Thiago Ávila, sequestrado e torturado por Israel

Junto com Saif Abu Keshk, ativista brasileiro segue em cárcere e sob agressões. Tripulantes da Flotilha interceptada confirmam afogamentos e privação de comida. Violência teve início ainda em águas internacionais. Ocidente e governo brasileiro calam-se diante de novos crimes de guerra

Por Chris Hedges | Tradução: Lucas Scatolini, em Outras Palavras

Nada ilustra melhor o declínio da ordem internacional e moral do que o genocídio em Gaza e o envio de dezenas de bilhões de dólares em armamentos para Israel por parte das nações ocidentais, especialmente os Estados Unidos, para sustentá-lo. Parte dessa inversão é a perseguição implacável contra aqueles que denunciam o genocídio — especialmente aqueles que arriscam suas vidas para detê-lo e exigir o estado de direito.

Mas o estado de direito, ao que parece, está enterrado sob os escombros em Gaza.

Com isso, Israel consegue, sem uma mísera manifestação de protesto dos países ocidentais — sendo a Espanha uma das poucas exceções —, sequestrar 175 ativistas a bordo da Flotilha Global Sumud, a 500 milhas náuticas de Gaza e 80 milhas náuticas a oeste da ilha grega de Creta.

Essa violação da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar foi acompanhada da habitual brutalidade israelense. Os membros da flotilha dos 22 navios que foram interceptados e depois transferidos para a embarcação israelense NAHSHON foram privados de comida, forçados a dormir no chão enquanto a embarcação era alagada “repetidamente”, agredidos com socos, chutes, arrastados pelos conveses com as mãos amarradas e alvejados com balas de borracha e munição real. No final, todos, exceto dois membros da flotilha, foram transferidos para Creta, e 36 precisaram de atendimento médico.

Dois dos principais ativistas da flotilha, o brasileiro Thiago Ávila, e o espanhol Saif Abu Keshek, de ascendência palestina e que organiza movimentos de solidariedade à Palestina em toda a Europa há mais de duas décadas, não foram autorizados a desembarcar após a chegada ao Porto de Ierapetra, no sul de Creta – embora o navio estivesse em águas territoriais gregas.

Eles foram sequestrados e levados para Israel.

“Tripulantes testemunharam relatos angustiantes dos gritos de Abu Kshek ecoando por todo o navio enquanto ele era submetido a tortura sistemática, após ter sido separado dos demais”, dizia um comunicado emitido pela Flotilha Global Sumud.

Abu Keshek foi vendado, forçado a deitar-se de bruços “desde o momento de sua captura até esta manhã”, o que resultou em “hematomas no rosto e nas mãos”. Thiago foi “arrastado com o rosto para baixo pelo chão” e espancado com tamanha violência que desmaiou duas vezes.

Quando os dois ativistas compareceram a um tribunal israelense, havia hematomas visíveis em seus rostos. Thiago tinha dificuldade para levantar a mão direita.

Ambos estão em greve de fome desde que foram capturados. Eles são acusados de “auxiliar o inimigo em tempos de guerra” e “pertencer e prestar serviços a uma organização terrorista”.

Este é o mundo em que vivemos agora. Os íntegros e os corajosos são criminalizados. E os poderosos transformam as leis em arma para justificar o abuso e as atrocidades aos marginalizados.

Segue a entrevista que fiz, na Itália, com Thiago:

E aqui, documentário que fizemos na Itália, onde Thiago, junto com Francesca Albanese, Greta Thunberg, Yanis Varoufakis e os estivadores italianos que promoveram greves e se recusam a carregar armas em navios com destino a Israel:

Precisamos protestar em frente a Embaixada de Israel em Washington, bem como em frente ao consulado israelense em Nova York, para exigir a libertação de Thiago e Saif.

Eles representam o que ainda há de bom na humanidade.

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