Maria do Chá: guardiã de raízes no Mata Cavalo (MT), território quilombola acompanhado pelo Incra

O nome é Maria Pinto de Morais. Mas, na comunidade quilombola Mata Cavalo de Baixo, localizada no território Mata Cavalo, no município de Nossa Senhora do Livramento (MT), ela é Maria do Chá.

Na Funai

O apelido nasceu há três décadas. Em 1996, Maria chegou à beira da antiga Fazenda São Carlos, junto com cerca de 20 descendentes de quilombolas que buscavam reivindicar o direito à terra. Na época, estava com dois filhos e enfrentou uma fase marcada pela falta do básico para sobreviver. “A luta foi daquelas pesadas. Não tínhamos salário, e quem vinha para cá tinha que abrir mão de tudo. Nossa casa eram as folhas de bacuri. Ficamos sem comida e sem água. Não estava acostumada a ver criança chorando de fome”, relata.

Diante da escassez, Maria passou a preparar chás com plantas do cerrado para alimentar, principalmente, crianças e idosos. “Fazia chá de manhã, meio-dia, de tarde e de noite”, lembra. Foi então que surgiu o apelido. Usando ervas que conhecia desde a infância e os saberes passados por sua mãe, fervia as folhas em um tacho improvisado.

Maria do Chá é uma das pessoas que passou pela supervisão ocupacional do Incra na comunidade Mata Cavalo de Baixo, ação realizada entre os dias 18 e 22/05/2026 com o objetivo de atualizar o cadastro de famílias quilombolas.

Décadas depois, melhor estruturada em sua terra, a curandeira cultiva mandioca, abóbora e várias árvores, plantas e ervas, e quer voltar a criar galinhas e porcos. Com o avanço das ações do Incra no território, Maria também teve acesso a políticas públicas de crédito, como o Fomento e o Fomento Mulher, realizando melhorias no local. Agora seu objetivo é obter o crédito habitacional.

A história de Maria do Chá é um dos muitos exemplos presentes no Mata Cavalo – território vasto em práticas tradicionais de cura. Aos 71 anos, Maria é referência local em chás e garrafadas, usando principalmente ervas e raízes. “Até hoje, nas festas e reuniões, exigem que eu leve o chá”, fala entre risadas.

“Jamais eu faço um chá que eu não tenho certeza que é bom. Quem toma garrafada de fedegoso para limpar a garganta passa a noite toda cantando cururu. Se é para estômago, eu faço nó-de-cachorro, tapera-velha e gervão”. O cururu é uma manifestação musical folclórica tradicional no Estado de Mato Grosso.

Apesar dos avanços, ela lembra que os desafios ainda existem. “Há tempos não somos mais despejados. Muita coisa mudou, mas a gente ainda está na luta. Meu tio sempre falava que nós somos tronco. Mas, para ser tronco de verdade, tem que lutar, tem que enfrentar, tem que reivindicar”, conclui a quilombola Maria do Chá.

Ações do Incra
Entre 2024 e 2025, o Incra aplicou cerca de R$ 76 milhões em Crédito Instalação em Mato Grosso, beneficiando pouco mais de quatro mil famílias assentadas e quilombolas em diversas regiões do Estado. Entre as ações executadas no período, destaca-se a concessão de 1,6 mil créditos na modalidade Apoio Inicial, no valor total de R$ 13,3 milhões, assegurando condições básicas para a instalação e permanência das famílias nos seus lotes. Deste total, 200 créditos foram destinados a famílias do território quilombola Mata Cavalo, reafirmando o compromisso institucional com as comunidades tradicionais.

Já no período de 13 a 17/4/2026, o Incra realizou uma supervisão técnica no território da comunidade quilombola Mata Cavalo, com foco na atualização de informações e do cadastro de famílias – contribuindo para um retrato mais fiel do contexto local. Nesta fase, os trabalhos contemplaram as áreas da Cabeceira do João Cuiabá e da Aguaçú de Cima, restando mais três para a conclusão do levantamento.

Entre os dias 18 e 22/05/2026, foi a vez da comunidade Mata Cavalo de Baixo receber as equipes da autarquia de supervisão técnica – sendo esta a quarta fase da atividade na área.

A atualização do cadastro de famílias permite a revisão de dados populacionais para definir prioridades da aplicação de créditos de instalação. De acordo com as últimas informações apuradas, o Mata Cavalo contava com 418 famílias. Os dados ainda passarão por consolidação da Divisão no Incra/MT, mas a estimativa inicial aponta que o número possa ser pelo menos duas vezes maior.

O território Mata Cavalo tem cerca de 14 mil hectares e fica localizado a 30 quilômetros da capital Cuiabá. A comunidade quilombola Mata Cavalo é referência em resistência cultural, agricultura familiar e artesanato

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