48ª Romaria da Terra reafirma compromisso com justiça social, demarcação e democracia

Carta final do encontro, realizado no Santuário de Caaró (RS), denuncia violações históricas, defende reforma agrária e assume compromissos proféticos e pastorais

A 48ª edição da Romaria da Terra, realizada em 17 de fevereiro de 2026, no Santuário de Caaró, em Caibaté (RS), reafirma o compromisso da Igreja e dos movimentos populares com a justiça social, a defesa dos povos originários e a construção de um “novo céu e uma nova terra”, inspirado no lema bíblico do encontro.

Em memória aos 400 anos das Missões Jesuíticas e dos 270 anos da morte de Sepé Tiaraju, a Romaria resgata o grito histórico “Esta Terra tem dono” como denúncia das injustiças e expressão de resistência. O documento reconhece as violências cometidas contra os povos indígenas ao longo da história e assume a memória como caminho de verdade, reparação e reconciliação.

“Em memória aos 400 anos das Missões Jesuíticas e dos 270 anos da morte de Sepé Tiaraju, a Romaria resgata o grito histórico “Esta Terra tem dono””

A Carta denuncia a concentração fundiária, o racismo, o machismo, a homofobia e os impactos do agronegócio predatório, da mineração e de outros “empreendimentos de morte”. Reafirma a defesa da reforma agrária, da demarcação de terras indígenas e quilombolas, da agroecologia e da ecologia integral.

Entre os compromissos assumidos estão a proteção dos territórios tradicionais, o fortalecimento das organizações tradicionais e populares, a formação política nas comunidades, a promoção da soberania alimentar e a defesa da democracia, especialmente em contexto eleitoral, para que a fé não seja instrumentalizada pelo ódio ou pela violência.

A celebração da 48ª Romaria se encerra com o envio missionário, convocando comunidades e pastorais a manter viva, ao longo do ano, a luta por Terra, Teto e Trabalho, até que a “Terra sem Males” floresça como sinal concreto de justiça e vida plena.

“Entre os compromissos assumidos estão a proteção dos territórios tradicionais, o fortalecimento das organizações tradicionais e populares”

Leia a carta na íntegra: 

CARTA DA 48ª ROMARIA DA TERRA

Santuário de Caaró – Caibaté, Diocese de Santo Ângelo (RS).

17 de fevereiro de 2026.

A 48ª Romaria da Terra carrega, nos passos de romeiras e romeiros, a mística e a profecia do contínuo caminhar do Povo de Deus buscando a terra prometida, assim como da luta e utopia dos Guarani em busca da Terra Sem Males. Neste chão sagrado de Caaró, 400 anos depois das Missões Jesuíticas e dos 270 anos da morte do Santo Guerreiro, Sepé Tiaraju, ainda ecoa o seu brado:

“Alto lá! Esta Terra tem dono!”

Clamor que atravessa os séculos e permanece atual como denúncia das injustiças e anúncio de esperança e resistência.

Reunidos estamos sob o lema “Eu vi um novo céu e uma nova terra” (Ap 21,1). Aqui, neste lugar dos mártires missioneiros, Roque Gonzales, Afonso Rodrigues e João del Castillo, reafirmamos que nossa esperança não é fuga espiritual, mas compromisso histórico com a transformação das estruturas que geram morte. Portanto, a Terra Sem Males não é utopia distante, mas horizonte que orienta nossa peregrinação e compromisso cristão por justiça, dignidade e vida plena para todas e todos.

Nesta caminhada, com os pés firmes, com as mãos que se comunicam, com as boas palavras, a Romaria torna-se profundamente marcada pelas espiritualidades missioneira e guaranítica, que fazem do tempo presente memória – uma memória celebrativa e penitencial.

Reconhecemos, nesse caminho, com humildade e verdade, as violências cometidas contra os povos originários nestes mais de cinco séculos de evangelização nos quais, como Igreja Povo de Deus, muitas vezes fomos omissos e não tivemos ousadia profética para defender o direito e a justiça para os povos originários. Fazer memória é compromisso com a justiça. Não há reconciliação sem verdade; não há paz sem reparação.

Nossa Romaria é, também, peregrinação pela Mãe Terra, quando, outra vez, clamamos pela reforma agrária; demarcação dos territórios indígenas e quilombolas; agricultura camponesa e familiar fortalecida e por um mundo onde haja a efetiva partilha do pão e da justiça social.

Nossa Romaria, portanto, é profetismo, porque denuncia o pecado estrutural da ganância, da concentração da terra, da mercantilização da vida, do racismo, da homofobia, do machismo, que gera o feminicídio e todas as formas de opressão. Mas também anuncia um outro mundo possível, sinal do Reino de Deus, onde a vida esteja no centro, onde o amor prevaleça e a fraternidade guie as relações, para que se viva, aqui e agora, o novo céu e a nova terra anunciados por Jesus.

A Romaria da Terra é gesto político e eclesial. É expressão de que a fé não se separa da luta por direitos. É compromisso da Igreja Samaritana que se coloca junto aos pobres, aos povos originários, às comunidades quilombolas, aos trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade para que Terra, Teto e Trabalho estejam ao alcance de todos e todas.

É também momento de memória agradecida. Por isso, recordamos – com carinho e compromisso – nosso querido Frei Sérgio Görgen, romeiro dos romeiros, que fez sua Páscoa no dia 03 de fevereiro. Frei Sérgio, através de sua vida franciscana e do apoio radical às lutas sociais e camponesas, foi semente lançada em terra fértil. Semente que não morre: germina, floresce e permanece viva na caminhada do povo.

Em tempos de extremismos e de proliferação do fascismo, que ameaça à democracia e os direitos humanos, reafirmamos:

O Evangelho de Jesus Cristo nos chama à resistência e ao amor. Louvamos, nessa hora, a Mãe de Jesus e nossa, que em Guadalupe se fez próxima e se revelou ao índio Juan Diego e que caminha com seu povo, acolhendo lágrimas e fortalecendo a esperança.

NOSSOS COMPROMISSOS PROFÉTICOS E PASTORAIS

Ao concluir esta 48ª Romaria da Terra, assumimos que este momento não é ponto final, mas envio missionário.

E perante este mandato comprometemo-nos a transformar essa experiência em prática concreta para:

  1. Defender incondicionalmente a demarcação e proteção dos territórios indígenas e quilombolas, colocando nossas comunidades, pastorais e organismos a serviço da proteção da vida e denunciando toda violência e invasão.
  2. Enfrentar os “empreendimentos de morte”, denunciando o agronegócio predatório, os monocultivos envenenados, as fábricas de celulose, a mineração e demais projetos que devastam territórios, rios, lagos, florestas e comunidades.
  3. Promover a Ecologia Integral como prática pastoral, incentivando a agroecologia, o reflorestamento com espécies nativas, a proteção das águas e o nosso compromisso com a defesa e proteção da Nossa Casa Comum, a Mãe Terra.
  4. Fortalecer a formação política e a espiritualidade libertadora, com processos permanentes de estudo sobre Doutrina Social da Igreja, direitos constitucionais, democracia e justiça socioambiental e climática.
  5. Assumir a memória histórica como compromisso de contrição e reparação, promovendo celebrações, escutas e iniciativas que reconheçam oficialmente as violências cometidas historicamente contra os povos originários.
  6. Inserir o espírito da Romaria na vida das comunidades, paróquias e escolas, elaborando subsídios celebrativos e formativos que mantenham viva a temática da terra ao longo do ano.
  7. Fortalecer as organizações populares, movimentos sociais e as economias solidárias, apoiando feiras da agricultura camponesa e indígena, redes de comercialização justa e iniciativas de soberania alimentar.
  8. Articular redes de cooperação entre campo e cidade, promovendo alianças entre comunidades de agricultores, assentamentos, aldeias, quilombos e comunidades urbanas.
  9. Exigir Memória, Justiça e Reparação Histórica, reivindicando políticas públicas de reconhecimento, valorização cultural e proteção das lideranças e comunidades ameaçadas.
  10. Ser Igreja de resistência e defesa da democracia, especialmente nos meses futuros – em tempo de período eleitoral – não permitindo que o nome de Deus seja usado para fins eleitoreiros, justificando-se a partir Dele, o ódio, a violência ou discriminação.

Seguimos em Romaria.

Com a coragem de Sepé.

Com a espiritualidade Guarani.

Com a firmeza dos profetas.

Com a ternura de nossa Mãe Maria.

Que o novo céu e a nova terra comecem agora – no compromisso concreto com a justiça, a democracia e a vida.

Até que a Terra sem Males floresça entre nós.

48ª Romaria da Terra reafirma compromisso com justiça social, demarcação e democracia. Foto: 48ª Romaria da Terra

Deixe um comentário

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.

20 − dezessete =