O broche do ministro israelense tem forma de forca. Israel leva ao Líbano a limpeza étnica praticada em Gaza. Um bebê palestino é torturado por dez horas. O horror praticado por Telaviv caracteriza a comunidade judaica? Por que a deputada quer criminalizar quem o rejeita?
Por Berenice Bento*, em Outras Palavras
Algumas cenas de março de 2026.
Cena 1:
30 de março foi um dia de júbilo no parlamento israelense. Finalmente, a pena de morte foi aprovada para os prisioneiros palestinos. Em êxtase, o ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, ostentando na lapela um broche em forma de forca, abre um espumante. A partir de agora, ficará mais fácil e barato matar palestinos.
Atualmente, são mais de 11 mil prisioneiros palestinos detidos nas prisões israelenses, entre eles, 351 são crianças (de acordo com a ONG Defense for Children Palestine), quase todas sem qualquer acusação formal. Mulheres, homens e crianças permanecem encarcerados por anos a fio sem que lhes seja imputado uma acusação formal. Quando a acusação chega a formalizar-se, o julgamento é realizado por um tribunal militar e todo o processo transcorre em hebraico e não em árabe.
Cena 2:
Israel implementa no Líbano a mesma política genocida e de limpeza étnica que testemunhamos desde outubro de 2023 em Gaza, uma política que teve início em 1948. Já são 1.422 mortos (entre jornalistas, socorristas, professores, médicos e crianças). Mais de 1 milhão de libaneses perambulam pelas ruas de Beirute, sem possibilidade de retorno às suas casas, ainda que apenas para reencontrar os escombros, pois o exército israelense os impede.
Cena 3:
Colonos israelenses invadem casas, incendeiam carros e queimam pessoas na Cisjordânia ocupada. O desespero de um homem sendo queimado vivo contrasta brutalmente com as gargalhadas dos sionistas. Os pogroms se intensificam à plena vista da comunidade internacional.
Em Gaza, também no mês de março de 2026, um bebê foi torturado durante cerca de dez horas, com o objetivo de forçar o pai a realizar supostas confissões. As imagens dos sinais de tortura circularam pelo mundo: perfurações com pregos e marcas de brasa espalhavam-se pelo corpo do bebezinho.
Cena 4:
O cessar-fogo é violado diariamente em Gaza. Desde outubro de 2025, pelo menos 680 palestinos foram assassinados e 1.813 feridos. Esses números se somam aos mais de 72.000 palestinos assassinados (em sua maioria mulheres e crianças) e aos incontáveis feridos desde outubro de 2023.
Tabata Amaral e o direito à censura
Em um contexto no qual todas as organizações de Direitos Humanos denunciam as políticas genocidas e de segregação racial de Israel, a deputada federal Tabata Amaral apresenta um projeto de lei que estabelece como crime de antissemitismo:
“§ 2º Manifestações de antissemitismo podem ter como alvo o Estado de Israel, encarado como uma coletividade judaica.”
Como é possível que criticar um Estado cuja política se organiza em torno do extermínio de um povo seja transformado em crime? Ignora a deputada que um dos mais importantes núcleos de resistência às políticas genocidas e coloniais de Israel é constituído precisamente por judeus antissionistas? Com que legitimidade Israel pode se apresentar como “representante da coletividade judaica”?
A velha estratégia de transfigurar o antissionismo em antissemitismo (instrumento vil de censura) encontra aqui uma aliada. Nada, contudo, aproxima judaicidade e sionismo. Como assinala a filósofa judia antissionista Judith Butler, o sionismo constitui a antítese dos valores éticos da tradição judaica, entre eles, a coabitação.
Estabelece ainda:
“§ 3º Críticas a Israel que sejam semelhantes às dirigidas contra qualquer outro país não podem ser consideradas antissemitas.”
Críticas semelhantes às dirigidas a outros países? Teria a deputada lido o absurdo que assinou? Quantas Resoluções da ONU Israel se recusou a implementar? Qual país assassinou mais jornalistas na história das guerras? Qual Estado não processa soldados comprovadamente estupradores de prisioneiros palestinos? Qual é o único país do mundo que aprova a pena de morte para crianças?
Ao invocar “outros países”, o texto opera uma perigosa naturalização dos crimes contra a humanidade cometidos por Israel, sugerindo que políticas coloniais devem ser tratadas como práticas ordinárias e tenta empurrar Israel para uma comunidade internacional que ele mesmo se nega a participar, quando reiteradamente vira as costas para ONU.
O projeto de lei configura-se como uma forma de suicídio político. Talvez a deputada esteja subestimando a força da rejeição e o horror aos crimes de Israel. Com essa iniciativa, a jovem parlamentar parece dar um passo firme em direção à sua própria sepultura política. Não esqueceremos, deputada.
Antissemitismo, um crime!
Antissionismo, um dever ético!
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*Doutora em Sociologia e professora do Departamento de Sociologia da UnB




