Não se trata mais de combater o ódio contra os judeus, tarefa legítima e inegociável. Ao me acusar, Conib tenta reduzir a identidade judaica à lealdade perante um Estado étnico
Atualmente devo ser o judeu mais perseguido do país. E quem me persegue não são neonazistas, grupos de extrema direita ou negacionistas do Holocausto. Quem me persegue é a Confederação Israelita do Brasil (Conib), supostamente a principal entidade de representação da comunidade judaica —camuflagem sob a qual oculta sua condição de agência do Estado genocida de Israel. Através de múltiplos processos judiciais, essa organização busca me calar e a todos que combatem o regime sionista.
Mas há um fato que precisa ser saudado: o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3) trancou ação movida contra mim por suposta incitação e apologia ao crime em publicações feitas nas redes sociais. O desembargador Ali Mazloum avaliou que nem sequer havia delito que justificasse a tramitação da acusação, concluindo que minhas mensagens estão protegidas pela liberdade de expressão. Vale lembrar que já havia sido derrotada, em primeira instância, a tentativa do Ministério Público Federal em denunciar-me por discurso de ódio e racismo.
Recebi, ao longo desse processo, uma onda generosa de solidariedade. De colegas jornalistas, intelectuais, militantes, leitores e cidadãos comuns que compreenderam o que estava em jogo. A todos, meu profundo agradecimento. Registro também o trabalho magnífico de meus advogados, Pedro Serrano e Fernando Hideo Lacerda, cuja competência e rigor jurídico foram decisivos para desmontar uma acusação injusta e manipulada.
A acusação de antissemitismo tornou-se arma política. Não se trata mais de combater o ódio contra judeus —tarefa legítima, necessária e inegociável—, mas de silenciar vozes contrárias ao regime sionista. Ao confundir deliberadamente esses dois campos, antissionismo e antissemitismo, agentes de Israel buscam interditar o debate público.
Sou judeu, filho de judeus, formado numa tradição de pensamento crítico, justiça social e solidariedade internacional. Minha posição antissionista nasce de uma leitura histórica: o sionismo produziu um sistema racista, colonial e expansionista, cuja grande vítima é o povo palestino. Criticar esse projeto é, portanto, obrigação ética para quem se orienta por valores humanistas.
O paradoxo é evidente: ao me acusar de antissemitismo, a Conib não apenas deslegitima um judeu por suas opiniões como também define arbitrariamente um mecanismo de controle ideológico, na tentativa de reduzir a identidade judaica à lealdade perante um Estado étnico.
No mais, se um judeu pode ser publicamente perseguido por expressar críticas ao sionismo, cidadãos de outras origens devem temer um tratamento ainda mais autoritário e feroz, até que o medo eventualmente os silencie: essa é a lógica de meus perseguidores.
A distinção entre antissemitismo e antissionismo representa linha divisória fundamental. Se o ódio antijudaico é intolerável, também o é a existência de um regime que, em nome do judaísmo, comete os mais bárbaros crimes contra a humanidade desde o esmagamento das tropas de Hitler pelo Exército Vermelho e pelos países aliados.
A decisão do TRF-3, por isso mesmo, é seminal para a democracia brasileira. Caso venha a ser transformada em jurisprudência, estará enterrada a tentativa do fascismo sionista de calar quem ergue sua voz contra o mais imoral dos Estados.
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Breno Altman – Jornalista, fundador do site Opera Mundi e autor do livro “Contra o Sionismo: Retrato de uma Doutrina Colonial e Racista” (Alameda Editorial).
Enviado para Combate Racismo Ambiental por Amyra El Khalili. Publicado originalmente na Folha de São Paulo, em 18 de Março de 2026.




