtidos em 2011 e 2014. Possui dois doutorados, um em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), concluído em 2019, e outro em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), em 2022. Realizou estágio de pós-doutoramento em Ciências Sociais pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), em Paris, no ano de 2020. Em 2025, recebeu da UCDB, sua alma mater, o título de Doutor Honoris Causa, em reconhecimento à trajetória profissional dedicada às causas indígenas.

Mas quando e como essas desavenças tiveram início? Segundo registros da imprensa regional e nacional, disponíveis na Internet, os desentendimentos começaram no primeiro ano do atual mandato presidencial, logo após a criação do MPI. À época, Zeca do PT classificou como “barbaridade” a “presença de famílias Guarani e Kaiowá na propriedade de um dos dirigentes do partido”, no município de Rio Brilhante, conforme noticiado pelo jornal O Globo, entre outros veículos (O Globo, 13/05/2023).

Nas palavras do ex-governador, publicadas pelo portal G1 Mato Grosso do Sul: “É uma barbaridade o que se está fazendo com o companheiro, amigo Raul, em sua propriedade em Rio Brilhante. De um lado, porque não se tem nenhum estudo antropológico definido para dizer que é terra indígena e, do outro, dois ônibus com aproximadamente 80 indígenas ‘derramados’ lá; agora trancaram o portão, ocuparam a sede da fazenda de 400 hectares, proibindo Raul e sua família de tirar de lá aproximadamente sete mil sacas de soja que foram colhidas”. Mais adiante, afirmou: “É uma vergonha, não contem comigo essa gente que, sem nenhuma razão, ocupa e invade propriedade produtiva, gerando insegurança jurídica e correndo risco de consequências que a gente não tem dimensão do que pode acontecer” (G1 MS, 21/03/2023).

À época, Dr. Eloy Terena, já na condição de secretário-executivo do MPI, declarou: “Lamentável o pronunciamento do deputado Zeca do PT na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul ao questionar a reivindicação legítima dos Guarani e Kaiowá ao seu território tradicional. Laranjeira Nhanderu é terra indígena, possui estudo antropológico e é espaço essencial para a sobrevivência física e cultural dos GK [Guarani e Kaiowá]” (O Globo, 13/05/2023).

Essa crítica soou como um puxão de orelha em uma espécie de “divindade” do petismo sul-mato-grossense. Como poderia, afinal, aquele jovem Terena de Ipegue, agora empoderado e recusando o papel de subalterno sem direito à fala, retrucar o todo-poderoso Zeca do PT? A contradição não partiu do secretário-executivo do MPI, coerente na defesa dos direitos dos povos originários, mas do próprio ex-governador. Ocorre que ele ora se apresenta como petista histórico, político de esquerda, conhecedor da temática indígena e suposto falante do guarani, ora como defensor de fazendeiro amigo, cuja propriedade incide sobre terras tradicionalmente ocupadas. Por extensão, posiciona-se como crítico e contrário em relação ao movimento de retomada de terras indígenas no estado.

Essa não é a primeira vez que o deputado profere declarações controversas sobre a situação dos povos Guarani e Kaiowá no estado. Em fevereiro de 2005, na cidade de Dourados, quando era governador, ao comentar sobre a morte de crianças indígenas vítimas de desnutrição infantil, afirmou que a condição dos indígenas teria uma “vertente cultural”. Segundo a imprensa, a suposta “vertente cultural”, de que saberia tanto com apoio de especialistas por ele consultados, estaria associada à ideia de que seria “da cultura dos índios ‘abandonar’ os mais fracos” (Campo Grande News, 24/02/2005, citado pelo Instituto Socioambiental). À época, chegou-se a ouvir que mães Guarani e Kaiowá se alimentariam antes dos filhos e, caso sobrasse comida, depois alimentariam as crianças, o que nunca ocorreu em qualquer comunidade indígena de que tenhamos conhecimento em Mato Grosso do Sul ou em outro estado da Federação.

Em novembro de 2025, o Dr. Eloy Terena, no exercício de sua autoridade e prerrogativa legal, exonerou o Prof. Elvisclei Polidório, aliado de Zeca do PT e de outros integrantes de seu coletivo político, como o deputado federal Vander Loubet, e nomeou, em seu lugar, o Prof. Dioni Alcântara Batista para a Coordenação Regional de Campo Grande da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI). A partir desse episódio, a “guerra híbrida” ingressou em um segundo momento de tensões, marcado pela intensificação de matérias, notas e postagens na mídia e nas redes sociais.

No dia 18/01/2026, o portal Folha de Dourados publicou a matéria intitulada “Zeca denuncia abandono de Terra Indígena em Antônio João e critica Eloy Terena, do MPI”. O texto sustenta que o MPI e seu secretário-executivo nada teriam feito em benefício da comunidade Kaiowá da Terra Indígena Ñande Ru Marangatu. Daí emergem alguns questionamentos inevitáveis. Primeiro: houve ou não ações do governo federal, com a participação do MPI, voltadas à regularização fundiária daquele território? Segundo: projetos produtivos, como o de piscicultura, inexistem ou foram ignorados pelo parlamentar durante a recente visita feita à comunidade? Terceiro: nenhuma dessas ações contou com atuação do citado gestor público? Quarto: o contraditório foi devidamente assegurado pelo referido portal na apuração das informações e elaboração da matéria?

A publicação atribui ainda ao ex-governador a afirmação de que Dr. Eloy Terena não teria visitado a comunidade Kaiowá de Ñande Ru Marangatu. Diante disso, apresentamos outros questionamentos. Quinto: desde 2023, o secretário-executivo do MPI não esteve nessa comunidade indígena? Sexto: as informações divulgadas em 2024 e 2025 pela imprensa regional sobre a presença do MPI nessa área seriam “fake news”? Sétimo: agora, todas as demandas indígenas de Mato Grosso do Sul seriam de responsabilidade exclusiva do MPI? Oitavo: o citado Ministério teria sido transformado, por força da lei, em uma secretaria estadual ou suas ações devem ocorrer em todo o território nacional, inclusive em áreas invadidas e devastadas por garimpeiros e outros criminosos na Amazônia Legal?

E mais! O que dizer da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), da FUNAI e de outros órgãos federais com atribuições legais na garantia de direitos indígenas? Não haveria responsabilidades institucionais compartilhadas? O Distrito Sanitário Especial Indígena de Mato Grosso do Sul (DSEI-MS), nas mãos de aliados petistas, tem garantido atendimento adequado às comunidades indígenas do Pantanal e de outras regiões? Conseguiu resolver os problemas históricos de abastecimento de água na Reserva Indígena Dourados? Na Aldeia Uberaba, Terra Indígena Guató, em Corumbá, todas as famílias ali estabelecidas dispõem de água tratada encanada? Na Aldeia Barra do São Lourenço, igualmente do povo Guató e em Corumbá, há atendimento regular de saúde para as famílias ali residentes?

São perguntas que não se calam e que partem de quem conhece minimamente a realidade das comunidades indígenas em Mato Grosso do Sul e se importa com o bem-estar dos povos originários.

Em linhas gerais, desde o início dos desentendimentos tornados públicos, o conflito deveria ter sido enfrentado e resolvido no interior da base aliada do governo federal, por meio de diálogo político orientado pela defesa inegociável dos direitos dos povos indígenas. Como isso não ocorreu, as disputas foram deslocadas para o espaço público e seguem em pleno ano eleitoral, enquanto a oposição, liderada pela extrema-direita e por aliados circunstanciais, assiste ao processo de camarote, capitalizando os efeitos da fragmentação interna do campo progressista.

O que Zeca do PT deixa transparecer é não apenas uma dificuldade em tolerar críticas públicas, mas a resistência em reconhecer a emergência de sujeitos políticos indígenas que recusam o lugar histórico da subalternidade. Ao insistir nessa postura, contribui para aprofundar uma dinâmica de “guerra híbrida” que opera desde dentro do próprio campo político ao qual formalmente pertence, corroendo alianças, tensionando instituições e produzindo desgaste político desnecessário. Se esse for, consciente ou inconscientemente, o desfecho pretendido, o Partido dos Trabalhadores em Mato Grosso do Sul reafirmará, com precisão quase didática, a caracterização atribuída por Leonel de Moura Brizola e Darcy Ribeiro à legenda em âmbito nacional: a esquerda que a direita gosta

*Professor, arqueólogo, etnólogo e historiador; licenciado em História pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), mestre e doutor em História/Arqueologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS); realizou estágio de pós-doutoramento em Antropologia Social no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); docente da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

Título original dado pelo autor: “A ‘guerra híbrida’ entre Zeca do PT e associados contra Eloy Terena e aliados indígenas em Mato Grosso do Sul”

Foto: Katie Mahler / APIB via ISA

Deixe um comentário

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.

14 − dez =