A cidade neoliberal e a produção do consenso

Urbanização do Brasil intensificou-se nos anos 1980, junto à ascensão das lógicas neoliberais. O efeito foi também psíquico e simbólico: mais que espaços físicos, metrópoles converteram-se em arena da “guerra de todos contra todos”

Por Gustavo Gabriel Garcia, em Outras Palavras

A cidade, no contexto do neoliberalismo no Brasil, de forma mais intensa a partir da década de 1980, consolidou-se como o principal lócus da vida social de milhões de brasileiros. Esse processo tem origem no êxodo rural iniciado nos anos de 1940, impulsionado pela mecanização do campo, e se intensifica ao longo da segunda metade do século XX. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2024 cerca de 177,5 milhões de pessoas, o equivalente a 87,4% da população brasileira, vivem em áreas urbanas.

A urbanização brasileira ocorreu de forma acelerada e desigual, sem o devido planejamento territorial e social capaz de absorver essa massa populacional. Como consequência, as cidades passaram a concentrar graves problemas sociais, econômicos, políticos e humanos, expressos na precarização do trabalho, na segregação socioespacial, na crise da mobilidade e no esgotamento das formas tradicionais de sociabilidade urbana. Nesse sentido, é necessário desfazer o mito de que a cidade sempre foi o espaço natural da organização da vida social. No Brasil, a cidade emerge tardiamente e, desde sua origem, esteve associada sobretudo a funções administrativas e de controle, papel que se intensifica no presente, extrapolando sua condição de simples centro organizador para tornar-se um dispositivo ativo de gestão da vida.

No neoliberalismo contemporâneo, as cidades podem ser compreendidas como verdadeiras máquinas de reprodução do sistema econômico e simbólico. Elas constituem a base material e imaterial das trocas globais e nacionais, organizando rotinas de produção, circulação e consumo que atravessam integralmente a experiência cotidiana dos indivíduos. Mais do que um modelo econômico, o neoliberalismo opera como uma racionalidade política e cultural, capaz de produzir consensos e moldar subjetividades. Por meio de dispositivos institucionais, midiáticos e normativos, naturaliza-se uma determinada forma de viver a cidade, apresentada como inevitável, eficiente e moderna, ao mesmo tempo em que se reduz o espaço da crítica e do estranhamento.

Nesse contexto, o espaço urbano deixa de ser concebido prioritariamente como ambiente de desenvolvimento humano e passa a ser organizado segundo as exigências da produtividade, da circulação de mercadorias e da expansão do consumo. Os indivíduos tornam-se agentes funcionalizados desse processo, incorporando a lógica da eficiência e do desempenho como valores centrais da vida social. A cidade neoliberal, assim, transforma o que seria socialmente absurdo, a precarização generalizada, a competição permanente e a insegurança estrutural, em normalidade cotidiana.

A clássica formulação de Thomas Hobbes sobre a “guerra de todos contra todos” reaparece sob novas mediações. Nas cidades neoliberais, essa lógica se expressa na figura do “empreendedor de si mesmo”, que internaliza a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso individual e assume a autoexploração como virtude. Relações de trabalho instáveis, jornadas extensas e ausência de garantias passam a ser justificadas como escolhas pessoais, e não como resultado de uma estrutura econômica desigual. O consenso produzido sustenta a ideia de que não há lugar para todos e que a exclusão é um efeito colateral inevitável do funcionamento do mercado, ocultando a apropriação sistemática do trabalho coletivo por uma minoria economicamente privilegiada.

O Estado, longe de atuar como mediador neutro, frequentemente endossa essa racionalidade ao promover políticas de flexibilização trabalhista e ao enfraquecer mecanismos históricos de proteção social, como a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Ao mesmo tempo, difunde-se um discurso que associa dignidade exclusivamente ao esforço individual, despolitizando as relações de exploração e deslocando a responsabilidade estrutural para o plano moral do indivíduo. A atenção pública passa a ser capturada pelas imagens de sucesso e prosperidade amplamente divulgadas, enquanto se invisibilizam as condições materiais que sustentam o trabalho precário e a desigualdade urbana.

Paradoxalmente, o neoliberalismo no Brasil também foi capaz de integrar determinados circuitos econômicos e de circulação que permitiram a saída de milhões de pessoas da condição de miséria extrema. Contudo, esse movimento veio acompanhado da disseminação ainda mais profunda da racionalidade neoliberal entre os próprios grupos subalternizados. A instabilidade permanente, as flutuações do mercado e a ausência de garantias estruturais mantêm amplos setores da população em um limiar constante entre a pobreza e a exclusão.

Esse processo é reforçado pela difusão de discursos como a teologia da prosperidade, que atribui ao indivíduo a responsabilidade integral por seu destino econômico e transforma o fracasso material em sinal de insuficiência moral ou espiritual. Dessa forma, o neoliberalismo não opera apenas no plano econômico, mas também no plano psíquico e simbólico, produzindo sujeitos que reconhecem o mercado como único horizonte possível de realização pessoal e social. A cidade neoliberal, portanto, não é apenas um espaço físico, mas um dispositivo central de produção de consenso, conformação subjetiva e gestão da vida contemporânea.

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