Entidade aponta subnotificação por causa do medo de denunciar; município de Bacabal suspende pulverização
Mariana Castro, Brasil de Fato
Relatório publicado pela Rede de Agroecologia do Maranhão (Rama) aponta para uma verdadeira guerra química no estado do Maranhão, onde somente no mês de janeiro de 2026, já foram recebidos relatos de comunidades atingidas por agrotóxicos que superam todo o ano de 2025.
Em janeiro de 2026 foram registrados relatos de 142 comunidades de 16 municípios atingidas por agrotóxicos no estado do Maranhão, dado maior do que todo o ano de 2025, onde foram recebidos relatos de 122 comunidades.
“Lançados por aviões e drones, os agrotóxicos são considerados uma forma de expulsar as famílias de territórios tradicionais para dar lugar a pastos e monocultivos, como a soja”, explica a Secretária Executiva da Rama, Ariana Gomes.
“É uma verdadeira guerra química, porque esses instrumentos, esses equipamentos têm sido utilizados, de fato, para expulsar as comunidades de seus territórios, seja pela falta de alimento, porque há uma crescente perda da alimentação da agricultura familiar, porque os drones ou o próprio avião, não pulverizam só em cima do monocultivo, mas à deriva ele leva para a produção vizinha onde estão quilombolas, indígenas, quebradeiras de coco, comunidades tradicionais”, explica Ariana.
Apesar dos altos índices, a entidade considera que o número pode ser muito maior, considerando a subnotificação em razão do apagão de dados públicos e, especialmente, pelo medo que a população tem de denunciar.
“Há uma crescente violência contra quem denuncia, inclusive com quem também recebe as denúncias e encaminha aos órgãos competentes. Em 2025 foram 122 comunidades atingidas e essas subnotificações se dão justamente pelo medo de denunciarem, também pelo modus operandi que fazendeiros, sojicultores utilizam, que é pulverizar pelo período da noite, onde as pessoas não conseguem identificar”, complementa Ariana.
Um dos casos mais recentes do estado e que ganhou destaque pela brutalidade da ação aconteceu no povoado Pau D’Arco do Igapó, zona rural de Bacabal, onde o veneno atingiu as roças e corpos da família dos agricultores Maria Lecy e Joacy Oliveira, que relembra o momento.
“Senti aquele mau cheiro do veneno e já fui sentindo uma forte dor de cabeça, quando percebi que era veneno, chamei minha filha, pedi que ela filmasse que estavam jogando veneno e ia prejudicar as plantas. As plantas de ramas foram todas eliminadas e as plantas de fruta também sentiram bastante e ainda sentem”, relembra com pesar o agricultor familiar Joacy.
A lembrança da perda ainda está estampada nos frutos podres e nas folhas sem vida das árvores, de onde Maria Lecy lamenta a perda do sustento diário.
“Foi uma tristeza para mim, minha filha e meu velho, porque a gente trabalha para conseguir as coisas que tem vontade e hoje nossas frutas, que a gente tirava polpa de caju, vendia limão, acerola, a gente vendia várias frutas, maracujá e hoje a gente está sem as frutas, porque veio um drone e colocou um produto de veneno que atingiu as nossas frutas”, comenta Maria Lecy ao tocar os frutos podres ainda pendurados nas árvores do quintal.
Todas as denúncias foram protocoladas junto ao Ministério Público Estadual (MPE) e Federal (MPF), além do Conselho Nacional de Direitos Humanos e à Organização das Nações Unidas (ONU).
Bacabal declara situação de risco e suspende pulverização
No caso da família do agricultor Joacy, em Bacabal, foram protocolados ainda três projetos de lei; por alimentação saudável na merenda escolar, proteção e livre acesso a babaçuais, além da proibição da pulverização aérea de agrotóxicos.
Com base nesse esforço coletivo, na última sexta-feira (6), o prefeito Roberto Costa (MDB) assinou o Decreto nº 1.016/2026, que declara situação de risco sanitário e ambiental no município e suspende a pulverização aérea de agrotóxicos na região até a conclusão da tramitação legislativa.
O decreto destaca embasamento em relatórios técnicos e monitoramentos realizados por entidades da sociedade civil e instituições acadêmicas que apontam a ocorrência reiterada de pulverização aérea de agrotóxicos em comunidades rurais do estado e, em especial, no município de Bacabal.
“Enquanto Rede de Agroecologia, nós prezamos e lutamos pelo fortalecimento da agricultura familiar, pelo cuidado aos territórios tradicionais, pela água e pela vida, então viva a agroecologia, não ao veneno e contra todo esse modelo de produção capitalista”, destaca Ariana.
Ainda por meio do documento, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e a Secretaria Municipal de Agricultura, Abastecimento, Apicultura, Pecuária e Pesca, em conjunto com os demais órgãos competentes, deverão instaurar procedimento administrativo para apuração de denúncias, realização de vistorias técnicas, fiscalização das atividades potencialmente poluidoras, lavratura de autos de infração e adoção das medidas administrativas cabíveis.
Editado por: Luís Indriunas




