Ultradireita já anuncia novo capítulo de submissão aos EUA. Mas esquerda segue desatenta. É preciso bloquear exportações, produzir minérios refinados e alimentar indústrias e serviços cruciais para o século XXI. Quais os meios para isso?
Por Sérgio Amadeu da Silveira, em Outras Palavras
O embate sobre as chamadas terras raras poderá definir o futuro do desenvolvimento tecnoeconômico do Brasil. Por isso, Ronaldo Caiado e Flávio Bolsonaro se anteciparam e prometeram entregar a extração dos minérios para os Estados Unidos. Nada de novo na perspectiva da extrema direita. Querem se mostrar úteis e funcionais para o trumpismo. Disputam a posição superior de maior vassalo. Além disso, o bolsonarismo quer consolidar o atual papel secundário do país na divisão internacional do trabalho.
As terras raras são essenciais para aplicações e dispositivos tecnológicos que compõem a infraestrutura da IA, dos data centers, o processo de produção de chips de alto desempenho, a fabricação de smartphones, carros elétricos e turbinas eólicas, bem como, para radares, mísseis e sensores sofisticados. Segundo o Mineral Commodity Summaries 2025, a China sozinha detém aproximadamente 49% das reservas conhecidas (44 milhões de toneladas), seguido pelo Brasil com algo em torno de 21 milhões de toneladas. Segundo o relatório, China e Brasil possuem mais de 70% das reservas globais de terras raras exploráveis. Entretanto, o Brasil ocupa hoje uma posição periférica na cadeia de valor das terras raras, apesar do forte potencial geológico.
Corremos o risco de aprofundarmos nossa condição de cibercolônia e de reproduzirmos o padrão extrativista que levou a inúmeras perdas de oportunidades do país. O perigo não está somente na vitória eleitoral da extrema direita nas próximas eleições. O problema está também na esquerda submissa às teses neoliberais e à teoria do desenvolvimento cunhada por Fernando Henrique Cardoso. Nessa visão, um país como o Brasil não teria como se desenvolver diante de um sistema fechado e controlado pelo grande capital norte-americano. Caberia aos nossos gestores associarem-se ao grande capital e explorar as brechas que vão se abrindo no sistema. Assim, podemos ser modernos mesmo sendo cada vez mais dependentes.
Essa visão esquece que o cenário internacional mudou e que o país possui uma estrutura universitária extremamente significativa, uma produção industrial variada e inúmeras possibilidades de alianças estratégicas com países do Sul Global. Além disso, temos dados em abundância para treinar modelos de IA realmente existente, sem a necessidade de enviá-los para as Big techs. Também temos uma engenharia diversificada e em condições de estruturarmos data centers federados, de baixo impacto ambiental. Podemos criar soluções distribuídas e que superem os entraves da latência e outros entraves para treinarmos modelos de IA próprios e fazermos inferências em escala sem a necessidade de investimentos bilionários em data centers de hiperescala.
Para compensar a ausência de investidores privados nacionais – uma vez que as classes dominantes brasileiras preferem o rentismo e o ruralismo de exportação – o Brasil possui um ativo que poucos países possuem, que são suas empresas estatais de processamento de dados. Elas foram criadas nos anos de 1960 com o objetivo de o Estado brasileiro dominar as tecnologias de informação e processamento que estavam avançando velozmente. Com a chegada do neoliberalismo, nos anos de 1980 e sua hegemonia crescente, essas empresas foram sucateadas e perderam seus objetivos estratégicos. Hoje, Serpro e Dataprev são “barrigas de aluguel” das big techs. Nas mãos dos acordos com o Centrão, essas empresas aproveitam a possibilidade de firmarem contratos sem a exigibilidade de licitação para levarem big techs como a Palantir, Oracle, Microsoft e a AWS para qualquer segmento do Estado.
Em relação as terras raras não podemos seguir o mesmo caminho. Apesar de não prometermos entregar esses compostos químicos estratégicos para os Estados Unidos de modo declarado, temos que bloquear sua entrega de modo velado. Para isso, é preciso compreender a cadeia produtiva das terras raras. Existe um artigo fundamental para aprofundarmos nosso debate que se denomina “A comprehensive review on rare earth elements: resources, technologies, applications, and prospects” [“Uma revisão abrangente dos elementos de terras raras: recursos, tecnologias, aplicações e perspectivas”] Foi publicado na revista Rare Metals, em 3 de agosto de 2025. Os seus autores consideram existir um ciclo de vida dos elementos das terras raras que é composto de quatro estágios fundamentais: 1- mineração; 2- metalurgia; 3- Circulação; 4- reciclagem. No primeiro estágio, temos a exploração geológica e a extração do minério com métodos subterrâneos ou a céu aberto. Em seguida, passamos para o beneficiamento do material bruto com flotação, separação gravimétrica e magnética. No segundo estágio, vemos a lixiviação, ou seja, a separação dos cátions de elementos de terras raras dos minérios com soluções aquosas. Também temos a purificação e separação dos elementos individuais desses componentes químicos, bem como, a produção dos óxidos refinados de terras raras. Antes de avançarmos para os estágios 3 e 4 é importante observarmos a situação do Brasil nos dois primeiros.
Em 2023, a China dominou o estágio da mineração, produzindo 240.000 toneladas de terras raras, representando 80% da produção global. Em 2010, o país de Xi-Jinping alcançou 97,74% da mineração mundial de terras raras, depois disso nunca ficou abaixo dos 90%. No estágio 2, os chineses detém 88% do mercado global de separação metalúrgica. E as chamadas terras raras pesadas são processadas somente na China que criou o método de extração em cascata. Desse modo, a China domina essa cadeia de valor, o que lhe dá um grande poder tecnoeconômico e geopolítico.
O Brasil concentra depósitos de carbonatita — o tipo mais importante de depósito das chamadas terras raras leves, responsável por cerca de 51,4% dos recursos mundiais de óxidos de terras raras. Entretanto, nosso país exporta concentrados de baixo valor por não dominar a separação química. Enquanto o concentrado misto vale cerca de US$ 10 por quilo, óxidos separados chegam a US$ 200, transferindo renda e tecnologia para o exterior.
Aqui está o ponto crucial. Enquanto o país não dominar as partes relevantes da cadeia de valor dos elementos de terras raras não devíamos exportar tais recursos estratégicos. Temos que romper com nossa condição colonial de “vender minério de ferro para comprar aço”. Para tal precisamos criar uma política de infraestruturas do digital que rompa com as teses de FHC e com a pressa neoliberal. Os ideólogos das classes dominantes brasileiras associadas subordinadamente às classes dominantes norte-americanas clamam pela pressa. Dirão que temos que exportar as terras raras ainda que na sua fase mais básica, inicial. Para que? Por que? Para satisfazer os interesses microeconômicos de alguns capitalistas no Brasil e para entregar esses componentes químicos estratégicos para as Big Techs e para a máquina de guerra dos Estados Unidos? Isso é bom para o Brasil?
Precisamos construir uma estratégia brasileira para as terras raras que seja vinculada a uma estratégia de desenvolvimento tecnológico nacional. Não podemos perder essa oportunidade de controlar nossos recursos fundamentais e de participarmos na cadeia de valor das terras raras como país importante em todos os seus estágios. Essas ações deveriam ser articuladas a construção de infraestruturas locais, federadas e de baixo impacto ambiental para nos inserirmos no circuito de desenvolvimento de sistemas automatizados chamados de inteligentes de modo soberano e com a geração de valor para o país. Essa inserção brasileira deve ser pensada a partir de um novo modelo socioambiental de exploração de recursos naturais que sejam pensados para reduzir ao máximo seus impactos inegavelmente nefastos que a extração e tratamento das terras raras traz ao meio ambiente.
*Professor da UFABC (Universidade Federal do ABC), pesquisador de Redes Digitais. Foi conselheiro do Comitê Gestor da Internet – CGI.br




