Por Caique Azael, em Outras Palavras
Desde 2018, o dia 14 de março nunca mais foi o mesmo. São oito anos desde a brutal execução de Marielle Franco, então vereadora pelo PSOL no Rio de Janeiro, e Anderson Gomes, seu motorista. Em 2026 temos um elemento novo na história: finalmente, após anos de muita pressão popular, em particular das lutas que sua família travou ao longo do caminho, o Supremo Tribunal Federal (STF) concluiu o julgamento dos mandantes do assassinato de Marielle e escancarou um ecossistema do crime que persiste no estado do Rio de Janeiro.
I. Justiça como atitude além da condenação
Desde 2018, acompanhamos a multiplicação de vozes, homenagens e lutas em memória de Marielle Franco. No Dicionário de Favelas Marielle Franco, acompanhamos a história de Sementes que Ecoam em vários espaços: há aquelas que trilham o bom combate no parlamento, como a própria viúva de Marielle, Monica Benício, vereadora da cidade do Rio, legislando na mesma casa em que Marielle legislou por dois anos antes de ser morta; ou no poder executivo, como a irmã de Marielle, Anielle Franco, atual Ministra da Igualdade Racial do Brasil; mas também há milhares de sementes espalhadas pelos movimentos sociais, universidades, instituições de pesquisa ou grupos diversos, produzindo movimento e mobilizando outros mundos todos os dias.
Para todas as sementes, o julgamento que ocorreu no último mês não foi apenas o fim de um rito jurídico, mas uma resposta a um ciclo de violências que persiste todos os dias em nosso país. Uma mulher, negra, favelada, socialista, bissexual, mãe, defensora dos direitos humanos… foi morta, a tiros, no exercício de seu mandato parlamentar, em uma das maiores metrópoles do mundo. Que tipo de fissura esse crime produz na democracia brasileira? Como a execução de Marielle é um analisador da situação do nosso país?
A dinâmica de eliminação dos inimigos e a perseguição política dos opositores são engrenagens vivas de um coronelismo urbano remodelado. Agora, com o fim do julgamento e com os mandantes e executores sentenciados, toda uma arquitetura do crime é revelada e o Estado participa como sócio da banditagem. No banco dos réus há deputado, conselheiro do TCU, chefe de polícia… Matar Marielle, assim como matar tantos jovens favelados cotidianamente, não é um sintoma de um Estado sem lei, mas é a certeza de que esse Estado foi capturado pelos grupos que operam o crime organizado de alta escala.
Durante o julgamento do caso no STF, o Ministro Flávio Dino descreveu o caso de Marielle como um produto de uma complexa máquina de poder, citando que este seria um assassinato produzido pelo ecossistema criminoso, que prospera na fusão entre milícias, grilagem de terras, racismo estrutural, misoginia e poder. No Dicionário de Favelas Marielle Franco, podemos observar análises em verbetes sobre a temática das milícias, que contribuem na elaboração sobre essas tramas. O envolvimento dos irmãos Brazão, políticos de longa data, ocupantes de cargos no poder legislativo e judiciário, e de Rivaldo Barbosa, o ex-chefe da Polícia Civil, ilustra uma realidade em que o mentor da execução mandava até mesmo em quem devia investigar o crime. Esse arranjo, que Monica Benício descreve como um ecossistema que amplia seus tentáculos, impõe uma lógica de domínio territorial e subjetivo que reproduz os tempos mais sombrios da nossa história, transformando a política em um campo de extermínio para quem ousa desafiar a grilagem, a milícia e o poder das famílias tradicionais. Essa estrutura de poder opera sob um autoritarismo capilarizado, uma forma particular de ditadura cotidiana que não precisa de um golpe institucionalizado para se manifestar, mas se faz presente em cada ameaça a lideranças comunitárias que não podem fazer política nas suas favelas, em cada operação policial que usa de tanques de guerra e nas execuções sumárias sob a justificativa de “restabelecer a ordem” (seja lá o que for a ordem).
Nas tramas do Rio de Janeiro, em que é difícil entender onde termina o Estado e começa o poder paralelo, a coerção de grupos opositores é regra, e as mulheres negras que ocupam espaços de poder sentem na pele todos os dias essa violência. Em estudo da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), a Deputada Federal Taliria Petrone aparece como a congressista mais ameaçada da atual legislatura. Já a Deputada Estadual Renata Souza, ex chefe de gabinete de Marielle, precisou recorrer à ONU e a à OEA diante de graves e seguidas ameaças à sua vida no começo do ano de 2026. Thais Ferreira, vereadora da cidade do Rio de Janeiro, precisou acionar medidas urgentes de segurança após criticar publicamente a chacina ocorrida no Rio de Janeiro em outubro de 2025, tendo recebido inúmeros ataques até mesmo envolvendo sua família. O que tem em comum entre Taliria, Renata e Thais? Três mulheres negras, mães e periféricas que, no uso dos seus poderes como parlamentares, têm denunciado o banditismo de estado e fortalecido redes de lutas em defesa de outro mundo. Assim como Marielle.
O que conecta Marielle e suas sementes não é a violência. É justamente a esperança compartilhada de que podemos construir um mundo em que a população viva em paz, com mulheres e meninas seguras, com a população negra livre do racismo, com uma cidade para todas as pessoas. Com segurança para os nossos direitos, tendo saúde, alimentação, educação, moradia, trabalho digno e tempo para viver além do trabalho. A violência é uma resposta ofensiva dos poderosos diante do acirramento da conjuntura e das pautas que apresentamos todos os dias para transformar o Brasil. A violência é um dispositivo de inscrição de medo, que visa controlar a potência política dos corpos favelados, negros e pobres.
Lutar por memória e comemorar o fim do processo de julgamento é também disputar simbolicamente que a impunidade não pode ser um caminho para os criminosos que tentaram calar Marielle Franco, disputando assim a própria noção de justiça. O fim do julgamento não traz Marielle e Anderson de volta. Nenhuma sentença paga a dor da execução de uma jovem parlamentar, mãe, esposa, amiga, filha, irmã. Sem dúvidas, o julgamento é uma sinalização de que a barbárie não pode ser recurso dentro da política, mas a verdadeira vitória contra esse coronelismo moderno estará na capacidade coletiva de manter viva a utopia de uma política que não precise de mártires, mas de participação livre, segura e plena para todas as pessoas.
II. Feminicídio Político e horizontes legislativos
Como analisa o sociólogo italiano Guido Viale, em reflexões compartilhadas pelo Instituto Humanitas Unisinos, uma das bases do patriarcado reside na pretensão do homem de considerar a mulher como sua “propriedade”. No capitalismo periférico brasileiro, essa noção de posse não se limita ao âmbito doméstico, mas se estende ao espaço público e ao campo político institucional, como na ocupação de cargos no executivo e legislativo.
Quando uma mulher negra e favelada ocupa a tribuna, ela está, aos olhos desse coronelismo urbano que descrevemos, invadindo uma propriedade que historicamente pertence aos homens, brancos, de famílias tradicionais (leia-se: ricas e poderosas). A violência política é uma das ferramentas de gestão que utiliza diferentes táticas, desde silenciamentos, agressões, assédios, até mesmo a execução, para restabelecer muros simbólicos.
É nesse cenário de enfrentamento que ganha força o debate sobre o feminicídio político. Não se trata apenas de um crime contra a vida de uma mulher, mas de um atentado contra o projeto coletivo que ela representa. No Congresso Nacional, propostas como o PL 953/2026 buscam tipificar essa modalidade de crime, endurecendo as penas e, sobretudo, criando mecanismos de proteção para mulheres que, como Renata Souza, Talíria Petrone e Thais Ferreira, seguem na linha de frente sob a mira do ódio organizado.
Segundo Renata Souza, em verbete publicado no Dicionário de Favelas, o feminicídio político não é apenas a junção do feminicídio com o assassinato político por convicções ideológicas. Ele é um crime que se amalgama na interseccionalidade, termo cunhado pela jurista Kimberlé Crenshaw e essencial para entendermos como raça, gênero e classe condicionam a estrutura de opressão no Brasil. Marielle não foi morta apenas por ser mulher ou apenas por sua atuação parlamentar. Ela foi executada porque seu corpo encarnava o desafio máximo ao sistema racista-patriarcal-classista: era uma mulher negra e periférica em ascensão política meteórica. Ao utilizarmos a fórmula gênero+raça/etnia+classe, revelamos que a visibilidade pública de Marielle a tornava, para o sistema, um corpo matável.
Tipificar o feminicídio político é um passo civilizatório, mas não basta se o endurecimento de um tipo penal não for acompanhado de mecanismos cotidianos de sufocamento de práticas de violência. Na Assembleia Legislativa de São Paulo, por exemplo, um deputado estadual da bancada bolsonarista é acusado de violência contra mulher, cometeu atos de violências contra deputadas da casa e segue no exercício de seu mandato. Não falamos de punições antes do devido processo legal, mas a criação de protocolos de afastamentos durante as investigações, por exemplo, é fundamental.
Sem isso, não avançamos no reconhecimento de que há uma falha geológica projetada nas tramas do poder institucional que vulnerabiliza ainda mais lideranças femininas, negras e periféricas. Estabelecer protocolos de combate a todo tipo de violência contra mulheres – inclusive alguns previstos no recém promulgado Pacto Federativo de Enfrentamento ao Feminicídio, assinado pelo presidente Lula em fevereiro de 2026 – é o começo de um caminho para que o Brasil se reconstrua, garantindo dignidade para mulheres e meninas.
A lei pode ser um ponto de partida, mas nunca de chegada. A legislação precisa estar acompanhada de uma mudança profunda na cultura política que ainda tolera a misoginia e o racismo como ferramentas de disputa. Ao mesmo tempo que disputamos as estruturas penais, precisamos reforçar caminhos de disputa de consciência. No mesmo mês em que o julgamento de Marielle é concluído, diferentes crimes contra mulheres e meninas seguiram chocando o nosso país, revelando que essa sentença judicial, embora necessária, não é capaz de estancar sozinha uma epidemia de violência.
A realidade é devastadora: o Brasil ainda amarga a estatística de quatro mulheres assassinadas por dia, vítimas de um feminicídio que se alimenta da normalização do ódio. Não estamos falando de casos isolados ou crimes passionais: é uma engrenagem de desumanização que prepara o terreno para a violência física letal.
Como apontou a Ministra do STF, Cármen Lúcia, há uma reação planejada à crescente presença da mulher no espaço público, um projeto de sociedade que recusa uma civilização de iguais. Cabe destacar o lugar das plataformas digitais nesta trama, constituindo um solo fértil e lucrativo para o ecossistema do crime contra mulheres. Há denúncias de circulação desenfreada de conteúdos misóginos que reduzem mulheres a objetos de posse ou alvos de descarte. O discurso red pill (movimento é associado à disseminação de ódio contra as mulheres) prega abertamente a inferioridade feminina e legitima a agressividade masculina como prova de virilidade. O que antes estava restrito a fóruns clandestinos agora é consumido por crianças e adolescentes em seus celulares, educando novas gerações dentro de uma lógica de horror e dominação de mulheres por homens.
Não há liberdade de expressão que justifique a incitação ao extermínio e à violência e incidir sobre essa pedagogia do ódio é urgente, para colocar um freio nos ciclos de violência que hoje capturam crianças para a doutrina do ódio. Destacamos o PL 6075/2025 de Samia Bonfim que busca criminalizar a promoção e a incitação de conteúdos misóginos na rede, importante no momento em que vivemos.
III. Sementes e Girassóis: uma utopia permanente
Podemos dizer que a ideia em torno do termo “semente” deixou de ser uma metáfora poética para se tornar uma categoria de análise sociológica. O efeito do assassinato, como já analisado em inúmeras publicações, catalisou uma onda de participação política sem precedentes, especialmente entre mulheres negras, bissexuais e moradoras de favelas, que viram na execução de Marielle um chamado para as lutas na política institucional, passando a compartilhar e dar consequências às utopias que mobilizaram a Marielle em vida.
Em 2018, o “Efeito Marielle” manifestou-se com vigor nas eleições. Mulheres que haviam trabalhado com ela, como Renata Souza, Mônica Francisco e Dani Monteiro, foram eleitas para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro com votações expressivas, levando um conjunto de compromissos com a defesa dos direitos humanos, a segurança pública cidadã e a justiça social ao parlamento e ocupando o imaginário político como girassóis: flores que, mesmo em tempos sombrios, buscam a luz e se sustentam coletivamente. Mônica, inclusive, nos apresenta a perspectiva de que hackear o poder é um ato de resistência diante de um cotidiano de violências que cerceia mulheres negras de acessarem espaços de poder.
Contudo, essa utopia, parafraseando Galeano, existe para que a gente continue a andar. Como bem lembra Mônica Benício, o projeto de sociedade que Marielle representava segue sendo atacado todos os dias. Não podemos viver lutas estritamente parlamentares. Marielle ocupava a tribuna como megafone das lutas do mundo, das favelas, dos movimentos sociais. É essa política do cotidiano que sustenta a verdadeira resistência, a disputa não se encerra nas urnas nem nos tribunais. Ela ocorre cotidianamente na arena da memória, na construção de um mundo comum, na produção de outra sociabilidade.
Desde o primeiro disparo, houve uma tentativa deliberada de assassinar a reputação de Marielle por meio de campanhas massivas de desinformação e fake news. Do lado de cá, a memória de Marielle tornou-se um símbolo de um outro mundo possível. Essa utopia permanente exige de nós também uma vigilância constante. O julgamento dos mandantes foi necessário, mas a verdadeira justiça é a continuidade das lutas que ela encarnava. Cada nova liderança que surge de um território popular, cada política pública que prioriza a vida digna, e cada esforço para manter viva a sua história são as formas reais de dizer que eles não conseguiram nos interromper. Marielle presente é, acima de tudo, uma tarefa coletiva de resistência e construção de futuro e produção de um mundo estranho a esse que conhecemos.




