A rede cultural na Amazônia é tecida por mulheres

O Tapajós é tecido por uma lógica profundamente matriarcal, onde mulheres lideram não apenas no campo institucional, mas na vida cotidiana, na manutenção das práticas culturais, na transmissão de saberes e na criação de espaços coletivos.

Por Tainá Rionegro e Marlena Soares, Tapajós de Fato

Sabemos que as maiores lideranças na Amazônia, especialmente aquelas que ganharam visibilidade nos últimos anos, são mulheres. Mas é importante dizer: elas sempre estiveram aqui. O que historicamente se impôs foi a invisibilização de seus corpos, sobretudo quando racializados, silenciando trajetórias, saberes e formas de liderança. Ainda assim, essa lógica vem sendo tensionada. Hoje, vemos mulheres ocupando também o campo da política institucional, sem abrir mão de suas formas próprias de fazer política.

Sônia Guajajara, Jôenia Wapichana, Marina Silva, Dona Nice, Edel de Moraes, Alessandra Munduruku, Angela Mendes… são alguns nomes que se destacam na linha de frente da defesa de direitos. Mas suas lutas não se limitam à garantia de políticas públicas: elas reivindicam algo mais profundo — a legitimação das culturas amazônicas, em sua diversidade, como caminhos concretos de enfrentamento aos projetos predatórios que ainda avançam sobre este território.

Mas, quando olhamos para o Tapajós, a pergunta se desloca: quem são as mulheres que constroem cultura todos os dias? A resposta é ampla, diversa, impossível de caber em uma lista. O Tapajós é tecido por uma lógica profundamente matriarcal, onde mulheres lideram não apenas no campo institucional, mas na vida cotidiana, na manutenção das práticas culturais, na transmissão de saberes e na criação de espaços coletivos. É nesse fazer contínuo que se sustenta não só a conservação dos modos de vida, mas também a abertura de caminhos para que outras mulheres se reconheçam como potência.

É nesse contexto que este texto se constrói a quatro mãos, em diálogo com uma dessas lideranças: Marlena Soares.

Para Marlena, cultura é espaço compartilhado, é onde produzimos memória, afeto e engajamento. É no comum, no aberto, no público, que fortalecemos identidades e projetamos outras possibilidades de sociedade, fundadas no plural. Ao longo deste primeiro trimestre, sua trajetória por diferentes espaços reafirma uma certeza: na Amazônia, a cultura é tecida por mulheres.

“Fui convidada para ser mestre de cerimônia do 10º aniversário da Cooperativa de Turismo e Artesanato da Floresta, a Turiarte. Formada por 12 comunidades da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns e do Projeto de Assentamento Agroextrativista Lago Grande, no oeste do Pará, a cooperativa é uma referência de organização comunitária. Construída majoritariamente por mulheres, a Turiarte revela a força de quem vive e tece o território com as próprias mãos, articulando cuidado, gestão territorial e inovação diante dos desafios enfrentados pelos povos da floresta.

Algumas semanas depois, participei do Fórum de Mulheres do Baixo Amazonas, promovido pelo Ministério Público do Estado do Pará, por meio de seus núcleos e parceiros. Estavam presentes mulheres de Santarém e de municípios como Óbidos, Alenquer, Oriximiná, Juruti, Prainha, Terra Santa e Monte Alegre.

Ali, vivi a efervescência das potências dessa região. Mulheres que, como dizia a música de abertura: ‘Eu vim, eu vim do corpo da minha mãe, ela me deu semente boa, nutre meu corpo, se espalha em bênçãos, sou plantadeira de semente boa’. Essa canção marca como a ancestralidade é fundamento do que sustenta a cultura na Amazônia.

É guiada por essa ancestralidade que a jovem santarena Amanda Santos lançou a Feira Preta Criativa. Tive a honra de compor uma mesa onde falamos sobre vida, e não apenas sobrevivência. A criatividade aparece como um chamado para outras possibilidades de existência, caminhos mais saudáveis quando pensamos em saúde integral, que começa no pertencimento. E pertencer é fazer cultura.

O caminho tende a fortalecer aquilo que cultivamos. As mulheres tecem a cultura da Amazônia porque se reúnem, cuidam do comum e sustentam o espaço coletivo. Estão na linha de frente de seus territórios e das possibilidades de futuro. E despertam, continuamente, em nós, a vontade de seguir fortalecendo quem somos, o que aprendemos desde o colo de nossas mães, e de fincar no solo essa semente boa, que se chama cultura viva.”

Marlena Soares é ribeirinha, filha de uma família de pescadores da comunidade Irateua, em Juruti (PA), Marlena Soares constrói sua trajetória profissional a partir das águas e das culturas vivas da Amazônia. É graduada em Gestão Ambiental pela Universidade da Amazônia (UNAMA) e especialista empirica em conhecimento tradicional.

É sócia-fundadora e diretora executiva do Instituto Regatão Amazônia, onde atua na criação de projetos culturais, articulação comunitária e fortalecimento de redes ligadas às economias da sociobiodiversidade e à cultura de base comunitária.

Produtora cultural, é idealizadora do Festival dos Rios, um encontro que celebra os saberes, as histórias e os modos de vida das populações ribeirinhas. Ao longo de sua trajetória, também trabalhou na produção de artistas da música amazônica, como Dona Onete e Lia Sophia, contribuindo para a circulação e valorização da cultura regional.

Há mais de uma década atua apoiando a gestão de associações e cooperativas amazônicas, fortalecendo iniciativas comunitárias que conectam cultura, território e economia da floresta.

Seu trabalho nasce da escuta das comunidades e da convicção de que os rios também produzem pensamento, cultura e futuro.

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