Estudos recentes de microorganismos do meio ambiente, como o corredor central da BR-319 e a região de exploração de potássio, alertam que áreas da Amazônia ameaçadas por grandes projetos econômicos podem criar condições ecológicas que facilitam a disseminação de patógenos e a recombinação genética com patógenos humanos conhecidos, amplificando os riscos globais de biossegurança
Por Lucas Ferrante, Luis Schiesari, Célio Fernando Batista Haddad, Leonor Patrícia Cerdeira Morellato, Eric Williams, Jeremias Leão, Alexandre Celestino Leite Almeida, Letícia Sarturi Pereira, Leticia Souza Reis, Ruth Camargo Vassão, Natália Sátyro, Lizandro Lui, Cristiana Losekann, Eduardo Grin, André Luiz Marenco dos Santos, Unaí Tupinambás, Kei Otsuki, Philip Martin Fearnside, Izeni Farias e Tomas Hrbek, em Amazônia Real
No 09 de abril publicamos uma carta na prestigiosa revista Science sobre o risco de novas pandemias por patógenas liberadas por solos perturbados a partir da rodovia BR-319 e da mineração de potássio em Autazes, disponível aqui [1]. Este texto traz essas informações em língua portuguesa.
O desmatamento das florestas amazônicas apresenta riscos crescentes à biossegurança em escalas local, regional e global [2]. O recente acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia está prestes a exacerbar o desmatamento, acelerando a expansão do agronegócio brasileiro [3] — especialmente a pecuária e a produção de soja — em terras ocupadas ilegalmente no Sul e centro da Amazônia [4]. Essa expansão está sendo ativamente facilitada pelo governo brasileiro por meio da consolidação da rodovia BR-319 [4], que liga Manaus a Porto Velho, no centro do arco de desmatamento amazônico, e por meio de seu apoio político à mineração de potássio [5] em uma área do município de Autazes historicamente ocupada pelo povo indígena Mura [6]. Além de afetar o desmatamento, esses projetos irão perturbar florestas, solos e sistemas hidrológicos intactos, forçando um novo contato entre humanos, animais e comunidades microbianas anteriormente isoladas [7].
Análises metagenômicas recentes revelam que o corredor central BR-319 e as áreas propostas para extração de potássio abrigam conjuntos microbianos desconhecidos enriquecidos em genes associados à resistência a antibióticos, alta virulência, toxicidade e transferência horizontal de genes [7]. A perturbação desses reservatórios cria condições ecológicas que facilitam a disseminação de patógenos e a recombinação genética com patógenos humanos conhecidos, amplificando os riscos globais de biossegurança [2, 7].
A limitada capacidade institucional para detectar, conter e responder a patógenos emergentes na Amazônia já produziu consequências internacionais mensuráveis [2]. A variante gama do coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2) surgiu em Manaus e rapidamente cruzou fronteiras internacionais [8]. Se consolidada, a rodovia BR-319 conectaria um dos maiores reservatórios zoonóticos do mundo a aeroportos internacionais, aumentando substancialmente a velocidade e a escala com que novos patógenos poderiam se disseminar globalmente [2, 7]. Mais recentemente, uma nova linhagem do vírus Oropouche, originária do corredor da BR-319, expandiu-se para além do Brasil [9], com circulação confirmada na América Central e na Europa [10, 11]. Esses casos demonstram que o vazamento de patógenos da Amazônia não é um risco hipotético futuro, mas um processo contínuo, com implicações globais para a saúde pública [7].
Essas evidências foram formalmente submetidas ao Ministério do Meio Ambiente do Brasil [7], onde as autoridades são legalmente obrigadas a avaliar toda a documentação técnica. As mesmas obrigações se aplicam à autoridade estadual do Amazonas responsável pela licença para mineração de potássio em Autazes. Nossos resultados indicam que a consolidação da BR-319 e a mineração de potássio não apenas estão ligadas ao desmatamento e à instabilidade climática, mas também criam vias ativas para o surgimento e a disseminação global de patógenos [7]. Em consonância com o princípio de Saúde Única e o princípio da precaução [12], esses projetos justificam uma reavaliação urgente, inclusive por parte dos parceiros comerciais internacionais. [13]
Notas
[1]Ferrante, L., L. Schiesari, C.F.B. Haddad, L.P.C. Morellato, E. Williams, J. Leão, A. Celestino, L.S. Pereira, L.S. Reis, R.C. Vassão, N. Sátyro, L. Lui, C. Losekann, E. Grin, A.L.M. dos Santos, U. Tupinambás, P.M. Fearnside, I. Farias & T. Hrbek. 2026. Amazon infrastructure poses biosecurity risks. Science 392(6794): 156-157.
[2] Ferrante, L. 2024. A road to the next pandemic: the consequences of Amazon highway BR-319 for planetary health. Lancet Planet Health 8: e524-e525.
[3] MRE (Ministério das Relações Exteriores). 2026. FACTSHEET Acordo de Parceria Mercosul-União Europeia.
[4] Ferrante, L., R.R. Marinho & P.M. Fearnside. 2025. The 2023 Manaus smoke crisis and the role of highway BR-319 in a new Amazon fire cycle. Discover Sustainability 6: art. 909.
[5] MDICS (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços). 2026. Projeto Amazônia 2040–Fertilizantes.
[6]Tastevin, C. 1923. Indiens Mura de la Région de L’Autaz (Haut-Amazone). Revue de l’Anthropologie 33: 509-533.
[7]Ferrante, L., Schiesari, L., Haddad, C.F.B., Morellato, L.P.C., Williams, E., Leão, J., Celestino, A., Pereira, L.S., Reis, L.S., Vassão, R.C., Sátyro, N., Marenco, A., Losekann, C., Lui, L., Grin, E.J., Tupinambás, U., Fearnside, P.M., Farias, I. & Hrbek, T. 2026. Nota Técnica: Consolidação da BR-319 e mineração de potássio impulsionarão a emergência de novos microrganismos patogênicos na Amazônia Central. Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima), Instituto de Biociências, Universidade do Estado de São Paulo-Unesp, Rio Claro, SP & Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Qualidade de Governo e Políticas para o Desenvolvimento Sustentável (INCT QualiGov), Universidade Federal do Rio Grande do Sul-UFRS, Porto Alegre, RS, Brasil. 6 pp.
[8] Naveca, F.G., V. Nascimento, V.C. de Souza, A.L. Corado, F. Nascimento, G. Silva, Á. Costa, D. Duarte, K. Pessoa, M. Mejía, M.J. Brandão, M. Jesus, L. Gonçalves, C. da Costa, V. Sampaio, D. Barros, M. Silva, T. Mattos, G. Pontes, L. Abdalla, J.H. Santos, I. Arantes, F.Z. Dezordi, M.M. Siqueira, G.L. Wallau, P.C. Resende, E. Delatorre, T. Gräf & G. Bello. 2021. COVID-19 in Amazonas, Brazil, was driven by the persistence of endemic lineages and P.1 emergence. Nature Medicine 27: 1230–1238.
[9] Naveca, F.G., T.A.P. de Almeida, V. Souza, V. Nascimento, D. Silva, F. Nascimento, M. Mejía et al. 2024. Human outbreaks of a novel reassortant Oropouche virus in the Brazilian Amazon region. Nature Medicine 30: 3509–3521.
[10] PAHO & WHO (Pan American Health Organization & World Health Organization). 2024. Epidemiological Alert Oropouche in the Region of the Americas: vertical transmission event under investigation in Brazil. PAHO/WHO, 17 de julho de 2024.
[11] Gov.UK. 2026. Oropouche virus disease. UK Health Security Agency, 5 de Janeiro de 2026.
[12] WHO (World Health Organization). 2023. One Health.
[13] Este texto é traduzido de: Ferrante, L., L. Schiesari, C.F.B. Haddad, L.P.C. Morellato, E. Williams, J. Leão, A. Celestino, L.S. Pereira, L.S. Reis, R.C. Vassão, N. Sátyro, L. Lui, C. Losekann, E. Grin, A.L.M. dos Santos, U. Tupinambás, P.M. Fearnside, I. Farias & T. Hrbek. 2026. Amazon infrastructure poses biosecurity risks. Science 392(6794): 156-157.




