Candidato por Goiás, Delúbio Soares afirma: “Entre erros e acertos, eu faria tudo de novo”

Ex-tesoureiro do PT, condenado e absolvido em escândalos, fala sobre fidelidade ao partido e retorno às urnas

Por Amanda Audi | Edição: Mariama Correia, Agência Pública

Poucos da política brasileira podem dizer que são tão fiéis quanto Delúbio Soares. O ex-tesoureiro do PT apanhou publicamente e foi uma espécie de “escudo” do partido em seus momentos mais delicados — os escândalos do Mensalão e da Lava Jato. Foi preso duas vezes, chegou a ser expulso da legenda que ajudou a fundar e foi alvo de fogo amigo.

Ainda assim, Delúbio nunca criticou o PT publicamente, se negou a fazer delação premiada – mesmo sendo incriminado por colegas –, e voltou a se filiar. Este ano, está de volta à política como candidato a deputado federal por Goiás, com a bênção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Delúbio diz que não recebeu um convite formal de Lula, já que este teria “mais o que fazer”. Mas o presidente tem dito em eventos recentes que gostaria do retorno às urnas de quadros históricos do petismo. O ex-tesoureiro atendeu ao chamado, ao lado do ex-ministro José Dirceu e do ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha, que devem se candidatar a deputado federal por São Paulo. Os três se afastaram dos holofotes por anos enquanto estavam às voltas com investigações.

Delúbio diz que não sente “nem mágoa, nem ódio”, e que tudo o que passou “faz parte da política”. Afirma que não se considera um mártir, mas “um lutador” pelo Brasil. E que, se pudesse voltar no tempo, não mudaria nada do que fez. “Entre erros e acertos, eu faria tudo de novo”, afirmou em entrevista para a Agência Pública.

“Não tenho vergonha do meu passado. Tenho orgulho dele, porque trabalhei para a construção de uma nova sociedade, que caminha para ser mais igualitária”, diz.

Por que isso importa?

  • A candidatura de Delúbio Soares nestas eleições marca o retorno às urnas de quadros históricos do petismo, que tiveram seus nomes envolvidos em escândalos de corrupção, como o Mensalão e a Lava Jato. É o caso também do ex-ministro José Dirceu e do ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha, que também devem se candidatar este ano;
  • Delúbio se negou a fazer delação premiada. Ele nunca criticou o PT ou o presidente Lula publicamente, comportamento que lhe rendeu a fama de “mártir” entre a militância.

Ele afirma que respondeu a 144 processos criminais, sem contar os outros das esferas cível, tributária e eleitoral. Em 2012, foi condenado no julgamento do Mensalão por corrupção ativa. Cumpriu pena em regime fechado e semiaberto até receber um indulto em 2016. Na Lava Jato, foi preso em 2018 sob acusação de lavagem de dinheiro, mas foi solto após a mudança de entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre prisão em segunda instância. Em 2023, sua condenação foi anulada com o argumento de que deveria ter sido julgada pela Justiça Eleitoral, e não pela Justiça Federal de Curitiba.

Imagem: Ascom

Atualmente, o ex-tesoureiro não tem mais pendências judiciais e recuperou seus direitos políticos. Este ano será o seu primeiro teste nas urnas. Ele chegou a ensaiar uma candidatura em 2010, mas foi frustrado pela recusa do PT em aceitá-lo de volta – ele passou seis anos banido do partido, entre 2005 e 2011. Nas eleições seguintes, não podia se candidatar por causa das condenações.

Vestindo uma camisa polo vermelha e chapéu panamá, Delúbio conversou com a Agência Pública por videochamada do saguão de um hotel em Brasília. Ele havia participado no dia anterior da Marcha dos Trabalhadores, uma mobilização da Central Única dos Trabalhadores (CUT). A entidade o acolheu nos anos de ostracismo político, desde que cumpria regime semiaberto na penitenciária da Papuda, e onde até hoje é assessor da presidência da CUT.

Ostracismo aos olhos do público, porque, internamente, Delúbio nunca deixou de frequentar os círculos mais seletos do petismo e dos movimentos sociais que o circundam – inclusive porque sua companheira, Mônica Valente, é secretária-executiva do Foro de São Paulo, organização que reúne partidos políticos e grupos de esquerda da América Latina e do Caribe, e diretora da Fundação Perseu Abramo, a think tank petista.

Em reuniões e eventos do partido, o ex-tesoureiro é recebido com festa pela militância. Isso se deve à sua postura de lealdade e fidelidade extremas ao longo dos anos – ao contrário do ex-ministro Alberto Palocci, que se tornou persona non grata ao sucumbir à pressão e fazer uma delação premiada no âmbito da Lava Jato. Palocci é visto como traidor; Delúbio, como mártir.

O escudo do escândalo

Quando Delúbio fala sobre si, diz “Delúbio Soares”, na terceira pessoa. Ao comentar sobre a perseguição política que diz que sofreu, por exemplo, agrupa seu nome ao de outros líderes: “Houve várias mentiras contra Delúbio Soares, contra José Dirceu e contra Lula”. Usa o mesmo artifício de não se colocar como sujeito da frase quando fala sobre o Mensalão, suposta compra de apoio parlamentar pelo governo petista. “A denúncia do [então] deputado Roberto Jefferson dizia que o tesoureiro do PT, que era o Delúbio Soares naquela época, comprava deputado para votar com o governo”, disse.

O escândalo dominou o noticiário por quase uma década, entre as primeiras denúncias e as condenações. E foi o primeiro e mais contundente teste de lealdade de Delúbio.

O ex-tesoureiro assumiu a bucha sozinho. Declarou que tinha “toda a responsabilidade” pelo caixa 2 do partido. Segundo sua defesa, o dinheiro não declarado era doado por empresários para cobrir despesas de campanha, não para comprar o apoio de deputados. Ele classificava a prática como “habitual” na política.

A postura do aliado permitiu que Lula, ainda em seu primeiro mandato, se esquivasse um pouco do centro da polêmica. “Quero dizer a vocês, com toda a franqueza, eu me sinto traído. Traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento”, disse o presidente, na época. Ele não citou o nome de Delúbio, mas todo mundo entendeu que era sobre ele. Dois meses depois, o ex-tesoureiro foi expulso do partido.

Delúbio não demonstrou abalo. Em um depoimento de mais de nove horas na Comissão Parlamentar de Inquérito que apurava o Mensalão, ele disse não se considerar um traidor. “Respeito muito o presidente Lula e como fiel seguidor do presidente não questiono suas opiniões”, pontuou. “Minha vida política não condiz com isso. Estou sendo muito bombardeado, mas não me sinto nem traidor, nem traído.”

Atualmente, Delúbio classifica o caso como uma “grande fake news” fabricada para atingir o projeto político do PT, que não era bem visto pelo mercado. “Para você ver: a denúncia era de R$ 30 mil reais para cada deputado. Hoje, cada parlamentar tem direito a R$ 102 milhões em emendas”, ele continua. “Uma mentira contada várias vezes não vira verdade, mas prejudica. Sócrates dizia que a mentira não vive o suficiente para envelhecer. Mas, até ela envelhecer, ela atrapalha.” Delúbio repetiu a frase atribuída ao filósofo grego outras vezes durante a conversa.

Por quase duas horas, ele defendeu as promessas de Lula para um novo mandato como se fossem dele próprio e não houvesse separação entre Legislativo e Executivo. Como se sua identidade se confundisse com a da pessoa pública que ele representa e do próprio partido. 

Seus planos são os do PT. Seu projeto é o de Lula. “A minha bandeira principal é ajudar o presidente Lula a governar o Brasil, trabalhar com o presidente Lula para a eleição a presidente. Esse é o meu principal objetivo”, disse. 

Como propostas próprias, o pré-candidato defende pautas que oscilam entre genéricas – como a industrialização de Goiás e melhorias em rodovias e ferrovias do estado – e ambiciosas, como a federalização da educação infantil e novos tipos de financiamentos habitacionais para pessoas de baixa renda.

Mas diz que, sobretudo, quer se aliar ao governo federal no combate ao negacionismo e ao entreguismo do senador Flávio Bolsonaro (PL) e do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), ambos pré-candidatos ao Planalto. Ele também criticou o acordo que o governo de Goiás fez diretamente com os Estados Unidos para que o país de Donald Trump tenha acesso a terras raras do solo goiano. “As terras raras são de propriedade da União. Não vamos deixar eles fazerem isso.”

Velha guarda quer “fechar o ciclo”

Aos críticos que apontam a falta de renovação do PT, por, em 2026, apostar em quadros que remontam à década de 1990, Delúbio responde que é preciso “fechar um ciclo”. “Eu estou voltando, o Zé Dirceu está voltando. O presidente Lula é candidato novamente. É importante para concluir um ciclo”, afirma.

“Nós temos que transformar o Brasil num país desenvolvido. O Lula fez a recuperação do país nesses três anos. Recuperou o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, as estradas, está começando a duplicar várias estradas no Brasil, está melhorando os portos, os aeroportos, está Reestruturando o salário mínimo”, elenca.

“Mas, sobre a renovação geracional, nós não podemos pegar uma pessoa da universidade ou do movimento popular e dizer: ‘agora você vai ser líder’. Tem que construir essa liderança, e construção leva tempo”, continua.

Para ele, a renovação não acontece por receio dos jovens em terem destino parecido com o das lideranças antigas do partido, como ele próprio. “Eles veem que, no PT, as principais pessoas foram presas, ficaram mofando na cadeia um tempão. Eles pensam: ‘Eu vou entrar nesse negócio? Não vou, não’.”

O ex-tesoureiro conta que saiu da prisão no mesmo dia que Lula. Os dois se encontraram depois na casa de um amigo. “O Lula me falou assim: ‘Você que tem mais experiência de entrar e sair da cadeia, o que nós vamos fazer agora?’ Eu respondi: ‘Nós vamos andar por aí de cabeça erguida, vamos conversar com as pessoas’. E assim fizemos”.

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