Colonização dizimou diversidade do DNA indígena nas Américas

Estudo internacional, sob liderança da USP, revela variações ao longo de 15 mil anos. Onda migratória recente do México à América do Sul teria alterado mapa genético.

Na Deutsche Welle

A colonização europeia reduziu o DNA indígena na América Latina a uma fração da sua diversidade genética original. É o que revelou um estudo publicado em abril na revista científica Nature por pesquisadores de universidades do Brasil, Espanha, Alemanha e outros nove países, sob a liderança da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Pompeu Fabra (UPF), em Barcelona.

Os pesquisadores sequenciaram 128 genomas inéditos, que representam 45 populações e 28 famílias linguísticas em Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, México, Paraguai e Peru. Uma vez somadas informações de estudos anteriores, foram analisados no total os genomas completos de 199 pessoas indígenas contemporâneas, abrangendo 53 populações e 31 famílias linguísticas.

“Pela primeira vez reunimos genomas completos de um grande número de populações indígenas contemporâneas de grupos que nunca haviam sido estudados antes. É um avanço sem precedentes”, segundo Marcos Araújo Castro e Silva e Tábita Hünemeier, cientistas afiliados à USP e à UPF.

Trata-se da maior base genômica já reunida sobre populações indígenas americanas, historicamente sub-representadas no mapa genômico humano. Os resultados mostram que a história demográfica e evolutiva dos povos indígenas das Américas é muito mais dinâmica e complexa do que se pensava.

Contribuição para a biomedicina

A análise destes dados permite rastrear relações de ancestralidade, rotas migratórias de diferentes povos e processos evolutivos ao longo de milhares de anos. Além disso, pode revelar como a seleção natural dos genes ajudou populações nativas das Américas a se adaptar ao ambiente e a melhorar sua resposta imunológica, seu metabolismo ou sua fertilidade.

O estudo identificou mais de um milhão de variantes que não estavam descritas em bases de dados internacionais, e algumas podem ter relevância biomédica. 

“A imensa maioria dos estudos genéticos foi realizada em pessoas de ascendência europeia, enquanto as populações indígenas americanas estiveram praticamente ausentes. Incorporar essa diversidade genética permitirá desenvolver previsões mais confiáveis, estratégias de prevenção mais eficazes e tratamentos mais bem adaptados às populações americanas,” ainda de acordo com Hünemeier e Castro e Silva.

Ainda existem, entretanto, regiões pouco ou nada representadas em áreas remotas da Amazônia, dos Andes, da América Central, da Patagônia e em algumas zonas da América do Norte, ressalvam os pesquisadores. 

Três ondas migratórias rumo à América

A pesquisa ainda confirma que, com exceção de algumas populações do Ártico, atualmente todos os indígenas americanos descendem de uma origem comum. Trata-se dos grupos humanos que chegaram à América por Beringia, ponte terrestre que conectava a Sibéria e o Alasca, há cerca de 15 mil anos.

Eles introduziram no continente parte do DNA de duas populações arcaicas: neandertais e denisovanos. Após essa primeira expansão, há cerca de 9 mil anos, ocorreu uma segunda onda migratória da América do Norte em direção ao sul, que deixou uma forte marca genética e, em grande parte da América do Sul, substituiu quase toda a herança genética de populações anteriores.

Mas o estudo identificou também uma terceira onda migratória, há pelo menos 1,3 mil anos, de populações vindas da Mesoamérica, em particular do sul do México, rumo à América do Sul e ao Caribe, revelando uma conexão muito mais recente e dinâmica entre essas áreas do que se pensava até agora. 

Os autores acreditam que pode ter havido um processo gradual de expansão e mistura entre humanos, “mais do que uma substituição completa ou repentina”. “Temos 15 mil anos de história, isso não é pouco. Os povos são diversos e têm uma história evolutiva única que tem que ser considerada,” acrescentou Hünemeier ao Jornal da USP.

O gargalo da colonização

A colonização europeia provocaria, mais tarde, um profundo efeito de “gargalo” sobre a diversidade genética nas Américas ao dizimar as populações indígenas em 90%. 

Ainda assim, em algumas regiões é possível observar uma continuidade genética de mais de 9 mil anos. A análise genômica confirmou que entre 1% e 3% do genoma procede de neandertais e denisovanos, que também contribuíram com variantes genéticas importantes para a adaptação ao continente americano.

O estudo revela ainda que cerca de 2% do genoma procede de uma população ancestral denominada “população Y” ou “Ypykuéra”, que “não corresponde a nenhum povo específico, mas foi criada para explicar por que alguns povos indígenas da América compartilham uma ancestralidade genética com populações atuais do sul da Ásia e da Oceania, especialmente com os habitantes das Ilhas Andamão”, explicaram os autores.

Essa ancestralidade “estava presente desde os primeiros momentos do povoamento do continente”, o que sugere que chegou à América com os primeiros habitantes, e se manteve “surpreendentemente estável” ao longo de milhares de anos até as populações atuais, em parte devido à seleção natural. Isto é, as populações indígenas aproveitaram os genes que conferiam vantagens para a sobrevivência.

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