A mácula deixada pelo Estado de Israel na história do povo judeu está fadada a atravessar os próximos milênios
Ninguém poderia imaginar que o fim da Guerra Fria iria mergulhar o mundo em sangrentos conflitos – que saudades da Guerra Fria! Entre os muitos confrontos em meio à Guerra EUA-China em curso, a carnificina em escala industrial no Levante me atinge particularmente, porque a Palestina é a minha terra natal.
Com o fim do Império Otomano, a Palestina foi entregue à Inglaterra por mandato da Liga das Nações, que agenciou a imigração dos judeus do Leste Europeu. Os alemães, por sua vez, expulsaram seus (ex) cidadãos judeus para a Palestina nos anos 1930, Juden raus! Auf nach Palastina! No decorrer da Segunda Guerra Mundial, a Europa promoveu o extermínio em massa dos judeus. Com que direito as Nações Unidas resolveram partilhar a Palestina para despejar os sobreviventes europeus indesejados? Acharam por bem desvestir um santo para vestir outro – enquanto os judeus deixavam os campos de refugiados na Europa, os palestinos foram forçados a deixar as suas casas para se aglomerar nos campos de refugiados na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e ao longo das fronteiras com os países árabes vizinhos.
Durante a catástrofe, Al-Nakba, Israel ocupou uma área superior à designada no Plano de Partilha e 700 mil palestinos foram expulsos de suas terras. Em 1948, 1,3 milhão de árabes vivia na Palestina (900 mil em terras ocupadas por Israel e 400 mil na Cisjordânia e em Gaza). Apenas 200 mil palestinos foram autorizados a permanecer em Israel, o que garantia uma maioria judia no país. Em dezembro de 1948, as Nações Unidas aprovaram a Resolução 194, assegurando o direito de retorno dos refugiados palestinos às suas casas.
A crise causada pela criação do Estado de Israel motivou ainda a expulsão dos judeus que até então conviviam pacificamente com os muçulmanos nos países da África do Norte e do Oriente Médio. O resultado, na ocasião, foi a substituição dos 700 mil palestinos expulsos de suas terras por 700 mil judeus oriundos da Europa (400 mil) e dos países muçulmanos (300 mil).
Israel não restituiu os territórios palestinos designados no Plano de Partilha, nem permitiu o retorno dos 700 mil refugiados. Ao contrário, ocupou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza em 1967 – hoje a Cisjordânia encontra-se reduzida a limitadas áreas entrecortadas por ocupações e estradas controladas por Israel; e Gaza encontra-se totalmente arrasada.
Em sua política oficial de limpeza étnica, enquanto extermina e desterra gradualmente a população nativa da Palestina, o Estado Judeu promove ativamente a imigração e concede cidadania a judeus oriundos de qualquer parte do globo (mais de 1.500.000 russos vivem hoje em Israel, a maioria tendo emigrado nos anos 1990, após a dissolução da União Soviética).
Apesar dos sionistas de esquerda responsabilizarem o atual governo de direita israelense pelas atuais atrocidades, a violência contra os palestinos é centenária. A expulsão do povo nativo em 1948, a ocupação da Cisjordânia e de Gaza em 1967 e o assentamento de colonos em terras palestinas foram obras dos governos trabalhistas da esquerda sionista, acompanhadas por discursos dissimulados e apaziguadores. A direita no poder representa o coroamento deste processo.
Responsabilidade e anuência do genocídio palestino
Para a Europa, a criação do Estado de Israel serviu tanto para absorver os sobreviventes indesejados como para exorcizar o seu sentimento de culpa pelo extermínio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial – os palestinos pagaram e continuam pagando o preço pelos crimes que a civilização europeia cometeu em Auschwitz. O mundo ocidental e a maioria dos judeus festejaram as vitórias militares israelenses como atos heroicos que contrarrestavam a imagem do judeu brando e pacífico da diáspora (aventuras militares são efetivamente o avesso da cultura do judeu da diáspora).
Além disso, o antissemitismo judeu na Europa foi substituído pelo antissemitismo muçulmano. Neste sentido, a Europa e Israel têm um inimigo comum. Theodor Herzl, fundador do moderno sionismo político, no final do século XIX, escreveu que os judeus na Palestina deveriam “formar parte de uma fortaleza da Europa contra a Ásia, um posto avançado da civilização contra a barbárie” (O estado judeu). Historicamente considerados estrangeiros asiáticos na Europa, os judeus são hoje vistos como europeus em território asiático em guerra santa contra o Islão.
O pesadelo palestino foi acirrado após a investida do Hamas em 2023, embora as ofensivas terroristas do Estado de Israel por mais de sete décadas, documentadas tanto pelos palestinos como por historiadores israelenses, tenham sido muito mais bárbaras e cruéis do que a iniciativa de 7 de outubro. A grande maioria dos israelenses apoiou a operação militar do governo em Gaza. Na pesquisa Visão israelense da guerra entre Israel e Hamas, realizada em março e abril de 2024, apenas 4% dos judeus israelenses declararam que a ofensiva foi longe demais. Com base no relatório da pesquisa, que não abre os demais dados entre judeus e árabes israelenses, estima-se que 96% dos judeus israelenses consideravam que a intervenção militar foi adequada (51%) ou mesmo muito branda (45%).
No decorrer da história da humanidade, várias atrocidades foram empreendidas, mas os responsáveis pelos crimes faziam questão de acobertar os seus atos e se empenhavam em negar extermínios promovidos em escala industrial, porque os consideravam vergonhosos. O que estamos presenciando neste momento são povos, que se acreditam civilizados, apoiando ou se abstendo de boicotar uma nação que está promovendo uma carnificina em massa veiculada em tempo real, em que os algozes se orgulham dos crimes cometidos contra a humanidade, inclusive bloqueando ajuda humanitária às suas vítimas.
Os palestinos e os demais coletivos pró-palestinos fazem questão de declarar que são antissionistas, mas não antissemitas. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, por sua vez, instrumentalizando a memória do Holocausto, diz que fala tanto em nome do Estado Judeu como em nome dos judeus da diáspora (o reduzido número de judeus que se posiciona contra o Estado de Israel, inclusive os judeus ortodoxos Satmar e Neturei Karta, é considerado antissemita). Ou seja, o posicionamento do primeiro-ministro estimula o antissemitismo.
Quando e como terminará o pesadelo palestino? Embora somem 14 milhões – 7 milhões na diáspora, 3 milhões na Cisjordânia, 2 milhões em Gaza e 2 milhões em território israelense – o objetivo de Israel é varrer, desterrar a população nativa para provar aos judeus e ao mundo que a Palestina era uma terra sem povo antes da imigração dos judeus. Para os incrédulos que não acreditam que a Palestina era um deserto que foi transformado em oásis, Israel argumenta que os palestinos abandonaram as suas terras em 1948, assim como estão hoje evacuando a faixa de Gaza e as terras ocupadas pelos colonos judeus na Cisjordânia.
A Europa, principalmente a Alemanha, palco do Holocausto, reprime qualquer ato pró-Palestina. A despeito das manifestações em defesa do povo palestino ao redor do mundo, praticamente todos os países não muçulmanos continuam mantendo relações comerciais e diplomáticas com o Estado de Israel, mesmo aqueles que o acusam de estar cometendo genocídio, mesmo os membros do BRICS (iniciais de Brasil, Rússia, Índia, China e South Africa), que hoje inclui vários outros países emergentes. Israel alardeia que foi criado por determinação das Nações Unidas, embora se recuse sistematicamente a acatar as suas resoluções.
A Torah e a história do povo judeu foram moldadas e escritas a partir do Exílio Babilônico, há cerca de dois mil e quinhentos anos. Em 1945, logo após a Segunda Guerra Mundial, Sartre escreveu que a brandura dos judeus frente às injustiças e à violência é a verdadeira marca da grandeza do povo judeu. Em 1952, pouco depois da catástrofe que se abateu sobre os palestinos em 1948, Frantz Fanon nos advertiu que os judeus que se instalaram em Israel criariam em menos de cem anos um inconsciente coletivo diferente daquele que possuíam em 1945, nos países de onde foram expulsos. Setenta e quatro anos depois, qualquer que seja o desfecho do pesadelo palestino, podemos dizer que a mácula deixada pelo Estado de Israel na história do povo judeu está fadada a atravessar os próximos milênios.
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Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de Salaam Aleikum, Palestina! Nasceu na Palestina, filho de judeus poloneses sobreviventes do Holocausto, e chegou ao Brasil aos dois anos.
