Vice-líder do Centrão usou fundo partidário em perfis fakes para atacar governo

Deputado Federal de Alex Manente (Cidadania), financiou perfis falsos que atacaram, além do governo, seu próprio partido

Por Dyepeson Martins | Edição: Thiago Domenici, Agência Pública

“Comte uma mentira várias vezes e ela se tornará verdade”. O trocadilho gramatical, publicado em novembro de 2025 na rede social Instagram, mirava Comte Bittencourt, um político que é figura central no racha interno que dividia o comando do partido Cidadania, atualmente numa disputa judicial. A autora do comentário, identificada como Lene Aparecida, questionava a legitimidade de Bittencourt para assumir a presidência nacional da legenda. A ironia da situação residia no fato de que a própria Lene Aparecida era uma mentira: tratava-se de um perfil falso, operado a mando da equipe do deputado federal Alex Manente (Cidadania-SP), o outro postulante à presidência nacional do Cidadania.

A conta de Lene Aparecida não atuava de forma isolada. Documentos e registros de conversas obtidos com exclusividade pela Agência Pública revelam que o perfil integrava uma rede de pelo menos vinte contas inautênticas, contratadas por Manente e financiadas com recursos do fundo partidário. Há pelo menos quatro meses, essa milícia digital vem sendo mobilizada para inflar o engajamento do parlamentar — que ocupa uma das vice-lideranças do bloco do Centrão na Câmara dos Deputados — e disparar críticas coordenadas contra adversários políticos, entre eles o governo Lula.

Procurado pela Pública, o deputado federal não respondeu aos contatos, mesmo com seu gabinete confirmando por telefone o recebimento dos questionamentos da reportagem.

Por que isso importa?

  • O caso vai além de uma disputa partidária e mostra como dinheiro público do fundo partidário pode ser usado para fabricar uma falsa realidade política nas redes.
  • Às vésperas de um novo ciclo eleitoral, entender quem financia, opera e orienta essa engrenagem é essencial para cobrar responsabilização e impedir sua normalização.

O aparato de milícia digital foi montado em meio a uma crise interna no Cidadania. Em março de 2026, alas divergentes da sigla realizaram congressos separados com apenas dois dias de diferença, resultando na eleição simultânea de dois presidentes: Manente e Bittencourt. O imbróglio jurídico segue sem desfecho, lançando incertezas sobre o futuro da legenda às vésperas de um novo ciclo eleitoral.

“Partido que representa a maioria da população que não quer saber de briga entre direita e esquerda agora tá passando por um escândalo desses! E ainda por cima a nota do diretório não diz nada com nada”, diz um outro comentário na notícia a respeito de uma nota divulgada por uma das frentes do partido em favor de Bittencourt. O autor @pireseristeu seria mais um perfil falso contratado por Alex Manente, segundo a documentação obtida pela reportagem.

A operadora de Balneário Camboriú

A engrenagem dessa rede operava a partir do litoral catarinense. A Pública identificou que uma mulher de 27 anos, residente em Balneário Camboriú, foi contratada exclusivamente para gerenciar as contas falsas e postar os comentários sob orientação do gabinete do deputado em Brasília. A própria equipe de Manente brifava ou repassava as mensagens prontas, direcionando o tom dos ataques. O pagamento mensal de R$ 2,5 mil foi efetuado pelo diretório municipal do Cidadania em São Bernardo do Campo (SP), reduto eleitoral de Manente, segundo os registros das notas fiscais de pagamento.

O parlamentar disputou a prefeitura da cidade do ABC Paulista nas eleições de 2024, campanha que recebeu R$ 834 mil da direção municipal do partido, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Apesar do investimento, Manente foi derrotado no segundo turno por Marcelo Lima (Podemos), conquistando 44,26% dos votos.

Em abril de 2023, Manente esteve entre os 192 deputados que votaram contra a urgência do Projeto de Lei das Fake News (PL 2630/2020). Na ocasião, justificou seu voto argumentando que a proposta extrapolava o combate à desinformação. “Um projeto que era para tratar de fake news ultrapassou esse limite e fala muito mais de monetização, controle de expressão e, principalmente, da possibilidade de limitar algumas big-techs”, declarou à Jovem Pan.

Os alvos da tropa virtual

A atuação dos perfis falsos não se restringia às disputas do Cidadania. O Governo Federal também figurava como alvo preferencial. Em dezembro de 2025, uma publicação de Manente criticando a criação de 4,4 mil cargos comissionados pelo Executivo serviu de isca para a atuação de um perfil falso.

“Esse desgoverno foi sempre assim, enchendo o bolso do estado e dando migalha para o povo”, escreveu a conta @monteirooefigenia. Em seguida, o perfil @wanderlei2589 endossou o coro: “É de uma falta de respeito e até com o próprio eleitor deste cidadão. Estamos sobrevivendo e contando os centavos neste fim de ano e o governo esbajando”.

A tática se repetiu em postagens sobre a área da saúde. Quando o deputado criticou a ausência da vacina contra herpes-zóster no Sistema Único de Saúde (SUS), a falsa tropa virtual entrou em ação. O mesmo @wanderlei2589 comentou que “parece que estamos sempre trocando 6 por meia dúzia”, enquanto o perfil @_amelia_ferraro_1965 pontuou que “o sofrimento não importa para eles, é só na hora de dar discurso”.

O grupo “Guerrilha”

A orquestração dos ataques ocorria em um grupo de mensagens sugestivamente batizado de “Guerrilha”. Era por meio desse canal que o mandato de Manente repassava as diretrizes de atuação para a operadora das contas em Santa Catarina.

As mensagens obtidas pela reportagem expõem o modus operandi da equipe. Em uma das orientações, a instrução: “Pode comentar no sentido de criticar o governo, comentários curtos. ‘Desgoverno falindo o país. Antigamente os correios era muito bom, mas o Lula e sua turma acabaram até com isso’”. A estratégia envolvia criar uma falsa percepção de indignação popular em torno das pautas levantadas pelo parlamentar.

O grupo também servia para debater os percalços técnicos da operação. Em uma troca de mensagens, a equipe discutia a queda de perfis bloqueados pelo Instagram. “É melhor pedir para ele trocar esses perfis, porque quando dá erro de senha é que já caiu”, alertou um dos membros. “Acho que tá levantando alerta de atividade suspeita porque estamos ligando de localizações diferentes e aparelhos diferentes também”.

Arte com reprodução dos diálogos a partir dos prints originais de WhatsApp

A prática, além de eticamente questionável, esbarra na legislação. Especialistas apontam que a utilização de recursos partidários para financiar o anonimato na internet pode configurar crime. Para Walber Agra, professor e advogado especialista em Direito Público, o caso caracteriza “propaganda ilícita”, sujeita a fiscalização e ressarcimento aos cofres públicos. “Gera uma série de tipificações penais no Código Eleitoral incentivar e patrocinar fakes e deepfakes”, afirma o jurista. “Isso é uma ilegalidade e, obviamente, pode ensejar, pode propiciar o cometimento de crimes eleitorais”.

A Pública procurou o Cidadania e a Câmara dos Deputados para comentar a denúncia e, caso haja resposta, o texto será atualizado.

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