Água: o enganoso mito da Escassez

Diante do risco de crise hídrica em SP, diretor da Sabesp alega que empresa “não fabrica” o líquido. Por que a frase é apenas uma meia verdade? O que ela tenta esconder sobre as responsabilidades da companhia, abandonada no pós-privatização pela busca do lucro máximo?

Por Hugo Oliveira, em Outras Palavras

Recentemente, uma declaração do diretor regional da Sabesp, Marco Barros, ecoou como um lembrete incômodo da visão limitada que ainda domina o setor de saneamento: “Nós não fabricamos a água, a gente trata a água”. À primeira vista, a frase parece um raciocínio lógico inquestionável — afinal, a ciência ainda não sintetiza H²O em escala industrial. No entanto, sob a ótica da gestão pública e ambiental, essa afirmação é uma perigosa meia-verdade que mascara a omissão institucional frente à segurança hídrica.

Se é verdade que não “fabricamos” moléculas, é igualmente verdade que uma concessionária moderna tem o dever de “produzir” disponibilidade hídrica. Isso se faz com infraestrutura verde. Quando uma empresa negligencia o reflorestamento de nascentes e a recuperação de matas ciliares, ela está, por omissão, destruindo sua própria matéria-prima.

As florestas funcionam como a “linha de montagem” da água: elas garantem a infiltração da chuva no solo, alimentam os lençóis freáticos e mantêm a vazão dos rios em períodos de seca. Sem o verde, a chuva que cai sobre o Sistema Cantareira escorre rapidamente, carregando sedimentos que assoreiam os reservatórios e elevam os custos de tratamento. Dizer que “dependemos das chuvas” sem investir na capacidade do solo de retê-las é como um administrador de estoque que culpa a fábrica pela falta de produtos, enquanto deixa as portas do armazém escancaradas para o desperdício.

O Ralo da Privatização

A falha na “fabricação” de água torna-se ainda mais grave quando olhamos para as redes de distribuição. A eficiência é a forma mais barata e rápida de gerar água nova no sistema. Contudo, o que se observa na era da gestão privada da Sabesp é uma contradição alarmante entre lucros recordes e indicadores operacionais decadentes.

Dados recentes apontam que, no primeiro ano após a desestatização, a retirada de água dos reservatórios aumentou cerca de 10% (de 66 m³/s para 72 m³/s), um salto que não encontra justificativa no crescimento populacional ou na expansão da rede. O que esses números sugerem é um aumento drástico nas perdas físicas. Enquanto a companhia celebrou um lucro líquido de R$ 1,96 bilhão apenas no segundo trimestre de 2025, quase um terço de toda a água tratada (cerca de 29,4%) se perde em vazamentos antes de chegar ao consumidor.

Essa ineficiência tem raízes claras. A substituição de quadros técnicos experientes por mão de obra terceirizada e menos remunerada — uma estratégia comum para inflar dividendos a curto prazo — resulta em uma resposta lenta a rompimentos de adutoras e manutenções preventivas falhas.

A responsabilidade além do lucro

Uma concessionária de saneamento não pode se comportar como uma mera revendedora de um recurso finito. Ela deve ser a guardiã do ciclo hidrológico. Isso exige:

Investimento em Natureza: Reflorestar nascentes não é “custo ambiental”, é investimento em produção de água.

Blindagem Sanitária: Evitar a contaminação dos mananciais para que o tratamento seja uma etapa de segurança, não um milagre químico sobre água morta.

Zelo Operacional: É eticamente inaceitável pedir economia ao cidadão enquanto a empresa permite que bilhões de litros escorram pelo asfalto devido à falta de manutenção.

A água não cai do céu apenas como chuva; ela emerge da terra que é bem cuidada e chega às torneiras através de canos que não vazam. Enquanto a gestão focar apenas no balanço financeiro e na “dança da chuva”, continuaremos reféns de crises que poderiam ser evitadas. A Sabesp pode não fabricar a água, mas tem total responsabilidade sobre o fato de ela estar desaparecendo.

Foto: Agência Brasil

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