O perigo não é a repetição de Bolsonaro – é sua adaptação

Proposta de uma leitura política que falta à esquerda. Bolsonarismo deixou de operar por meio da ruptura. E Flávio pode ser a figura capaz de reorganizar a extrema direita – para que o mesmo projeto seja mais funcional; não menos radical, mas mais eficaz

Por Edgar Silva dos Anjos, em Outras Palavras

Há algo em curso na reorganização recente do bolsonarismo que escapa às leituras mais imediatas e, sobretudo, às categorias com as quais ele foi inicialmente interpretado. Não se trata de uma ruptura, tampouco de um enfraquecimento automático decorrente do desgaste acumulado dos últimos anos, mas de um movimento mais complexo de adaptação, no qual o núcleo do projeto permanece intacto enquanto sua forma de expressão passa por um processo de recalibragem. Menos ruído, mais cálculo; menos choque permanente, mais capacidade de circulação; não necessariamente menos radical, mas potencialmente mais funcional.

O bolsonarismo que emergiu em 2018 operava em confronto aberto não apenas com adversários políticos, mas com a própria gramática pública que organizava o debate. O ataque sistemático ao chamado “politicamente correto”, a construção de uma narrativa permanente contra uma suposta “patrulha ideológica” e a recusa deliberada de mediações institucionais não eram apenas traços de estilo, mas dispositivos centrais de mobilização. Jair Bolsonaro não apenas tensionava as instituições; ele tensionava a própria linguagem política, criando um campo de identificação que se alimentava da transgressão contínua, da agressividade como autenticidade e da simplificação como forma de acesso direto ao senso comum.

Foi nesse terreno que o campo progressista falhou em barrar, naquele momento, um processo de regressão política que se apresentava como ruptura. A eleição de 2018 abriu um ciclo que exigiu, anos depois, um esforço colossal para ser contido. Foram quatro anos de instabilidade institucional, corrosão deliberada de políticas públicas, ameaças reiteradas à ordem democrática e uma condução da pandemia que resultou em mais de 700 mil mortes, muitas delas evitáveis. Ainda assim, a reversão desse processo demandou tudo e mais um pouco, o que deveria, em tese, ter produzido uma leitura mais aguda sobre a natureza do fenômeno enfrentado.

Mas o que se observa agora é um deslocamento que não tem sido plenamente captado. O bolsonarismo deixou de ser novidade, deixou de operar apenas pela ruptura e passou a se colocar diante de um dilema típico de projetos que sobrevivem ao choque inicial: ou se cristaliza na forma que o originou e paga o preço da saturação, ou reorganiza sua forma de atuação para ampliar sua capacidade de permanência. É nesse ponto que a figura de Flávio Bolsonaro ganha centralidade, não como simples extensão da liderança do pai, mas como vetor de uma transição que pode redefinir o modo de operação daquele campo político.

Há, na leitura corrente, uma tendência a interpretar Flávio como derivação de uma situação de limite de Jair Bolsonaro, como se sua projeção fosse resultado de um movimento defensivo. Essa leitura desconsidera a janela de oportunidade que se abre quando um projeto político já consolidado passa a contar com uma figura que opera com maior previsibilidade, disciplina discursiva e capacidade de adaptação. Não se trata de substituir o pai, mas de reorganizar o mesmo conteúdo em uma forma potencialmente mais eficiente.

O que se observa é um deslocamento de forma que não implica deslocamento de conteúdo. A guerra cultural permanece como eixo estruturante, assim como o alinhamento com a direita estado-unidense, a leitura conspiratória das instituições e a construção permanente de antagonismos simplificados. No entanto, a maneira como esses elementos são apresentados tende a se ajustar a diferentes públicos, reduzindo atritos superficiais sem alterar o núcleo. Trata-se de um movimento de ampliação de viabilidade política.

Essa operação ganha densidade quando observada em sua dimensão geopolítica. Ao se posicionar como interlocutor da direita estado-unidense, ao incorporar categorias consolidadas no repertório político internacional e ao apresentar o Brasil como peça estratégica em cadeias de valor ligadas a minerais críticos, segurança alimentar e reposicionamento produtivo frente à China, Flávio não apenas reproduz discursos; ele tenta inserir o bolsonarismo em uma arquitetura mais ampla de poder. Não se trata apenas de alinhamento ideológico, mas de tentativa de reposicionamento do país em uma lógica geopolítica na qual soberania se reconfigura como adesão estratégica.

Diferentemente de Jair Bolsonaro, cuja inserção internacional se dava muitas vezes de forma errática, Flávio ensaia uma atuação mais coordenada, ainda que limitada, em circuitos políticos transnacionais. Essa diferença indica uma passagem de um populismo predominantemente doméstico para uma tentativa de integração em redes globais de poder, nas quais a extrema direita opera com crescente articulação.

No plano interno, a tentativa de reconfiguração estética acompanha esse movimento. A rigidez discursiva cede espaço, em determinados momentos, a uma performance mais adaptada às linguagens digitais, buscando ampliar alcance e reduzir rejeição. Ainda que essa operação nem sempre produza autenticidade, o ponto central é que há uma tentativa consciente de ampliação da zona de aceitabilidade.

É nesse ponto que a análise política precisa se deslocar. Porque o risco não está na repetição do que já foi enfrentado, mas na possibilidade de que o mesmo projeto adquira maior capacidade de circulação ao ajustar sua forma. Um projeto não precisa radicalizar mais para se tornar mais eficaz; pode, ao contrário, ampliar sua capacidade de penetração ao tornar-se mais viável.

Até que ponto a insistência em ler o bolsonarismo a partir de sua expressão mais caricatural não impede a percepção de sua capacidade de adaptação? Até que ponto a ideia de que sua força dependia exclusivamente da figura de Jair Bolsonaro obscurece a possibilidade de reorganização sob outra liderança? E, sobretudo, até que ponto a leitura de Flávio Bolsonaro como mera extensão de um ciclo esgotado não subestima a janela de oportunidade aberta pela combinação entre continuidade ideológica e maior racionalidade política?

Se a política é disputa de futuro, o maior erro pode não ser subestimar o adversário, mas insistir em combatê-lo apenas como ele foi — e não como ele está tentando se tornar.

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