Restringir celulares como restringimos o cigarro

Uso excessivo de tecnologia é um dos fatores que explicam explosão de casos de ansiedade e depressão. Lei que proibiu smartphones fora das escolas foi primeiro passo. Não seria possível ampliá-la e criar “ilhas de presença”, em nome da vida em comum?

Por Felipe Azevedo Moretti*, autor convidado, em Outra Saúde

A rápida disseminação de smartphones, especialmente a partir de 2010, transformou profundamente a nossa forma de viver e se relacionar – com evidências crescentes de que a presença constante destes dispositivos em nosso dia a dia traz repercussões sérias na atenção, no aprendizado e na saúde mental, especialmente entre os mais jovens. 

Nesse cenário, o Brasil tem ganhado evidência. Estamos entre os países mais conectados do mundo: passamos em média mais de 9 horas por dia diante das telas, e 36% das crianças de 6 a 8 anos já possuem celular próprio. Antes mesmo da alfabetização plena, já estamos inserindo a infância em uma rotina hiperconectada. Porém, será essa a cultura digital que queremos para nós? 

Sociedades científicas alertam para limites claros: a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda ausência total de telas para crianças menores de 2 anos, e no máximo 1 hora diária até os 5 anos. Já dos 6 aos 10 anos, a Sociedade Brasileira de Pediatria sugere até 2 horas diárias, limite que se estende para 3 horas dos 11 aos 18 anos. 

Importante lembrar que, em adolescentes, há evidências de aumento significativo de riscos à saúde mental quando o tempo de tela ultrapassa 4 horas/dia. Por outro lado, estudos indicam que reduzir apenas uma hora de tela por dia já se associa à melhora do humor e à redução de sintomas ansiosos.

Mas parece que estamos nadando contra a corrente. Nos últimos 10 anos, em diversos países do mundo, foram registrados crescimentos alarmantes de sintomas de ansiedade, depressão e taxas de suicídio – principalmente entre os mais jovens. Só no Brasil, entre 2013 e 2023, houve crescimento de cerca de 1.000% nos casos de ansiedade e depressão entre jovens e adolescentes, conforme dados da Rede de Atenção Psicossocial do SUS. Pela primeira vez na história, inclusive, os índices de ansiedade entre jovens superaram os de adultos. E sabe o que aparece recorrentemente como um fator associado a esses aumentos? O uso excessivo da tecnologia.

Diante desse contexto, será que não deveríamos estimular espaços livres de celulares como fizemos com o cigarro? 

Vale lembrar que o tabaco foi associado durante décadas a status, glamour e até benefícios à saúde, apesar das evidências de seus malefícios. Na década de 1980, o cigarro ainda era usado livremente em aviões e salas de aula. Sua restrição exigiu tempo, ciência e políticas públicas consistentes. 

Portanto, a pergunta que se impõe é: será que não naturalizamos hoje, de forma semelhante, o uso irrestrito dos smartphones? Será que a restrição ao uso de celulares em alguns locais de convívio não poderia fomentar novas culturas em prol do bem-estar social?

Celulares nas escolas

Uma política pública importante nesse sentido foi a Lei 15.100/2025 – que restringiu o uso dos dispositivos digitais nas escolas do Brasil. Porém, em visitas recentes a escolas de São Paulo, algo me chamou atenção: mesmo com a proibição, muitos adolescentes seguiam com os aparelhos em mãos, navegando em redes sociais e checando mensagens em sala. Diante desta cena, algumas perguntas que surgiram foram: quais os grandes desafios de implementação da lei e como maximizar seus efeitos?

Em pesquisa recente conduzida pelo autor, com apoio do CNPq, foram entrevistados 73 professores e alunos do ensino fundamental e médio, e entre os resultados, quase 70% da amostra relatou melhora nas interações sociais e na aprendizagem após a restrição digital nas escolas. Porém, mais de 70% defendeu ajustes na lei. A conclusão do estudo foi clara: a política tem potencial positivo, mas a proibição total tende a ser insuficiente se não acompanhada de diálogo e educação. Outra pesquisa recente sobre o assunto – da Frente Parlamentar Mista da Educação –, que entrevistou 2.840 alunos, também constatou que a restrição ao uso de celulares nas escolas fez 80% dos estudantes prestarem mais atenção às aulas. 

Experiências internacionais seguem caminhos semelhantes. Diversos países europeus adotam escolas livres de celular associadas à educação digital desde a infância. O debate, portanto, é para recuperar experiências humanas essenciais. Pois mesmo hiperconectados, nunca nos sentimos tão sozinhos. Pesquisa global da Ipsos mostra o Brasil entre os países com maior sensação de solidão. Espaços coletivos foram ocupados por telas, reduzindo o encontro, o olhar, a espera, a escuta, o existir sem performar. Estamos presentes fisicamente, mas ausentes nas relações.

Na tentativa de criar novas práticas digitais, vale destacar que o comportamento dos adultos é um dos principais fatores que estimula o uso excessivo pelos mais novos. Ou seja, quando pais, professores e familiares estão muito conectados, normalizamos a ideia de que o celular é mais importante do que a presença do outro. E isso produz efeitos profundos sobre o convívio social.

Nesse sentido, se o cigarro precisou ser restringido em ambientes coletivos para proteger a saúde física, é razoável reconhecer que o uso irrestrito de celulares também exige limites claros para resguardar a nossa saúde mental. Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de reconhecer que ambientes como escolas, salas de aula e outros espaços de convivência precisam ser intencionalmente desenhados para favorecer a presença, a atenção.

Defender espaços de desconexão, portanto, não é um retrocesso, mas um avanço civilizatório. É afirmar que nem todo tempo deve ser capturado por notificações, nem toda relação é mediada por algoritmos. Em um mundo saturado de estímulos, criar ilhas de presença pode ser uma política pública simples, mas potente, para proteger a infância, a saúde mental e a vida em comum. No limite, o centro da questão não é a tecnologia, mas que tipo de sociedade queremos sustentar, e o quanto estamos dispostos a defendê-la.

*Psicólogo e professor no Programa de Pós-Graduação em Saúde da Família da Unifesp, com pós-doutorado pelo IDOR.

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