Vinte e cinco anos após o I Fórum Social Mundial, cidade reúne, na I Conferência Internacional Antifascista, a vasta (e heterogênea) rede que se opõe à ultradireita. Em meio à diversidade, grata surpresa: ampla capacidade de diálogo e uma declaração unitária ao fim
Por Eduardo Mancuso, em Outras Palavras
A I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos se realizou em Porto Alegre, de 26 a 29 de março de 2026. Surgiu como uma iniciativa de enfrentamento à ofensiva mundial da ultradireita, que tem como epicentro o imperialismo dos Estados Unidos do neofascista Donald Trump. Foi preparada por um Comitê Organizador Local composto por PT, PSOL, PCdoB, MST, CPERS, ADUFRGS, ANDES e Frente das Centrais Sindicais, com o apoio de um Comitê Internacional e mais de 100 entidades brasileiras de movimentos sociais e populares. Teve apoio político e material da Fundação Rosa Luxemburgo e da Fundação Perseu Abramo, além das demais fundações partidárias de esquerda. Realizou suas principais mesas de debate na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e na Assembleia Legislativa.
A Conferência (que pretende tranformar-se em um processo internacional) teve mais de 4 mil inscritos e 11 mesas temáticas (e uma extraordinária sobre a guerra contra o Irã), e contou com 150 atividades autogestionadas. O evento teve como objetivo central debater resistências e alternativas democráticas ao fascismo e ao imperialismo, e construir convergências e unidade na luta internacional dos povos contra a barbárie capitalista. E nesse sentido, cumpriu com seus objetivos, como demonstra a Carta de Porto Alegre, aprovada em Assembleia ao final do encontro.
No dia 26, no marco da Conferência Internacional, realizamos o Fórum de Autoridades Democráticas Antifascista, na Assembleia Legislativa, no Centro Histórico de Porto Alegre. O Fórum reuniu parlamentares nacionais e internacionais e governantes locais de 12 países das Américas, Europa, Ásia e África. O Fórum teve duas mesas, a primeira focou o Papel e limites da ação institucional na luta democrática; a segunda apresentou Experiências de aprofundamento da democracia em governos populares. Após o encerramento do Fórum de Autoridades, no final da tarde, nos dirigimos para a concentração da Marcha de Abertura da Conferência Antifascista, no Largo Glênio Peres, ao lado do Mercado Público, local de onde saíam as históricas marchas de abertura do Fórum Social Mundial. 5 mil ativistas dos mais diversos movimentos sociais, ostentando bandeiras partidárias, de centrais sindicais, de Cuba e da Palestina marcharam ao som da batucada da Marcha Mundial de Mulheres até o Largo Zumbi dos Palmares.
Grande parte do sucesso da I Conferência Internacional Antifascista se deve a iniciativa do Comitê Internacional de lançar, ainda em janeiro, o Chamado Internacional para reforçar a Ação Antifascista e Antiimperialista, assinado por mais de 1800 lideranças sociais, políticas e intelectuais dos cinco continentes, conclamando para essa luta e convocando as forças de esquerda de todo o mundo a se somar ao evento em Porto Alegre. O Chamado Internacional convocando a Conferência Antifascista foi reproduzido em jornais e meios de comunicação do Brasil, México, Argentina, Espanha, França, Bélgica, Índia, Turquia e vários países latino-americanos.
A Carta de Porto Alegre, intitulada Unidade Contra o Fascismo e pela Soberania dos Povos conseguiu resumir em poucas páginas os principais temas da luta de classes a serem enfrentados na atualidade pelas forças sociais e políticas internacionalistas e anticapitalistas. A Carta elencou desde o Genocídio em Gaza e a invasão do Líbano pelo Estado Sionista de Israel (lembrando a corajosa iniciativa das Flotilhas de Solidariedade à Palestina), o comboio Nuestra America a Cuba, as manifestações massivas na Argentina lutando pela memória e contra Millei, o evento que reuniu centenas de milhares de antifascistas no Reino Unido, até a grande e histórica manifestação “No Kings”, em centenas de cidades nos Estados Unidos, declarando Trump como inimigo da humanidade. A Carta termina com a palavra de ordem de que DERROTAR OS FASCISMO E O IMPERIALISMO É TAREFA URGENTE DE NOSSA ÉPOCA, e enumera um conjunto de iniciativas e agendas para o próximo período:
- O Comitê Internacional, articulado com o Comitê Local, fica responsável por organizar o planejamento da próxima Conferência e a inclusão de novas organizações.
- Constituir uma mesa de articulação internacional para unificar globalmente essa luta e o incentivo à realização de conferências regionais e nacionais antifascistas e antiimperialistas, com o propósito de construir uma 2ª Conferência Internacional Antifascista e pela Soberania dos Povos.
- Apoiar a construção de uma conferência latino-americana na Argentina, com data e formato a serem propostos pelas organizações argentinas.
- Apoiar uma conferência regional na América do Norte, envolvendo organizações do México, Estados Unidos, Canadá, Caribe e América Central.
- Apoio a Nova SumudFlotilha Global que novamente busca romper o cerco e denunciar o genocídio de Gaza. A luta do povo palestino – em Gaza e na Cisjordânia – é a causa da humanidade.
- Solidariedade à Cuba contra o criminoso bloqueio promovido pelos EUA e contra as ameaças de agressão de Trump.
- Repúdio à invasão da Venezuela e o sequestro do presidente do país e apoio à sua libertação.
- Repúdio ao ataque militar ao Irã pelos Estados Unidos e Israel, respeito à autodeterminaçãoe do povo iraniano e pelo fim das sanções unilaterais.
- Defesa da independência e autodeterminação e soberania de todos os territórios sob ocupação colonial e imperialistas.
- Denunciar a interferência estrangeira no Haiti, apoiando a luta do seu povo.
- Apoio à luta da Frente Polisário pela independência do Sahara Ocidental, direito reconhecido pela ONU.
- Apoio à luta do povo porto-riquenho pela autodeterminação e independência.
- Apoio ao encontro anti-OTAN na Turquia em 2026.
- Apoio à Contra-Cúpula do G7 na França e Suíça, em junho de 2026.
- Apoiar as iniciativas contra o negacionismo climático, como as jornadas e encontros eco-socialistas que estão sendo organizados.
- Apoiar e construir o próximo Fórum Social Mundial no Benin, em agosto de 2026.
Por fim, cabe salientar que a realização e o retumbante sucesso da Conferência Internacional Antifascista em Porto Alegre só foi possível graças à unidade construída entre partidos de esquerda e movimentos sociais, que provaram na prática que as nossas convergências são muito maiores que as divergências. Foi dessa forma que conseguimos fazer convergir desde a velha guarda do Fórum Social Mundial, das direções partidárias e de parlamentares e dirigentes sindicais, até um grande número de juventudes organizadas e combativas. Definitivamente, na luta antifascista e antiimperialista, ela pode não ser a única, mas a “unidade é a chave da nossa vitória”.
*Historiador e membro do comitê local de Porto Alegre do Fórum Social Mundial.




