O maior escândalo do canhestro power point sobre as “conexões de Daniel Vorcaro” foi não ter sido imediatamente excluído assim que entrou no ar
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Qual deveria ser a reação de uma âncora de programa jornalístico quando anuncia um infográfico (ou um power point, ou uma “arte”) que está “errado e incompleto”? Continua a apresentá-lo normalmente, como se não contivesse “erros” e “lacunas” evidentes? Interrompe a transmissão, pede desculpas ao distinto público, chama os comerciais, retira-o do ar e retorna com informações corretas?
Qual deveria ser a reação dos participantes desse programa, diante de uma cena dessas? Continuar placidamente sentados em suas poltronas e fazer a egípcia? Comentar a apresentação, balbuciando tímidas observações sobre o significado daquela “arte” e sobre o que ela deixou de lado? Pedir desculpas e argumentar que, com todo o respeito, aquela peça era uma pequena aberração?
O maior escândalo do canhestro power point sobre as “conexões de Daniel Vorcaro”, exibido no Estudio i da Globo News no dia 20 de março, foi este: não ter sido excluído assim que entrou no ar.
Diferentemente do que se noticiou e circulou pelas redes, algumas de grande alcance no campo da esquerda, o vídeo original do programa continua disponível e pode ser visto aqui. Nota-se a extrema cautela com que tanto a apresentadora, Andréia Sadi, quanto os comentaristas Valdo Cruz, em Brasília, e Arthur Dapieve e Thomas Traumann, no estúdio, especulavam sobre o que se poderia esperar da delação premiada do banqueiro agora preso, e as consequências disso para muitos dos personagens envolvidos – ministros do Supremo Tribunal Federal, parlamentares e outras figuras com quem ele estabeleceu algum tipo de vínculo – e para a campanha eleitoral deste ano.
Depois de apresentar um diagrama que mostrava os conflitos entre a Procuradoria Geral da República e a Polícia Federal no caso Master – uma forma de ver “a cena completa” –, Sadi introduziu um trecho de um discurso de Lula num evento em São Paulo, na véspera:
“Vira e mexe eles estão tentando empurrar nas costas do PT e do governo esse banco Master. Esse banco Master é obra, é ovo da serpente do Bolsonaro e do Roberto Campos [Neto], ex-presidente do Banco Central. E nós não deixaremos pedra sobre pedra, pra gente apurar tudo o que fizeram, dando um golpe de 50 bilhões neste país. Se a gente não tomar cuidado, Haddad [que então deixava o Ministério da Fazenda para candidatar-se ao governo de São Paulo], eles vão tentar dizer que somos nós…”
Pois não é que vão mesmo?
Foi o que fez a “arte” exibida no Estúdio i.
Primeiro aparece a foto de Vorcaro, no centro da tela, com uns pontinhos vermelhos, como se fossem tachinhas num quadro de cortiça, onde depois surgirão cordinhas também vermelhas associando as imagens. Logo em seguida, rodeando a imagem principal, as fotos de Lula, do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, do atual presidente do Banco Central Gabriel Galipolo e a estrela branca sobre fundo vermelho do “PT da Bahia”. Só depois, bem afastados do centro, aparecem alguns dos personagens referidos no caso, como o ministro do STF Alexandre de Moraes e vários políticos de direita e extrema-direita.
Antes dessa apresentação, Valdo Cruz havia inserido a questão do banco Master na disputa eleitoral, citando o temor do governo de que fosse envolvido na delação premiada. “O ponto a favor de Lula é que foi na sua gestão que o banco foi liquidado, a PF prendeu Vorcaro na sua gestão, então os resultados foram prejudiciais ao Vorcaro e não mostraram uma ação para protegê-lo”. Mencionou também os R$ 2 milhões que o banqueiro teria repassado a Jair Bolsonaro, o que o ex-presidente nega. O tempo todo, o comentarista procurava um meio-termo para argumentar que a apuração do caso pode prejudicar um lado ou outro, ou ambos, a depender do que for revelado. “Pelo que se saiba, até agora, Flávio Bolsonaro não teve nada diretamente associado a ele. Lula também não. Mas os aliados dos dois, a gente não pode dizer o mesmo, a gente não pode garantir”.
No entanto, a “cena completa” daquela “arte” destacava Lula e a estrela do PT entre os “personagens que já apareceram de uma forma ou de outra nessa teia do caso Master”, como referiu Sadi.
“De uma forma ou de outra”. De que forma, exatamente? A imagem não faz essa distinção, e a disposição das peças, a inclusão indevida de algumas e a ausência de outras, compõem um quadro distorcido, que induz a erro.
A péssima repercussão daquela “arte” fraudulenta levou ao gaguejante pedido de desculpas que todos vimos, e que só vale mesmo pelo quase ineditismo – nunca, ou quase nunca antes na história deste país, a Globo pediu desculpas. Ainda assim, foram desculpas precárias: se aquele material estava “errado e incompleto”, deveria ter sido apresentada a correção. Porém, não adiantaria muito, porque o estrago já estava feito, como sempre ocorre nesses casos: retificações e desmentidos nunca tiveram o mesmo peso e jamais apagaram o efeito de um erro ou de uma fraude, muito menos ainda nos tempos atuais em que a desinformação e a mentira circulam a uma velocidade estonteante e servem tão bem à candidatura de extrema-direita que vem rivalizando com o PT.
As duas editoras responsáveis por aquela “arte” teriam sido demitidas. O material não teria sido visto pela apresentadora antes de ser transmitido. Circularam comentários sobre sabotagem interna.
Será muita ingenuidade acreditar nisso. Mas sejamos ingênuos: ainda que tenha sido assim mesmo, ainda que as jornalistas responsáveis por aquela peça não estivessem cumprindo ordens – e por isso seria tão importante saber dos bastidores dessa história –, nada justifica o que ocorreu: num programa tão cauteloso na especulação sobre o que poderá resultar da delação premiada de Daniel Vorcaro e do impacto que a investigação poderá ter na campanha eleitoral, a constatação ao vivo de que aquele quadro distorcia e embaralhava tão flagrantemente as informações só poderia ter uma consequência: a interrupção imediata daquela exibição, seguida de um “desculpe a nossa falha”. Mesmo que “falha” não fosse exatamente a palavra.
Os protestos contra o que aconteceu no Estúdio i levaram a recordar a edição do debate final entre Lula e Collor, em 1989, às vésperas da primeira eleição direta para presidente desde o golpe de 64: a ordem para que fossem selecionados os melhores momentos de Collor e os piores de Lula, para montar a peça exibida no Jornal Nacional daquela noite. Collor provavelmente venceria a eleição independentemente disso, mas aquela edição mostrou claramente até onde a Globo podia chegar no seu empenho em influenciar a opinião pública.
Talvez mais importante ainda fosse lembrar do caso Proconsult, em 1982, que visava a impedir a vitória de Leonel Brizola, na primeira eleição direta para governador desde o início da ditadura. O livro Jornalistas pra quê? Os profissionais diante da ética, editado pelo Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro em 1989, traz informações sobre esse caso e, entre outros textos, reproduz o longo relato que o jornalista Luís Carlos Cabral publicou no semanário O Nacional, de breve existência, em novembro de 1986.
Cabral era editor regional de jornalismo da Rede Globo em 1982 e levou quatro anos para dar seu testemunho. Em seu artigo, “Rede de intrigas”, mostra como a Globo alterou a forma de alimentar o seu sistema de contabilização dos votos durante a lenta apuração – na época, a votação era em papel –, inserindo desproporcionalmente os votos do interior do estado, favoráveis ao candidato da situação, Moreira Franco, com o objetivo de preparar a opinião pública para um resultado que contrariava todas as expectativas. Enquanto isso, a Proconsult, empresa responsável pela totalização dos votos, aplicaria um desvio padrão que beneficiaria a candidatura de Moreira. Não fosse a enorme discrepância entre os números sustentados pelos veículos da Globo e os de outros órgãos de imprensa – especialmente o Jornal do Brasil e a Rádio JB –, não fosse o veemente protesto de Brizola, talvez a fraude tivesse sido consumada.
Seria possível também recordar o comportamento da Globo na cobertura da campanha das Diretas Já, entre 1983 e 1984, ou da Lava Jato – a imagem dos canos enferrujados de onde jorrava dinheiro diariamente exibida no Jornal Nacional – e das manifestações que resultariam no golpe contra Dilma Rousseff, em 2016: a lista é longa e está documentada pelo testemunho de jornalistas e por inúmeros estudos acadêmicos. O caso do power point das conexões do Vorcaro é apenas a mais recente peça dessa engrenagem.




