Dia Mundial da Água: Acesso à água é atravessado por desigualdades de gênero

Na Abrasco

O Dia Mundial da Água traz como tema “água e gênero”. A proposta chama atenção para um aspecto ainda pouco visível no debate público: a forma como a crise hídrica impacta de maneira desigual diferentes grupos sociais, especialmente mulheres, meninas e pessoas trans.

No campo da Saúde Coletiva, esse recorte é central. A falta de acesso adequado à água e ao saneamento básico não se limita a um problema de infraestrutura, mas configura um determinante direto das condições de vida, saúde e dignidade. Em muitos territórios, são as mulheres que assumem a responsabilidade pelo abastecimento doméstico, o que amplia desigualdades históricas e sobrecargas de trabalho.

Esse cenário tende a se agravar com as mudanças climáticas. Como explica Léo Heller, “há vários indícios de que as mudanças climáticas vêm reduzindo sazonalmente a disponibilidade de água, tanto nas fontes acessadas diretamente pelas populações quanto nos mananciais utilizados pelos sistemas de abastecimento”. Ele alerta que os sistemas ainda não estão preparados: “via de regra, os prestadores de serviço não vêm se organizando para acionar planos de contingência, prevendo, por exemplo, flexibilidade para períodos de estiagem extrema”.

Ao mesmo tempo, eventos extremos também afetam a infraestrutura. “O excesso de água, resultante das oscilações mais intensas do clima, vem impactando os sistemas de abastecimento”, afirma. Esses efeitos, no entanto, não são distribuídos de forma igual. “O mais grave é que esses processos atingem principalmente as populações mais pobres, com menor capacidade de acessar alternativas de abastecimento”, afirma Heller.

Gênero e água

A desigualdade no acesso à água e ao saneamento tem impactos diretos na saúde, que também recaem de forma diferenciada sobre as mulheres, especialmente pelo papel social que ocupam no cuidado. Heller lembra que “os efeitos do acesso inadequado à água e ao esgotamento sanitário na saúde humana já estão bem estabelecidos”, citando evidências de que melhorias nesses serviços reduzem significativamente doenças como diarreia infantil.

Ele também chama atenção para a dimensão estrutural do problema: “estima-se que 1,4 milhão de mortes poderiam ser evitadas no mundo com acesso seguro à água, esgoto e higiene, o que mostra a centralidade dessas políticas para a saúde pública”.

No caso das arboviroses, como dengue, Zika e chikungunya, a relação com o saneamento é direta. “O fornecimento irregular de água leva ao armazenamento precário, criando criadouros para o mosquito; esgotos a céu aberto e drenagem inadequada geram empoçamentos; e a coleta de lixo insuficiente também contribui para a proliferação”, explica. Sobre o papel do clima, ele pondera: “as mudanças climáticas potencializam esse cenário, ao combinar mais calor e mais chuvas, favorecendo a disseminação dos vetores”, afirma.

A ausência de infraestrutura adequada também expõe mulheres, meninas e pessoas trans a situações de violência e insegurança no cotidiano. A falta de banheiros seguros, próximos e acessíveis transforma uma necessidade básica em risco, reforçando desigualdades que atravessam o corpo e o território.

A importância da água ganha ainda mais evidência em momentos específicos da vida feminina, como gestação e lactação. Carmen Froes, do GT Saúde e Ambiente da Abrasco, destaca:

“Em relação a essa questão específica de gênero, me vem à mente dois momentos específicos da vida da mulher, que são a gestação e a lactação. Nesses períodos, a necessidade de água qualitativamente adequada, sem contaminação biológica ou química e em quantidades suficientes, é fundamental, porque é através do corpo feminino que o feto é nutrido e hidratado, e da mesma forma, durante a amamentação, que deve ser exclusiva pelo menos até seis meses, que o bebê é nutrido e hidratado. Água é vida, água é alimento. Esses são momentos em que a vulnerabilidade de gênero em relação à água é muito clara, tanto do ponto de vista da quantidade quanto da qualidade.”

Apesar de o Brasil possuir grande disponibilidade hídrica, isso não se traduz automaticamente em acesso equitativo. Como aponta Heller, “nem sempre a abundância de água na natureza se converte em serviços adequados para a população”, citando o contraste de regiões com ampla oferta hídrica e baixos indicadores de acesso. Para ele, o desafio está na gestão: “o que explica o acesso está muito mais na esfera das políticas públicas do que na disponibilidade de água nos rios e aquíferos”.

O tema reforça a necessidade de compreender o acesso à água e ao esgotamento sanitário como direitos humanos fundamentais. Mais do que ampliar a infraestrutura, é preciso enfrentar desigualdades estruturais e garantir políticas públicas integradas e orientadas pela equidade. Mais do que uma data simbólica, o Dia Mundial da Água funciona como um chamado à ação. Incorporar a perspectiva de gênero nesse debate é reconhecer que a crise da água não afeta a todos da mesma forma e que sua superação passa, necessariamente, pela construção de justiça social e pela proteção da vida.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

quinze + 14 =