O Comum deveria ser a alma da vida urbana. Mas o desenho das metrópoles amplia o mal-estar coletivo. Poderia um planejamento, a partir do Cuidado e da desaceleração, mitigar o sofrimento psíquico? Reflexões a partir do urbanismo, da psicanálise e do “andar de baixo”
Por Rôney Rodrigues, em Outras Palavras
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
Carlos Drummond de Andrade, em “Elegia 1938” (O Sentimento do Mundo, 1940)
Edvaldo Gonçalves de Souza, um cara franzino, negro e cinquentão, viveu anos nas ruas de São Paulo. Viveu, não morou, frisa, pois sarjeta não é casa. Conheço-o há quase dez anos. Hoje liderança do movimento da população em situação de rua, ele nunca furta-se a descrever uma cidade que parece desenhada para adoecer as pessoas. “São tantas coisas, bicho”… E aí vão reticências, até encontrar palavras adequadas para narrar o apartheid urbano, que conhece muito bem porque viveu na pele; é um desterrado da metrópole, que foi empurrado para trabalhos cada vez mais precários, amargou o desemprego, afundou-se na depressão, o que, junto com um desarranjo familiar, o fez buscar consolo na aguardente, ser despejado e ir parar no olho da rua… e comer o pão que o capital sovou.
É provável que Edvaldo seja cético quanto ao ideal de cidade que lemos nos livros de História. Que ela teria surgido da necessidade de sobrevivência da espécie humana, pois as técnicas agropecuárias mostraram-se mais eficazes do que o modo de vida ancestral — de caça e coleta — para obter alimentos. De um imperativo da autopoiese que forja sistemas, com regras, valores e instituições, para apoiar a vida a partir da convivência e da colaboração. Ou o da modernidade ocidental: transcender as trocas mercantis, tornando-se um lugar privilegiado de novas sociabilidades e sensibilidades… Uma plataforma de igualdades! Um “cadinho” de criatividade humana! Um espaço de encontro entre diferentes! Um laboratório fundamental para o exercício da democracia e da cidadania!
“Eu vejo, na real, que é uma cidade de bitolados”, conta-me Edvaldo. “Todo mundo no seu mundinho”. O sofrimento alheio é tanto que virou uma paisagem urbana, é seu ponto de vista; pois, quando acostado na calçada da rua Nestor Pestana, centro de São Paulo, não é que vivia a vida que ninguém vê, mas uma vida ignorada não por descaso, talvez devido à certa impotência individual frente a um problema tão profundo. Isso dói, diz com a grandiloquência de lideranças em plenárias, dói muito, a falta de empatia ceifa qualquer esperança na humanidade, sugere, apesar de sempre ressaltar que nem só de desgraças vive o homem na rua, mas também da solidariedade (não tão abundante), com ajudinhas aqui e acolá. Edvaldo aponta, com triste razão, que uma criança vendendo balinhas para ajudar nas contas de casa, alguém no semáforo com um cartaz escrito ESTOU COM FOME, famílias inteiras abrigadas sob viadutos em barracas de camping, mães suplicando arroz ou feijão na porta de supermercados, levas de fissurados por uma pedra de crack ou fileiras de gente com cobertores puídos nas praças já não sensibilizam ninguém…
A indiferença que atinge as pessoas em situação de rua é, na verdade, apenas a face mais visível de uma falta de sensibilidade que contamina as relações sociais em todas as suas esferas. Ao menos, é o que podemos apreender com o psicanalista Christian Dunker, que narra em seu canal um experimento informal conduzido por seu filho — que deve ter menos “entraves sociais” do que Edvaldo, suponho. Andou por um bairro abastado, cumprimentando todos que encontrava com um “bom dia, como vai você?”. Depois de, talvez, uma centena de vãs saudações, quase nenhuma respondeu. Por quê?
“O que a gente está perdendo é o que eu chamo de princípio de cidade, que é o princípio da diferença, o princípio da incerteza de que é possível falar com o outro no espaço público”, reflete o psicanalista, autor de livros como Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo, 2015) e Uma biografia da depressão (Paidós, 2021). “Nós entendemos que o outro, quando se aproxima de nós, quando ele pede alguma coisa, quando ele quer alguma coisa, é uma situação tensa, é uma situação que deve ser tratada com afeto do medo, é uma situação em que há um interesse potencialmente perigoso vindo do outro.”
Sua hipótese: o “sofrimento por excesso de experiências improdutivas de determinação” é abundante na vida urbana contemporânea. Numa paráfrase minha, sem recorrer aos conceitos lacanianos costumeiramente evocados por Dunker, uma cidade que funciona como um relógio, previsível e normatizada, mas que não acolhe, não reconhece e não inclui, gerando um profundo mal-estar. O sofrimento, portanto, não viria apenas da pobreza material ou da precariedade, embora elas sejam centrais, mas também da perda da possibilidade do encontro, das trocas, das experiências genuínas no espaço público.
A “AGITAÇÃO”
Georg Simmel foi sagaz ao diagnosticar elementos desta “bitolação” e mal-estar nas metrópoles modernas europeias na virada do século XIX para o XX, inchadas com o êxodo rural: chegavam de todo lado pessoas que abandonaram não apenas suas pequenas comunidades, mas também vínculos afetivos e relações mais personalizadas. Autor do clássico A Metrópole e a Vida Mental (1903), o sociólogo alemão apontava que estas pessoas depararam-se com o devir permanente e o ritmo febril da urbanidade, movidos pela “economia do dinheiro”, que consolidava-se como símbolo de abstração e mediação na vida social. O resultado foi o surgimento de certa psique urbana — a atitude blasé. Com tantos estímulos sensoriais, seria de se esperar um conjunto de emoções desengajadas e a racionalização da vida como forma de autoproteção, diluindo boa parte do potencial de laços sociais no território.
Relendo a obra de Simmel no contexto da consolidação da ideia (e ideal) de metrópole, poderíamos especular que a subjetividade neoliberal pode ter desequilibrado a balança dos sentimentos contraditórios de se viver nas grandes cidades? Talvez a vigilância constante, a alta competitividade, as novas formas de precarização do trabalho, o “empreendedorismo de si mesmo” e as múltiplas formas de alienação pesem, hoje, mais que a sensação de opacidade na multidão a qual descrevia, as grandes promessas de oportunidades e a sensação de pertencimento na pólis?…
Semana passada, um cara sentou-se ao meu lado no metrô, mesmo havendo outros assentos vazios, e puxou conversa. Era Carnaval: ele estava um pouco alto; e eu também. Tirei um dos fones de ouvido para escutá-lo. Ele mora em São Mateus, trabalha com manutenção predial e, no meio da prosa, revelou um desejo sincero: queria muito — muito mesmo! — recomeçar a vida no interior com a família. Imaginei que o motivo fosse devido ao custo de vida em São Paulo, à violência, ao moedor que é o transporte público ou à insegurança laboral. Não era nada disso. O que o incomodava era a “agitação da cidade grande”. Pedi para ele explicar melhor essa sensação, mas havia uma trava na garganta: “sei lá, São Paulo tem uma agitação, tudo é correria, sei lá, agitação, sabe?”. Não insisti, pois não estava em um trabalho de campo e, também, logo desci na minha estação.
Ele estava farto da máquina de aceleração psíquica que são as grandes cidades, era fato, se quisermos continuar na toada do pensamento simmeliano. Uma concentração de milhões de pessoas não implica, necessariamente, sensação de pertencimento e comunidade; talvez nem no próprio bairro ou vizinhança. E o interior, para ele, deve representar o oposto: um ritmo mais lento, previsível e uniforme, sem precisar estar sempre alerta. Uma busca — idílica? — de afeto na vida provinciana, livre da “agitação”. Será isso?
Se for, claro, ele não é o único. Há massas em busca de outra relação com a cidade que não seja “metropolitana”. O Censo 2022 mostrou que as grandes metrópoles estão perdendo o ritmo de crescimento que sempre tiveram no processo de urbanização brasileiro. Cidades médias e polos regionais ganham fôlego demográfico e econômico. Este fenômeno reflete um Brasil que se desindustrializa e abre caminho para a reprimarização da economia — e, logo, para as regiões que sustentam e alavancam o agronegócio. Mas há outro, talvez de menor escala, mas que deve também motivar parte deste êxodo: o frenesi metropolitano — a “agitação”. Uma paisagem cinza, com sinfonia de buzinas, muita gente indiferente, o que se soma a uma realidade cruel de aluguéis caros, transporte precário e aumento da violência.
CIDADE ADOECIDAS?
A relação entre a questão urbana e saúde mental, claro, é complexa. Cada metrópole, mesmo que tomadas somente as brasileiras, tem seu processo de formação, particularidades culturais, problemas específicos e efervescências singulares. Mas, talvez, mais coisas as conectam do que as afastam. Mas é preciso pensá-las a partir da chave do sofrimento psíquico num país onde as doenças mentais são o terceiro maior conjunto de morbidades na sociedade, atrás apenas das doenças cardiovasculares e oncológicas.
A herança colonial e as desigualdades estruturais que marcam o Brasil estão, sem dúvida, entre os principais motores do sofrimento psíquico. Nossas cidades forjaram-se sobre essas bases — e não há projeto urbanístico, por mais arrojado que seja, capaz de sanar esses gigantescos desafios. A superação dessa ferida exige, antes de tudo, um amplo projeto de reconstrução nacional. Portanto, nossa proposta é um recorte: observar como o modelo de cidade e as escolhas do planejamento urbano agravam o mal-estar coletivo — ou poderiam, ao contrário, ajudar a mitigá-lo.
Os impactos da vida nas grandes cidades sobre a saúde física — como o aumento de doenças cardiovasculares e respiratórias — são conhecidos há décadas. Mas, nos últimos tempos, quando a saúde mental ganhou atenção no debate público, são apresentadas evidências científicas de que a exposição ao ambiente urbano e a privação social geram mais risco de desenvolvimento de quadros de depressão, psicose e transtorno de ansiedade do que em zonas rurais. Um artigo com a coautoria de Paulo Saldiva, o renomado médico patologista, aponta que “o ambiente urbano desafia a saúde mental para além dos seus aspectos sociais, envolvendo questões físicas e materiais como a poluição ambiental e sonora; o espraiamento das cidades e a necessidade de longos períodos de deslocamento de casa para o trabalho e vice-versa; e, ainda, a progressiva substituição da paisagem natural pela chamada ‘selva de concreto’”.
A gênese da crise civilizatória que atravessamos ganha muitos nomes e sobrenomes: Capitalismo Financeirizado, Neoliberalismo, Capitalismo de Vigilância, Tecnofeudalismo, Capitalismo Canibal, Capitaloceno… E por aí vai. Ocorre o mesmo nos estudos urbanos. Um dos conceitos é o de Cidades Ansiosas, que se debruça sobre as maneiras sutis, porém cumulativas, pelas quais o planejamento urbano pode atenuar — ou intensificar — o estresse psicológico crônico. Examina como o ruído, a mobilidade precária, a fragmentação espacial, a falta de acesso equitativo a áreas verdes e à infraestrutura social, bem como a ausência de espaços de convivência, moldam o terreno emocional da vida urbana e se articulam para produzir — ou comprometer — o bem-estar. A premissa é compreender a cidade como um ecossistema emocional, no qual espaço, corpo e psique estão intrinsecamente interligados.
Mas, hoje, emerge um conceito, talvez, mais potente, ao cutucar estruturas do sistema: a Cidade do Cuidado. Coloca a vida no centro a partir da reprodução social — ainda relegadas ao âmbito privado e atribuídas quase compulsoriamente às mulheres, como expressão da divisão sexual do trabalho que sustenta as sociedades patriarcais capitalistas. “As políticas urbanas não são neutras em relação às construções de gênero e, na verdade, fazem parte desse sistema, reproduzindo e aprofundando essas desigualdades. A organização territorial das cidades, sobretudo na América Latina, invisibiliza e dificulta a realização das necessidades cotidianas do cuidado”, aponta Kelly Komatsu Agopyan, do Centro de Síntese USP Cidades Globais, em artigo publicado pelo Jornal da USP.
Ela continua: “A ausência de uma infraestrutura de serviços capilarizada pelos bairros, que atenda às diferentes demandas de cuidado de forma integrada, também impacta diretamente a qualidade de vida das pessoas que cuidam — majoritariamente mulheres — e das que necessitam de cuidados — como crianças, idosos, pessoas com deficiência, entre outras”. E, quando o cuidado não pode ser pago, muitas famílias recorrem às redes de apoio formadas nas próprias comunidades, organizadas a partir de necessidades compartilhadas e, em grande parte, protagonizadas por mulheres, destaca a pesquisadora.
Diante do envelhecimento da população brasileira, por exemplo, as propostas da Cidade do Cuidado tornam-se candentes. Estudo indica que 34% dos idosos em áreas urbanas apresentam sintomas depressivos, com prevalência quase duas vezes maior entre as mulheres. Esses dados reforçam a necessidade de um planejamento voltado ao envelhecimento saudável, com ênfase no fortalecimento da vida de vizinhança — espaço fundamental para quem passa ali a maior parte do tempo, seja por limitações físicas, condições de saúde ou restrições financeiras.
HABITAR UMA CIDADE HOSTIL
Voltando a Edvaldo, meu amigo e liderança da população de rua. Ele conta que muita gente na cidade grande tem uma “maldade no coração”. Que se ele tivesse ganhado um real a cada vez que escutou um “vai trabalhar, vagabundo”, estaria rico. Tem, como insumo para pontificar sobre a natureza humana, sua trajetória e os relatos de outras pessoas em situação de rua. Elenca em choramingos nos papos de boteco os tais sintomas de “coração pobre”: comerciantes que negam até “um copo de água da torneira”. Seguranças privados que lançam rojões para acordá-las ou afugentá-las, só por diversão. Guardas municipais que as agridem gratuitamente ou confiscam seus parcos pertences, simplesmente porque podem fazer isso. Caminhões-pipa da Prefeitura que lançam jatos d’água contra elas… E o medo de sadismos mais extremos, companhia dos dias e noites: comida estragada (ou até envenenada!); coça de vigias noturnos; brutalidades nas madrugadas, como as que vitimaram o indígena Galvino, os meninos da Candelária e os sete “mendigos” mortos do Massacre da Praça da Sé.
E, claro, os truques para afastar os indesejáveis e garantir “espaços públicos mais seguros”. Pedras pontiagudas sob passarelas e viadutos, como aquelas que o padre Júlio Lancellotti demoliu a marretada. Cercas elétricas. Arames farpados. Grades no perímetro de praças e gramados. Bancos públicos com larguras inferiores ao recomendado. Ou curvados. Ou com geometrias irregulares. Lanças em muretas e guarda-corpos. Traves metálicas em portas de comércios. Pedras em áreas livres. Áreas com pavimentação irregular, desconfortável. Câmeras de circuito fechado com alto-falantes. Estética da fortaleza. Equipes de segurança rondando a região, aplicando punições criminosas à “escória”.
Este Urbanismo Hostil — olha aí outro conceito — talvez seja o exemplo mais extremo, no espaço urbano, de apartar o convívio e as pessoas. O termo se popularizou em 2014, após artigo do jornalista Ben Quinn no The Guardian, que denunciou os efeitos desumanizadores desse tipo de planejamento e seu impacto no espaço público. O alvo central, costumeiramente, é a população em situação de rua — os sem-teto —, mas também pode se dirigir a skatistas, migrantes e imigrantes (principalmente, nordestinos, nortistas e africanos) recém-chegados à cidade, catadores de materiais recicláveis, famílias de ocupações despejadas ou que sofreram reintegração de posse, a massa de subalternos (que transita, come ou tira cochilos nos intervalos do trampo) ou adolescentes das periferias em rolê nas áreas centrais.
Porém, outras formas mais “sofisticadas” (ou nem tanto) produzem cidades hostis que contribuem para o adoecimento das maiorias. O apartheid urbano. O pânico. Uma ansiedade crônica.
Um deles é quanto ao direito à moradia digna e seu entorno. Como uma família pode viver sob o medo constante de ver a própria casa arrastada por enchentes ou soterrada por deslizamentos — tragédias recorrentes nas periferias brasileiras? Como sustentar qualquer horizonte de estabilidade em moradias insalubres? Um mapeamento da Casa Civil e do Ministério das Cidades, ao atualizar os critérios para identificar municípios mais suscetíveis a desastres, revelou um salto de 136% no número de cidades com moradores em áreas de risco desde 2012. Dados do MapBiomas mostram que a expansão das favelas ocorre desproporcionalmente nesses territórios: 18% de sua área está em regiões sujeitas a inundações e deslizamentos, ante 3% da média urbana nacional. Além disso, muitos vivem em condições terríveis.
A urbanista Ermínia Maricato, em entrevista ao Outras Cidades, afirma que um dos principais problemas de saúde pública está nas próprias casas: moradias insalubres, sem ventilação e quase sem distância entre si. São construções de três ou quatro andares erguidas a um metro — ou menos — umas das outras, sem insolação nem aeração adequadas, com quartos de janelas fechadas e fachadas sem revestimento, permitindo a infiltração de água e mantendo a umidade constante. Hoje, segundo ela, apenas 17% das construções brasileiras contam com a participação de arquitetos — um dado revelador, já que arquitetura ainda é tratada como um luxo, quando deveria ser entendida como questão de saúde pública, por meio de políticas públicas mais robustas de Assistência Técnica em Habitação de Interesse Social.
O verde urbano também é elemento central do bem-estar. A vegetação regula o microclima, reduz ilhas de calor, melhora a drenagem e favorece a biodiversidade. E impacta diretamente a saúde mental: a Teoria da Restauração da Atenção (ART) demonstra que ambientes naturais recuperam recursos cognitivos desgastados pela fadiga mental urbana. Além disso, criam espaços de respiro, convivência e atividade física. Porém, hoje, apenas 6,9% das áreas urbanas brasileiras são cobertas por vegetação, segundo levantamento do MapBiomas. Pesquisa do Instituto Semeia aponta que, embora a maioria dos brasileiros conheça os 569 parques naturais do país, um terço nunca os visitou. Entre os que não frequentam esses espaços, 42% citam a distância e os custos de deslocamento como principais barreiras, além da falta de informação sobre os locais.
O amplo acesso a espaços verdes é um componente relevante da resiliência urbana. Sua expansão de forma mais equitativa, sobretudo em áreas historicamente desassistidas, aponta para um caminho consistente — e respaldado por evidências — rumo a cidades mais equilibradas e inclusivas. Em cidades canadenses, um estudo sobre florestas urbanas indicou que moradores próximos a áreas verdes relataram menos queixas de saúde mental, independentemente de renda ou origem.
Outro desafio é a poluição sonora urbana, apontada pela Organização Mundial da Saúde como a segunda forma mais nociva de poluição ambiental, atrás apenas da atmosférica. Afeta sobretudo quem vive nas proximidades de vias de grande tráfego, zonas industriais e rotas aéreas. A exposição prolongada ao ruído está associada a distúrbios do sono, ansiedade, doenças cardiovasculares e à deterioração da qualidade de vida. No Brasil, ainda não há uma política nacional que obrigue o mapeamento sistemático do ruído urbano — o que resulta em monitoramento precário e em um enfrentamento insuficiente de um problema que já deveria ser tratado como questão central de saúde pública e bem-estar coletivo.
Acesso à infraestruturas de cultura e lazer também é fundamental para mitigar os efeitos de uma cidade hostil. Estudo do IBGE revela que um terço da população brasileira vive em cidades sem museu e apenas 57% têm acesso a salas de cinema no próprio município. A pesquisa “Cultura nas Capitais” complementa o cenário ao mostrar desigualdade racial no acesso: brancos lideram a frequência em museus (32%), bibliotecas (28%) e teatros (29%). Já não-brancos (pretos e pardos) são maioria em atividades populares, como shows (44% de pretos e 37% de pardos), festas (39% de pretos) e dança (27% de pretos). Os dados indicam, portanto, que espaços culturais institucionalizados permanecem mais associados à população branca, enquanto manifestações de massa e tradicionais reúnem proporcionalmente mais não-brancos. Ou seja, grandes cidades podem oferecer maior acesso a serviços, redes culturais e espaços de lazer, porém sob o signo da exclusão social.
E há, claro, o drama cotidiano do transporte público. Horas diárias no transporte coletivo roubam o descanso, espremem a convivência familiar, diminuem o lazer e aumentam a irritação. O desgaste é cumulativo. E cansaço acumulado vira terreno fértil para a depressão. Os brasileiros que residem em capitais perdem, em média, duas horas por dia no trânsito para se deslocar a compromissos como trabalho, escola, faculdade ou compras, mostra a Pesquisa Mobilidade Urbana 2022. Esse tempo acumulado representa 21 dias inteiros por ano — ou seja, quase um mês de um ano perdido no trânsito. Na Cidade do México, pesquisadores identificaram que o estresse ligado ao transporte contribui de forma relevante para sintomas depressivos — com impacto ainda maior entre mulheres. Cidades com transporte público eficiente e mobilidade ativa segura — caminhar, pedalar, circular com facilidade — fazem mais do que reduzir a poluição. Elas diminuem a tensão diária e tornam ea vida menos pesada.
“Entendemos que os bairros com vida são aqueles bem equipados, com comércio local, onde as pessoas ocupem a rua e exista uma mobilidade sustentável e segura, que prioriza o ir a pé ou de bicicleta em qualquer hora do dia, além da oferta de transporte público”, aponta a urbanista espanhola Adriana Ciocoletto, em entrevista ao Dois Pontos. “Aqueles que cultivam espaços saudáveis de encontro e socialização, equipados com bancos, com vegetação, com árvores, com fontes, com água, com sombra, com sol, bem iluminados e usados por todas as pessoas. A partir dessas soluções, genéricas, há muitas outras, mas essa é a resposta do Urbanismo Feminista: colocar a vida no centro”.
COMO ENFRENTAR O MEDO DE VIVER O ESPAÇO PÚBLICO?
A exposição à violência pesa diretamente sobre a saúde mental — e é um fator que o planejamento urbano pode ajudar a mitigar, sobretudo entre mulheres em situação de maior vulnerabilidade social. A realidade é tenebrosa: pesquisa dos Institutos Patrícia Galvão e Locomotiva revela que 97% das brasileiras têm medo de sofrer violência ao se deslocar pela cidade, sobretudo assalto, estupro, assédio e importunação. Sete em cada dez já vivenciaram alguma dessas agressões, com maior incidência nas periferias. Diante disso, predominam estratégias individuais de autoproteção: evitar ruas desertas ou escuras, escolher onde sentar no transporte e restringir saídas noturnas. Pesquisa Datafolha aponta que 64% dos brasileiros sentem medo de sair à noite nas cidades, sendo que 37% se declaram muito inseguros e 27%, um pouco inseguros. O receio é maior entre as mulheres, com 45% delas relatando insegurança, contra 27% dos homens. No recorte racial, 42% dos pretos afirmam se sentir muito inseguros, índice que supera os 34% dos brancos e os 36% dos pardos. Há, também, uma elevada exposição da população a eventos traumáticos (86%), dos quais 11% apresentariam risco para desenvolvimento de um transtorno do estresse pós-traumático (TEPT); as favelas seriam grandes bolsões de traumas, alvos perenes da violência policial.
Embora a violência no Brasil seja complexa e multifacetada, o planejamento urbano pode contribuir de forma consistente para reduzi-la. O conceito de Cidade do Cuidado aponta algumas alternativas concretas. Um primeiro ponto é inspirado no modelo da “cidade de 15 minutos”, propondo um planejamento que garanta serviços essenciais próximos à moradia — como creches, escolas, unidades de saúde e mercados — e incentive ruas ativas, com fachadas abertas para o espaço público. O medo e a sensação de insegurança também se intensificam em ambientes mal iluminados e com “pontos cegos”, muros altos, terrenos abandonados e calçadas estreitas. A experiência urbana demonstra que a segurança depende menos do policiamento ostensivo e mais da presença constante e diversa de pessoas nas ruas — os “olhos para a rua”, como definiu Jane Jacobs, em Morte e Vida de Grandes Cidades. A ocupação cotidiana do espaço público funciona, por si, como forma eficaz de vigilância informal e proteção coletiva.
Outro é que a proliferação de condomínios fechados e bairros monofuncionais cria desertos urbanos, esvazia o espaço público e enfraquece laços comunitários. A Cidade do Cuidado, em sentido oposto, aposta na diversidade social como base da segurança urbana. Isso implica evitar zonas exclusivamente residenciais e isoladas, priorizando moradias sociais bem localizadas e integradas à cidade. Nessa perspectiva, a segurança emerge da densidade com diversidade, não do isolamento. Um terceiro ponto é que praças e espaços públicos vazios tendem a ser percebidos como ameaçadores; quando ocupados, tornam-se espaços de pertencimento e identidade coletiva. Essa vitalidade pode ser estimulada por feiras, eventos culturais, atividades esportivas, programação noturna e redes de vizinhança ativas. No fim, uma cidade cuidada é uma cidade vivida no espaço público.
Por fim, mulheres costumam realizar deslocamentos mais complexos e encadeados — casa, escola, trabalho, mercado — o que exige um sistema de mobilidade sensível a essa rotina. Para ampliar a segurança, são importantes medidas como pontos de ônibus bem iluminados, possibilidade de parada noturna fora dos pontos fixos, canais ágeis de denúncia, vigilância comunitária e integração tarifária que evite múltiplos pagamentos ao longo do trajeto.
O TEMPO DO CAPITAL E O TEMPO DO SER HUMANO
Agora, voltemos ao psicanalista Christian Dunker.
Ele, que analisou em profundidade a privatização do espaço público e a formação de “ilhas de segurança”, um elemento que corrói as subjetividades nas grandes cidades, aponta como esta dinâmica foi absorvida pelo planejamento urbano, contribuindo para o surgimento de microfascismos na sociedade. Utiliza duas metonímias para exemplificar sua hipótese.
A primeira é o trânsito — o nosso modelo rodoviarista de cidade. “Cada um tem o seu carro, cada um tem o seu caminho, cada um tem a sua buzina, cada um tem a possibilidade de interagir com o outro e de dizer para o outro aquilo que bem entende, uma vez que está na posse daquele instrumento, daquela sua casa móvel que circula pela cidade”, analisa Dunker. “Esse modo de relação, baseado na identidade e no excesso de indivíduo, está chegando a uma espécie de esgotamento. Contra isso, seria preciso reinventar o que é a experiência da circulação, voltar à ideia de que a circulação das pessoas deve seguir regras semelhantes à circulação das palavras.”
A outra é a lógica dos condomínios, um de seus grandes temas de pesquisa. Segundo ele, o neoliberalismo representou, também, uma virada na concepção de cidades. Paulatinamente, o Estado foi demitido pelo “mercado”, transferindo suas tarefas para o setor privado. E as classes altas e as novas classes médias em ascensão passaram a fazer suas próprias cidades. A propagação de projetos habitacionais de luxo, como Alphaville, desconectados da vida urbana, seria simbólica. “Uma vida governada segundo exigência de autorrealização, em que o conceito de ‘estilo de vida total’”, escreve o psicanalista, “baseia-se, como os antigos leprosários e hospícios, na promessa de recuperação e reconstrução da experiência perdida”. Sairia de cena, então, o autocrata “arrogante, de ego espaçoso e rígido” para dar lugar ao síndico “que, em vez de perguntar ‘Sabe com quem está falando?’, murmura entre dentes, ou simplesmente faz escutar sem dizer palavra alguma: ‘Só estou zelando pelo regulamento’”. O Estado, portanto, delegaria aos “síndicos do capital” — encarnados, também, na figura dos “gestores” da cidade — o seu funcionamento. “Você começa a criar uma mentalidade paranoica. O outro vira um bicho potencialmente perigoso e isso gera um sofrimento característico”.
Isso refletiria o modelo de privatização do espaço público, em que um pequeno grupo de indivíduos ou empresas detém autoritariamente o controle do território, excluindo a coletividade da vivência urbana. Um ambiente propício para os microfascismos, portanto. A intolerância, o patrulhamento moral e a repressão sistemática são as armas. E os alvos são os indesejáveis da metrópole, como Edvaldo e tantos outros.
Mas, se você chegou até aqui, sublinho que a crítica, mesmo a mais contundente, não pode resvalar num pessimismo imobilizador. Apesar dos graves problemas estruturais e do alastramento do sofrimento psíquico, é importante “complexificar”. Afinal, se a metrópole hiperestimula, também amplia repertórios subjetivos. Aprendemos a conviver com a diferença, exercitamos a tolerância à ambiguidade e construímos identidades múltiplas. A subjetividade urbana tende a ser mais flexível, híbrida e menos rígida. Não é apenas sobrecarga — pode ser também “refinamento psíquico”.
Movimentos urbanos emergem como formas de recompor pertencimentos. Se o sofrimento urbano é um fenômeno político, ele também pode se converter em ação. As cidades não produzem apenas exclusão; produzem movimentos sociais, ocupações culturais, redes de solidariedade, mutirões, hortas comunitárias, coletivos de cuidado… Quando a cidade entra em crise, irrompem formas de resistência e reinvenção. Há sofrimento — mas há também sua politização. A cidade pode ser máquina de exclusão e adoecimento, mas é igualmente incubadora de mundos possíveis. Concentra desigualdades e concentra imaginação política.
O urbanista indiano Rahul Mehrotra propõe pensar a cidade como um organismo em movimento, feito de relações, usos temporários, fluxos de pessoas e significados. Para ele, um grande equívoco do século XX foi acreditar que cidades se constroem apenas com edifícios. “Temporalidade e efemeridade não entram nos códigos urbanos. Enquanto esses sistemas não mudarem, a cidade continuará aprisionada no passado”, disse em entrevista à Veja. Cita, como exemplo concreto, feiras semanais que ocupam estacionamentos, sob o aval do poder público — e até o Carnaval brasileiro, que “muda a função da cidade de forma institucionalizada”.
E qual é o futuro das cidades? “As pessoas”, não hesitou em responder. “Porque, no fim, a condição urbana é fruto da energia humana, é criação humana. E acredito que, com a era digital e com a pressão da crise climática, as gerações mais jovens vão conduzir esse processo para que as cidades sejam mais equitativas. E é isso que me dá esperança”.
Podemos agregar ainda as contribuições das cosmovisões indígena e quilombola para pensar o bem viver nas cidades. Sugiro, nesse sentido, o artigo em que tratei especificamente desse tema. Mas, ao pensar na loucura das cidades, lembro-me de uma conversa que tive há um bom tempo atrás com Alexandre Delijaicov, um pesquisador conhecido por suas propostas para os rios urbanos de São Paulo, defendendo a reaproximação da cidade com seus cursos d’água e a transformação das várzeas em estruturas públicas multifuncionais, com transporte hidroviário, parques lineares e sistemas integrados de mobilidade. “Isto poderia aliviar o caos que vivemos na cidade”, perguntei.
“Isso não é caos”, respondeu o professor da USP. “Há método: é a lógica do capital, da dominação, da necessidade de submeter. As metrópoles são desenhadas, no seu corpo físico e espacial, para produzir essa sujeição. O tempo não passa — nós é que passamos por ele. Construir cidades exige uma dimensão poética: aprender a arte de conviver com as diferenças. É preciso criar policentros, multiplicar pontos de encontro, investir em infraestruturas leves. Recuperar a rua viva como espaço de convivência e de presença. Espalhar esquinas culturais, lugares de confluência entre mundos distintos. Tudo isso depende de uma construção coletiva do comum. A cidade é para o ser humano, não para servir de refém ao mercado. Ela deve facilitar o encontro, promover a convivência e o estar, transformando o fluxo em percurso”.
Entra aqui outro conceito: o Urbanismo Lento. Uma contraposição à cidade “fast food”, submetida ao tempo acelerado do capital. A crítica mira um modo de vida regido pela velocidade e pela instabilidade, que produz relações descartáveis e fragiliza vínculos. Aventa que nos deslocamentos também se exerce o direito à cidade. Por isso, deve ser igualitária: transporte mal planejado produz exclusão, bloqueia o acesso ao que é público. Não basta ligar extremos: é preciso fortalecer a escala do bairro, onde os percursos são curtos. Valoriza a rua, o conforto, o encontro. A escala humana transforma deslocamentos em experiência de habitar. Não apenas atravessar.
“Mas falta vontade política para concretizar isso, não?”, lancei ao professor Delijaicov.
Ele me corrigiu: não existe vontade política. Existe batalha política. “Nosso passado colonial ainda nos persegue. Para conquistar uma verdadeira autonomia crítica e de ação do ponto de vista coletivo, precisamos entender que as esquinas dos bairros, dos distritos, das subprefeituras, das cidades, dos estados, da União — toda essa confluência feliz rumo à construção do país — depende da autonomia crítica e da ação da autoria individual”, pontuou, inspirado.
“Em cada esquina, a cada três passos, podemos transformar nossa realidade. A arquitetura da cidade é o que importa: a construção coletiva do lugar não é dada, é luta. Precisamos nos libertar do olhar do colonizador. A cidade é coautoria e responsabilidade de todos os cidadãos.”
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Arte: André Mello
