Nostalgia da luz e saudade das trevas no frágil tempo presente. Por Hugo Souza

Todas as noites o centro da Galáxia passa por cima de Santiago do Chile. E por Havana e Caracas, do que restou da Cidade de Gaza e do que vai restar de Teerã, até não restar mais lugar nenhum.

No Come Ananás

“Nosso passado mais próximo é o passado mais escondido”, disse o arqueólogo Lautaro Núnez a Patricio Guzmán. Pode-se dizer que está nesta sentença um resumo — um duro resumo — do documentário Nostalgia da Luz, de 2010, de Guzmán.

É a sentença mais dura e definidora do documentário porque é um cotejo entre as três buscas concomitantes que acontecem no imenso deserto do Atacama, no norte do Chile: a da Astronomia, que se debruça sobre bilhões de anos atrás, a da Arqueologia, sobre milhões e milhares de anos atrás, e a busca pelos desaparecidos do golpe e da ditadura de Augusto Pinochet.

Esta última, a mais difícil de todas.

Até hoje, mulheres vasculham o Atacama atrás de vestígios das ossadas dos seus. Delas, muitos chilenos querem distância. Por isso, elas se sentem “a lepra do Chile”. Repetindo: a busca mais difícil de todas; “nosso passado mais próximo é o passado mais escondido”.

Sobrevivente da prisão de Chacabuco — a prisão da ditadura de Pinochet no Atacama — o arquiteto Miguel Lawner assombrou os genocidas quando foi capaz de desenhar em detalhes, tintim por tintim, medida por medida, as instalações do campo de concentração, após ser finalmente libertado.

“Miguel e sua esposa são para mim como uma metáfora do Chile — diz Guzmán. Miguel é a memória, enquanto ela é o esquecimento, porque sofre do Mal de Alzheimer”.

“Estou convencido — segue Guzmán — de que a memória tem a força da gravidade. Sempre nos atrai. Os que têm memória são capazes de viver no frágil tempo presente. Os que não a tem, não vivem em lugar nenhum. Todas as noites, lentamente, impassível, o centro da galáxia passa por cima de Santiago”.

Eram quase 10 da noite quando o piloto informou: “vamos atravessar a cordilheira”, e virou o avião, lentamente, rumo a Santiago. Na manobra, os Andes surgiram à esquerda, impassíveis também. Surgiram também as primeiras estrelas, tardias a 30 mil pés.

Em minha primeira vez atravessando a cordilheira, tardiamente, dois anos atrás, pensei imediatamente na força da gravidade e que em todas as noites o centro da galáxia passa por cima de Santiago, onde daqui a poucos dias, no próximo 11 de março, toma posse como presidente do Chile o pinochetista José Antonio Kast, eleito em dezembro, no frágil tempo presente, pelo Partido Republicano do Chile e por sete milhões de chilenos que não vivem em lugar nenhum.

Nostalgia da luz? Saudade das trevas.

Todas as noites o centro da Galáxia passa por cima de Santiago do Chile. E por cima de Havana e de Caracas, do que restou de Jabalia, Khan Younis e da Cidade de Gaza e do que vai restar de Úrmia, Qom e Teerã, até não restar mais lugar nenhum.

Cena do documentário Nostalgia da luz, de Patricio Guzmán.

 

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