“Lição para a sociedade”, diz líder indígena após derrubada de decreto sobre rio Tapajós

Auricelia Arapiun conta como foi a ocupação do terminal da Cargill, no Pará, que levou o governo a ceder após 33 dias

Por Isabel Seta | Edição: Ludmila Pizarro, Agência Pública

Reunidas em uma grande roda, dezenas de pessoas faziam um ritual de preparação no final de tarde da última segunda-feira, 23 de fevereiro. Com os enormes silos de soja e milho ao fundo e o relógio correndo contra o prazo dado pela Justiça para que elas desocupassem o entorno de um terminal portuário da Cargill, elas se preparavam para um possível confronto com forças policiais. Na multidão, alguém gritou para que olhassem o WhatsApp. Em poucos segundos, toda a tensão se dissipou – e se transformou em uma grande comemoração, como mostra o vídeo abaixo.

Depois de 33 dias de uma mobilização de vários povos indígenas da região Tapajós que ocupou a área da multinacional agrícola americana, obstruiu rodovias e interceptou uma embarcação que transportava grãos no rio Tapajós, eles conseguiram o que queriam: a revogação pelo governo federal do decreto 12.600 que abria caminho para a concessão à iniciativa privada de hidrovias em três rios amazônicos: Tapajós, Madeira e Tocantins.

“Fica uma lição para toda a sociedade: somente a luta popular, somente a nossa resistência e o nosso enfrentamento é capaz de mudar a realidade”, afirmou em entrevista à Agência Pública Auricelia Fonseca Arapiun, uma das principais lideranças do movimento dos povos indígenas do Baixo Tapajós.

Auricelia estava entre as cerca de 60 pessoas dos 14 povos do Baixo Tapajós que, no dia 22 de janeiro, iniciaram a ocupação do terminal da Cargill, às margens do Tapajós, em Santarém (PA), para protestar contra o decreto do governo Lula e contra um edital, publicado semanas antes, que previa uma licitação para fazer uma dragagem de manutenção no leito do rio, para facilitar a navegação de grandes embarcações.

“Não foi uma construção fácil, porque até para muitos parentes [termo usado por indígenas para se referir a outros indígenas] era coisa de doido ocupar a gigante do agronegócio”, disse Auricelia à Pública na entrevista (leia na íntegra mais abaixo).

“A própria Cargill não entrou com ação de reintegração de posse no começo, porque achavam que a gente não ia durar muito”, disse ela.

Mas eles duraram. Em dez dias, já eram 700 indígenas, que se organizaram para estabelecer cozinha, instalar banheiros e tendas, realizar assembleias de discussão e espalhar sua mensagem.

Na última sexta-feira, dia 20 de fevereiro, a tensão aumentou com uma ordem de reintegração de posse expedida pela Justiça que deu um prazo de 48 horas para a desocupação da área. A decisão se deu após uma ação da Associação dos Terminais Portuários e Estações de Transbordo de Cargas da Bacia Amazônica (Amport), que, assim como a Cargill, alegou na Justiça prejuízos financeiros provocados pelo bloqueio com a paralisação do escoamento de grãos.

Na manhã do dia seguinte, os manifestantes optaram por mais um movimento de pressão e ocuparam uma área interna do escritório da Cargill. “Nossa decisão não foi impulsiva e nem violenta. Foi construída coletivamente, a partir da escuta dos mais velhos, de análises jurídicas e políticas e da indignação diante do Decreto 12.600. Estamos aqui porque defendemos o direito de existir”, dizia uma carta aberta publicada pelo Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita), que representa os povos do Baixo Tapajós. Em notas à imprensa, a Cargill afirmou que suas operações foram interrompidas e que havia “fortes evidências de vandalismo” – acusação negada pela organização da ocupação.

A pressão surtiu efeito, e dois dias depois, Auricelia e outras lideranças viajaram à Brasília para se reunir com os ministros da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, e dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara.

Nesta segunda-feira, 23 de fevereiro, quando Boulos anunciou a decisão do presidente Lula de revogar o decreto, cerca de 1.500 pessoas participavam da manifestação, segundo as lideranças locais. Além dos povos do Baixo Tapajós, outros se juntaram à mobilização, como os Munduruku, Kayapó e Paraná.

“Nós somos movidos pelo rio, pela floresta, pela fé e pela coragem. Parecemos um povo tão pequeno, mas  somos gigantes quando a gente enfrenta o inimigo”, afirmou, em lágrimas, Alessandra Korap, uma das principais lideranças do povo Munduruku, em um vídeo gravado pouco depois do anúncio da revogação, publicado pelo Tapajós de Fato.

Segundo Auricelia, os povos da região não vão descansar e se sentem fortalecidos para enfrentar ameaças que ainda pairam sobre eles, como o projeto da Ferrogrão, uma ferrovia que visa ligar o Mato Grosso e o Pará para escoar a produção de grãos. Na última semana, um relatório técnico do Tribunal de Contas da União (TCU) recomendou a suspensão do andamento do processo da ferrovia até que sejam realizadas audiências públicas, conforme informações do Jornal O Globo.

Outro desafio será a eleição. Em outubro, os brasileiros vão às urnas eleger não apenas o presidente da República, mas também governadores, deputados federais e estaduais e renovar dois terços do Senado Federal.

À Pública, Auricelia disse que, até o momento, é pré-candidata à deputada estadual, mas que essa decisão ainda está sendo construída. “Meu maior medo é que esse espaço [de poder] eventualmente me mude”, disse ela. Leia a entrevista completa abaixo.

Agência Pública: Mais de um mês de ocupação e mobilização para o governo revogar o decreto. Qual o significado dessa vitória?

Auricélia: Eu fico até sem palavras pra dizer o quanto isso significa. Acho que fica uma lição para toda a sociedade e para toda a população: somente o povo, somente a luta popular, somente a nossa resistência e o nosso enfrentamento é capaz de fazer mudar a realidade que temos vivido hoje no nosso país. São muitas ameaças. Acho que nós, os povos indígenas da região do Tapajós, mostramos para a sociedade que os nossos direitos são inegociáveis, o nosso território é inegociável. É uma vitória histórica, não só para os povos indígenas. E é uma vitória para o próprio governo.

Em que sentido?

Primeiro porque eu acho que eles não reconheceram o erro, o decreto só foi revogado por muita pressão. Mas [foi uma vitória] para a ala do governo que a gente acredita, que nós votamos, que foi a esperança para tirarmos o autoritarismo do poder. Foi importante para que o governo também voltasse a enxergar a sua essência e os graves erros que tem cometido contra os nossos territórios e os nossos direitos. E para mostrar para o governo que, independentemente do governo que for, nós não iremos nos calar.

Você falou que foi uma vitória para toda a sociedade. Em relação ao rio Tapajós, quais os impactos atuais da navegação e de que maneira eles seriam agravados com a possível concessão da hidrovia para a iniciativa privada?

O rio Tapajós já sofre muitas ameaças. A hidrovia abriria ainda mais caminhos, que inclusive, já estão abertos, para a morte total do rio. O governo falava que ia fazer a dragagem de manutenção por conta das embarcações, mas nós nunca pedimos e nem tivemos necessidade de dragar o rio para navegar. A hidrovia tinha o único objetivo de atender ao agronegócio, que é o nosso principal inimigo, que tem muitos projetos de morte de vários corpos. É o mesmo agronegócio da Ferrogrão que ainda é uma ameaça aos povos indígenas. Nossa resposta para o governo é que ele não pode negociar as nossas vidas, nem com os nossos direitos. Os nossos rios, nossos territórios não estão à venda. Os danos seriam irreversíveis e irreparáveis. Esse decreto era uma tragédia anunciada para a Amazônia.

Lá na COP30 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025) vocês já estavam pedindo a revogação do decreto. Foi uma luta de vários meses. Como você interpreta a demora do governo em dar uma resposta?

É, realmente não foram só 30 dias. É muito tempo de luta pela proteção do rio Tapajós. Antes mesmo de qualquer decreto, a gente já lutava, inclusive pelo arquivamento da hidrelétrica São Luiz do Tapajós, que foi uma vitória do movimento indígena. Desde agosto, quando o governo assinou o decreto, a gente já vinha fazendo esse enfrentamento. Fomos para a COP com essa como principal pauta, porque como é que temos uma COP na Amazônia e o governo com projetos de privatização de rios, de mineração, vários projetos que nos impactam? Essa luta é política, mas ela é espiritual também. Durante a COP, os encantados falaram que era para nós voltarmos para o território, que a nossa força estava no território. Hoje faz muito sentido o que eles falaram para a gente. Esse espírito da ancestralidade guiou a gente o tempo todo. Porque lá na COP foram feitas promessas falsas, era o governo querendo dar respostas pra sociedade, porque não foi só para nós. Mas, foi um discurso que não nos convenceu, porque pela lei a consulta [aos povos indígenas] não é póstuma. É prévia. Nós falamos desde o começo que não aceitávamos a consulta sem revogação do decreto.

Sobre a ancestralidade. Vocês já falaram que aquele espaço da Cargill é sagrado. Por que? Qual é a história daquele lugar?

Santarém é a cidade mais antiga da Amazônia, [era] uma das mais populosas. E cidade no sentido do que é pensado como cidade hoje. Nós éramos muitos. Muitos mais do que somos hoje, muitos povos foram dizimados. Ali, onde está a Cargill, é um cemitério dos nossos antepassados. Inclusive, a Cargill já deveria ter pagado pelos danos à nossa ancestralidade. Foi um lugar muito significativo para a gente rememorar e guardar a memória dos nossos antepassados, acho que eles estão muito orgulhosos disso. Inclusive, nós falávamos que era uma retomada de território, não uma ocupação: quem invadiu foi a Cargill, não fomos nós. Ali antes era também uma praia, uma praia linda, eu ainda me lembro quando era criança e ia na cidade por algum motivo, de ver aquela praia com muita gente. Hoje, é um lugar impróprio para banho.

E como foi a construção da ocupação e a estratégia de mobilização, que envolveu muita gente, mulheres, crianças, jovens, anciãos. Pode contar?

Não é uma construção fácil, porque até para muitos parentes, inclusive, era coisa de doido ocupar a gigante do agronegócio, ainda mais sendo uma multinacional americana. Não foi fácil para a gente que estava na linha de frente, a gente não tinha recurso nenhum, a gente só tinha coragem.

Éramos em torno de 60 pessoas quando ocupamos no dia 22 de janeiro, sem alimentação, sem água. Fomos chamando a parentada, chamando os movimentos sociais, fazendo plenária e construindo e cativando a sociedade, chamando atenção do porquê estávamos lá e a sociedade toda foi aderindo à luta. Nas primeiras semanas, a população local não sabia que o rio Tapajós estava sendo privatizado, não sabia da gravidade do que estava acontecendo, a gente foi conscientizando. E o apoio que recebemos foi muito importante, porque agora, no final, tínhamos que alimentar 1.500 pessoas por dia. Teve muita gente falando que eram as ONGs que estavam por trás, sempre subestimando a nossa capacidade de mobilização. A própria Cargill não entrou com ação de reintegração no começo, porque achavam que a gente não ia durar muito.

Mas nós fomos construindo, construímos cozinha, colocamos banheiro, dormitório, espaço para os parentinhos [termo para se referir às crianças], para a saúde. E daí quando eles viram que não íamos sair, entraram com as ações judiciais.

Todo o apoio recebido, não só da população de Santarém, dos povos do [rio] Madeira e do [rio] Tocantins, mas também da sociedade e a união dos movimentos sociais foi o que fez com que esse decreto fosse revogado.

Você falou sobre como cativaram a sociedade. À distância, eu mesma pude acompanhar muito da ocupação pelas redes sociais. As páginas do movimento, mas também várias outras, produziram vídeos, conteúdos explicativos, vários posts. Em que medida a comunicação foi importante para o resultado que vocês tiveram?

Nós temos uma juventude muito boa, modéstia à parte. Uma juventude formada de base com muita consciência política, e a gente trabalha nessas formações, os nossos encontros e assembleias são espaços de formação.

Para mim, o espaço mais importante dessa ocupação era o dos parentinhos. Tenho certeza que estamos formando uma base muito forte do movimento indigena com a juventude e as crianças. Todos os dias, eles nos faziam chorar. A carta que eles escreveram, elas mesmas, com as próprias mãos, para o  presidente Lula foi muito significativa. Toda vez que chegavam na plenária (e nós tivemos plenária todos os dias), eles sempre surpreendiam a nós, as lideranças ali da linha frente.

Surpreendiam como?

Com a consciência deles, da importância que o rio tem na vida deles. A forma com que eles falavam. Eles fizeram poemas, músicas, gritos de guerra. Tudo isso foi muito forte. Voltar para o território com essa consciência dá muita força para a gente acreditar na luta em um momento em que o movimento indígena nacional tem muito recuo. No Tapajós, a gente se colocou em risco com essa mobilização, [mas] a gente sai muito fortalecido.

E a gente não vai descansar, porque não darão descanso para a gente. Revogou o decreto, mas não foi fácil revogar. E não sabemos quais foram os acordos com o agronegócio para que isso acontecesse. A batalha não é, e não vai ser, fácil. Mas estamos prontos para os próximos desafios.

Falando de próximos desafios. Durante a ocupação, um vereador chegou a avançar com o carro para cima dos manifestantes. Este é um ano eleitoral e sabemos do tamanho da bancada ruralista e anti-indígena no Congresso. Como os povos do Tapajós vão se preparar para a eleição?

Havia muita gente que falava que a ocupação era uma campanha política. Houve essa fala do próprio governo. Bom, e se fosse? E se fosse, qual o problema? Mas sim, a gente precisa se preparar para enfrentar as eleições, principalmente dentro desse Congresso, o Congresso inimigo do povo, dos povos indígenas. Precisamos preparar o nosso povo para nos representar para que a gente consiga aumentar a bancada indígena que está hoje no Congresso. É uma eleição muito desafiadora. Mas, [durante a mobilização] não chegamos a comentar sobre isso, alguns deputados [que estiveram na ocupação] falaram sobre isso, sobre nos prepararmos. Mas, enquanto movimento, a gente até evitava falar sobre eleições por conta do que podia ser interpretado, para não parecer que era algo partidário.

A nossa comunicação é muito preparada, todo mundo trabalhou voluntário, cada contribuição foi muito importante. Organizamos a nossa aldeia ali, infraestrutura, alimentação, os guardiões, tudo foi muito bem organizado, mas a gente sabe que tem um desafio das campanhas.

Mas você já pensou em sair candidata? Ou ainda não?

Eu tenho uma formação de base muito consolidada no movimento indígena. Sou do movimento desde a minha adolescência, sempre estive no Tapajós. Ultimamente tenho estado em vários espaços do movimento indígena nacional. Nas últimas eleições, cheguei a ser pré-candidata a vereadora de Santarém, mas desisti, porque achei que não era o meu momento. Também porque tenho muito medo disso e porque acho que as coisas acontecem na hora certa.

Mas, naquele momento, ficou muito evidente essa cobrança dos parentes, de quem não é parente, de simpatizantes: “acho que você tem que vir, tem que vir”. Mas estamos nesse processo de construção da minha pré-candidatura, até agora, estou pré-candidata à deputada estadual. Ainda estou muito na dúvida se é isso que eu quero, pelas minhas avaliações como liderança. E eu sou muito ligada à espiritualidade, tudo que eu faço é guiado por isso. A última resposta quem vai dar é a espiritualidade.

Você já é uma pessoa politicamente exposta, ainda que não seja política. Tem preocupação com a segurança?

Eu nunca tive preocupação, apesar de que eu já tive ameaças, tenho trauma, tive que sair da minha casa algumas vezes, nunca entrei em programa de proteção, porque acho que eles são falhos e não atendem a minha necessidade. Mas é uma das missões mais difíceis que eu posso vir a encarar, porque a exposição, as ameaças, os inimigos, que são inimigos declarados mesmo, vai ter muita perseguição. Mas eu não estou com medo não.

Se eu for mesmo [sair candidata], meu único medo é que esse espaço me mude e que eu seja uma outra pessoa, que eu não atenda às expectativas – minhas e dos parentes. Meu medo é que esse espaço possa vir a me transformar, tenho muita insegurança com isso, mas tenho pedido muito aos encantados que andam comigo que me guiem no caminho certo. E que se for a vontade deles eu ser candidata e eleita, que eu nunca perca minha essência, porque já vi muito isso acontecer quando as pessoas chegam em espaços de poder.

E, para terminar, queria te ouvir sobre demarcação, porque várias Terras Indígenas no Baixo Tapajós ainda precisam ser demarcadas. Como estão esses processos e quais as expectativas?

Vamos ter reunião hoje [quarta-feira, 25 de fevereiro] com a Funai para ter retorno sobre algumas demandas que apresentamos na semana passada. Uma delas, a Munduruku e Apiaká do Planalto Santareno, teve uma audiência [pública] na semana passada, [em Santarém], que foi meio tensa. Duas Terras Indígenas estão no momento da demarcação física, que é o ato antes da homologação [etapa final]. Estou na expectativa de que eles terminem esse serviço e que a gente receba a homologação ainda no governo Lula. Outras estão com os processos parados, outras para sair os RCIDs (Relatórios Circunstanciados de Identificação e Delimitação). A demarcação é a nossa pauta sempre.

Imagem: Hellen Joplin

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