Caatinga está entre os biomas mais eficientes do planeta na captura de carbono, apontam debates em encontro do MPF

Especialistas destacaram biodiversidade, conhecimento tradicional e importância estratégica do bioma para o equilíbrio climático global

MPF

A Caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro, está entre os ecossistemas mais eficientes do planeta na captura e armazenamento de carbono, além de possuir uma das maiores biodiversidades do semiárido mundial. As conclusões foram apresentadas durante o encontro “Caatinga: desafios e aspectos socioambientais”, promovido pelo Ministério Público Federal (MPF), em João Pessoa (PB), reunindo pesquisadores, representantes de comunidades tradicionais, órgãos públicos e especialistas em meio ambiente e mudanças climáticas.

Este é o terceiro release que integra uma série que vem sendo divulgada pelo MPF a partir dos debates realizados no encontro “Caatinga: desafios e aspectos socioambientais”, realizado na primeira quinzena deste mês. A série aborda temas como mudanças climáticas, desertificação, crise hídrica, biodiversidade, impactos das energias renováveis, unidades de conservação e direitos de povos e comunidades tradicionais no semiárido brasileiro, com foco na ampliação do acesso da sociedade às discussões e informações produzidas durante o evento.

Ao longo dos debates, especialistas buscaram desconstruir a percepção histórica da Caatinga como um território “pobre”, “vazio” ou improdutivo. Pesquisadores destacaram que o bioma abriga quase 5 mil espécies de plantas, elevado índice de endemismo (espécies exclusivas da região) e ecossistemas altamente adaptados às condições climáticas do semiárido brasileiro, além de desempenhar papel estratégico na regulação climática e na conservação da biodiversidade. 

Estudos apresentados durante o encontro indicaram que, em anos chuvosos, a Caatinga foi responsável por cerca de 50% de todo o carbono absorvido no balanço nacional de carbono do Brasil, apesar de ocupar apenas 11% do território nacional. Pesquisadores do Observatório da Caatinga afirmaram ainda que o bioma é a segunda floresta seca mais eficiente do planeta no sequestro de carbono, reforçando sua importância para o enfrentamento das mudanças climáticas.

Conhecimento tradicional e patrimônio ambiental – Os debates também destacaram o papel dos povos e comunidades tradicionais na conservação da Caatinga. Pesquisadores e representantes de movimentos sociais defenderam o reconhecimento dos saberes acumulados historicamente por indígenas, quilombolas, agricultores familiares e comunidades catingueiras como patrimônio ambiental fundamental para a conservação do bioma.

Entre as experiências apresentadas estiveram tecnologias sociais desenvolvidas no semiárido, como cisternas, bancos de sementes crioulas, sistemas agroecológicos e estratégias tradicionais de armazenamento de água e alimentos. Segundo os participantes, essas práticas representam formas históricas de adaptação ecológica às condições climáticas da Caatinga e contribuem para a conservação da biodiversidade e da vegetação nativa. 

Pesquisadores também chamaram atenção para saberes tradicionais utilizados na interpretação dos ciclos climáticos, no manejo sustentável da vegetação e na proteção de espécies da fauna e da flora da Caatinga. Durante os debates, foi defendida maior valorização da expertise local das populações do semiárido na formulação de políticas ambientais e climáticas.

Pressão sobre territórios e biodiversidade – As discussões alertaram para o avanço da degradação ambiental e da transformação territorial no bioma. Entre os principais fatores apontados estão o desmatamento, a desertificação, a substituição da vegetação nativa por monoculturas, a expansão de grandes empreendimentos e as mudanças climáticas. 

Segundo os especialistas, a conservação da Caatinga depende diretamente da proteção dos territórios ocupados por povos indígenas, quilombolas, agricultores familiares e demais comunidades tradicionais, considerados essenciais para a manutenção da biodiversidade e dos serviços ambientais prestados pelo bioma.

Também foi debatida a necessidade de fortalecimento de políticas públicas voltadas à recuperação ambiental do semiárido. Entre as iniciativas apresentadas esteve o Programa Recaatingar, do Ministério do Meio Ambiente, que prevê a recuperação de milhões de hectares degradados da Caatinga ao longo das próximas décadas. 

Coordenado pela 4ª e pela 6ª Câmaras de Coordenação e Revisão do MPF e pela Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), o encontro reuniu instituições públicas, universidades, pesquisadores e representantes da sociedade civil para discutir estratégias de proteção da Caatinga e fortalecimento da justiça socioambiental no semiárido brasileiro.

Assista às discussões: dia 14 e dia 15

Acesse os slides das apresentações

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