Entidades pedem participação em processo que acusa Universal de assédio judicial contra jornalista João Paulo Cuenca

Ministério Público diz que igreja organizou ações em massa para dificultar defesa de João Paulo Cuenca; instituição religiosa nega. Organizações de liberdade de expressão e imprensa falam em ‘medida reparatória, mas também pedagógica e dissuasória’

Por Arthur Guimarães de Oliveira, na Folha de São Paulo

Seis organizações de defesa da liberdade de expressão e de imprensa pediram para participar, na condição de amici curiae (amigos da corte), de uma ação na qual o MPF (Ministério Público Federal) no Rio de Janeiro acusa a Igreja Universal do Reino de Deus de assédio judicial contra o escritor e jornalista João Paulo Cuenca.

O caso trata da reação a uma publicação de Cuenca em 2020 nas redes sociais, quando ele escreveu: o “brasileiro só será livre quando o último Bolsonaro for enforcado nas tripas do último pastor da Igreja Universal”.

O comentário era uma paráfrase de uma citação de Jean Meslier, francês do início do século 18. O texto original dizia que “o homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre”.

O jornalista foi alvo de mais de uma centena de ações judiciais em todo o país. O movimento, segundo o MPF, foi organizado e promovido pela Universal com pastores para dificultar a defesa. A igreja nega.

O Ministério Público defendeu que esse tipo de conduta estimula a judicialização em massa contra jornalistas e gera um efeito inibidor à liberdade de imprensa. O órgão pediu a condenação da igreja ao pagamento de R$ 5 milhões de indenização por danos morais coletivos.

O processo tramita na 17ª Vara Federal do Rio de Janeiro.

Inicialmente, o juiz Eugenio Rosa de Araújo entendeu que não cabia à Justiça Federal julgar o caso, decisão depois revista pelo TRF-2 (Tribunal Regional Federal da 2ª Região) para reconhecer a competência e determinar o andamento do processo.

A Universal sustentou que não caberia ao MPF ter proposto a ação e que a igreja não poderia ser a processada. A discussão sobre a legitimidade ainda está em aberto.

Na petição para entrar no processo na condição de amici curiae (quando não são parte da ação, mas se colocam à disposição para participar com embasamento técnico), as entidades disseram que o assédio judicial contra jornalistas gera uma autocensura entre os profissionais, que passam a temer represálias judiciais ao cobrir temas de interesse público, o que empobrece o debate democrático.

O pedido é assinado pelo Instituto Tornavoz, pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), pelo Artigo 19, pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), pelo Instituto Vladimir Herzog e pelo Repórteres Sem Fronteiras.

De acordo com as organizações, a ação do Ministério Público Federal não trata apenas do caso de um jornalista, mas sim do direito coletivo de toda a sociedade. “Responsabilizar os perpetradores de assédio judicial pelos danos suportados pela coletividade não é medida apenas reparatória, mas também pedagógica e dissuasória”, dizem elas.

“Essa é a importância de toda essa discussão”, afirma a advogada Taís Gasparian, do Instituto Tornavoz, umas das subscritoras da petição. “O assediador corrompe a lógica do processo civil ou do legítimo interesse dos cidadãos de buscar a Justiça para silenciar os jornalistas e os veículos.”

Enviada para Combate por Julio Araujo.

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