A partir dos anos 1990, a ideia de nação foi abandonada e corre o risco de se tornar rótulo vazio. Sem projeto, território abre-se a interesses empresariais, de fundamentalismo e de mídia. País só voltará a existir plenamente se pensar seu desenvolvimento além das eleições
Por Marcio Pochmann, em Outras Palavras
A passagem do Brasil nacional-desenvolvimentista para o globalismo liberal não foi apenas uma mudança de política econômica. Foi uma profunda transformação no próprio sentido de país.
Entre 1930 e o fim dos anos 1980, mesmo com contradições, autoritarismos e desigualdades, havia um projeto nacional. O sentido nacional era o de industrializar, urbanizar, integrar o território, ampliar o emprego formal e criar alguma expectativa de mobilidade social para o conjunto dos brasileiros.
A partir dos anos 1990, contudo, esse horizonte foi sendo desmontado. A abertura comercial desenfreada, a generalização das privatizações, a difusão da financeirização e a constante redução do papel estratégico do Estado substituíram a ideia de nação por uma lógica de mercado, concorrência individual e submissão às cadeias globais do capital.
O resultado foi duro e inegável. Prevaleceu a semi-estagnação do PIB per capita, a desindustrialização, o estreitamento das oportunidades sociais e a perda da capacidade de imaginar um futuro coletivo. O Brasil deixou de se mover como projeto e passou a flutuar no sentido especulativo do presentismo dos interesses das forças de mercado.
Nesse vazio deixado pelo Estado nacional, avançou uma nova pedagogia social, compatível com a sobrevivência individual. Quando a escola pública enfraquece, o emprego protegido desaparece, a assistência social recua e o desenvolvimento deixa de ser prioridade, outras forças ocupam o território.
Entre elas, cresceram as igrejas neopentecostais. Não apenas como espaços religiosos, mas como redes de acolhimento, disciplina, pertencimento e promessa de ascensão. A Teologia da Prosperidade traduziu a insegurança material em linguagem espiritual, com a pobreza passando a ser vista como fracasso individual, o sucesso financeiro como uma prova de fé e o empreendedorismo mesmo que precário enquanto possível destino moral.
Assim, o Estado neoliberal abriu caminho para um assistencialismo religioso que, muitas vezes, transforma carência social em catequese política. A fé deixou de ser apenas experiência privada e tornou-se força organizada de poder.
Esse movimento não ficou nos templos. Pastores, bispos e lideranças religiosas passaram a ocupar câmaras municipais, assembleias legislativas e o Congresso Nacional. Formaram bancadas, influenciaram agendas morais, disputaram políticas públicas, controlaram redes de comunicação e passaram a atuar diretamente nas eleições.
O problema não se concentrou apenas na presença da religião na democracia. Os riscos emergiram da transformação religiosa em máquina político-eleitoral, sustentada por clientelismo assistencial, comunicação de massa e promessa de salvação individual em meio ao abandono coletivo.
A corrupção também mudou de forma e linguagem. Na Primeira República, sua face mais visível era a fraude eleitoral, o voto de cabresto, o coronelismo e a manipulação aberta da representação política. Mas essa corrupção já carregava marcas antigas como o patriarcalismo, o personalismo e o patrimonialismo presentes na formação do Estado brasileiro desde a colonização.
O neoliberalismo não eliminou essa herança. Ele a sofisticou. Em Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro, por exemplo, a confusão entre o público e o privado aparece como traço estrutural da vida política nacional.
O que mudou com o neoliberalismo não é a existência da corrupção, mas sua sofisticação que deixa de aparecer apenas como atraso oligárquico, passando a operar também por contratos, terceirizações, privatizações, captura regulatória, financeirização e esvaziamento da esfera pública.
Nesse novo cenário, a comunicação de massa e as plataformas digitais assumiram papel decisivo. Se, no ciclo nacional-desenvolvimentista, os conflitos sociais ainda produziam sindicatos fortes, movimentos populares, organizações estudantis, lutas camponesas e projetos coletivos de transformação, hoje a fragmentação social é atravessada por desinformação, medo, moralismo e ressentimento.
A política deixou de ser apresentada como disputa por direitos e passou a ser consumida como guerra cultural permanente. A desinformação tornou-se uma tecnologia de poder, reduzindo a qualidade da democracia e dificultando a organização popular.
Ao mesmo tempo, o crime organizado expandiu sua presença territorial, econômica e social. Das prisões às periferias, das rotas internacionais aos mercados ilícitos, da lavagem de dinheiro às redes de proteção, as facções passaram a disputar autoridade com o próprio Estado.
O Brasil contemporâneo corre, portanto, o risco de deixar de ser um projeto nacional para se converter em território disponível ao rentismo financeiro, ao fundamentalismo político, à pilhagem patrimonial, à economia ilegal e à manipulação informacional. Quando o Estado abandona a nação, outros poderes governam em seu lugar como o mercado, as igrejas empresariais, as facções, os conglomerados de mídia, as plataformas digitais e os interesses privados que capturam o público.
Nesse limite, o Brasil deixa de ser uma comunidade política em construção e passa a funcionar como um rótulo vazio, sendo o território ocupado e dominado por elites rentistas, intermediários religiosos, operadores do crime, financistas predatórios e pequenos delinquentes disputam os restos de uma nação desorganizada. A tragédia não está apenas na corrupção dos indivíduos. Está na corrosão da própria ideia de país.
A saída para esse impasse não virá do saudosismo autoritário, nem da submissão passiva ao mercado global, muito menos da falsa moralização conduzida por forças que se alimentam da crise. O Brasil precisa reconstruir a democracia como instrumento de transformação social, e não apenas como rito eleitoral.
Isso exige um novo projeto nacional que recupere a centralidade do Estado, reindustrialize o país em bases tecnológicas e sustentáveis, enfrente a financeirização, democratize a comunicação, fortaleça a educação pública, amplie a proteção social, regule o poder das plataformas digitais, combata o crime organizado com inteligência estatal e inclusão social, e recoloque o trabalho, a soberania e a cidadania no centro da vida pública.
Um país só volta a existir plenamente quando seu povo se reconhece como sujeito histórico de sua própria transformação. A tarefa democrática do presente é reconstruir o Brasil como nação. Não como território capturado por interesses privados, mas como comunidade política orientada pela justiça social, pela igualdade substantiva e por um futuro comum.
Referências
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