Região tem histórico de práticas para levar trabalhadores para áreas distantes e isoladas
A Comissão Pastoral da Terra (CPT) Pará, equipe de Tucuruí, participou nesta terça-feira, 23 de junho, da Capacitação da Rede de Atendimento às Vítimas de Trabalho Análogo à Escravidão e Tráfico de Pessoas, realizada em Pacajá, no sudoeste do Estado amazônico. A atividade foi promovida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), em parceria com a Fundação Pan-Americana de Desenvolvimento (PADF) e a CPT, reunindo profissionais das áreas da assistência social, saúde, educação, direitos humanos e segurança pública.
A capacitação integra uma estratégia de fortalecimento da rede de proteção e de promoção de ações preventivas voltadas ao enfrentamento do trabalho escravo contemporâneo e do tráfico de pessoas. O objetivo é qualificar e sensibilizar profissionais para a identificação, acolhimento e encaminhamento de vítimas dessas violações de direitos humanos.
Como parte da mobilização para a atividade, CPT, MPT e PADF realizaram, no dia anterior, uma reunião de alinhamento com representantes do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), do Conselho Tutelar e da Secretaria Municipal de Assistência Social. O encontro reforçou a articulação entre as instituições locais e a importância da atuação conjunta da rede de proteção no município.
Durante a capacitação, o agente pastoral da CPT, Sirlei Carneiro, resgatou a realidade vivida por trabalhadores na região entre Pacajá e Novo Repartimento, marcada por sucessivos casos de trabalho escravo ao longo das últimas décadas. Segundo ele, muitas das estratégias utilizadas pelos empregadores naquele período ainda permanecem presentes em diferentes contextos da exploração contemporânea.
“Na época que eu cheguei nessa região de Pacajá e Novo Repartimento era muito conflituosa. Tinha casos de trabalho escravo, em que o empregador ia no Maranhão e trazia o trabalhador e colocava ele numa área bem distante, isolada. E cometia trabalho escravo contra os trabalhadores”, relatou.
Sirlei lembrou que muitos trabalhadores conseguiam escapar das fazendas e percorriam longas distâncias pela mata até encontrar ajuda em municípios da região. “Tinha trabalhadores que fugiam por dentro da mata, chegavam na região de Tucuruí e iam procurar ajuda. E nós encaminhávamos as denúncias. Nós tivemos várias fiscalizações”.
O agente observa que o trabalho foi fundamental para que diversas operações de fiscalização fossem realizadas entre 2006 e 2010 na região de Pacajá e Novo Repartimento. “Toda semana tinha operação aqui nessa região de Pacajá e Novo Repartimento”, lembra.
Trabalho continua e teve avanço com condenação da Volkswagen
Sirlei ressaltou que a CPT contribui com a defesa do direito dos trabalhadores na região há mais de trinta anos. E recentemente, a coleta de depoimentos de trabalhadores e o encaminhamento das denúncias para subsidiar a atuação do Ministério Público do Trabalho gerou uma vitória com a condenação da empresa Volkswagen, por crime de trabalho escravo na região Sul do Pará.
“A CPT contribuiu na questão dessa denúncia, colheu depoimentos dos trabalhadores e encaminhou. O Ministério Público ingressou com uma ação que resultou na condenação da empresa Volkswagen por trabalho escravo. O processo ainda está rolando, mas já é uma grande conquista dos trabalhadores”, afirmou.
Para Sirlei, essa trajetória demonstra a importância da atuação permanente da CPT na defesa dos direitos humanos no campo. A entidade desenvolve há mais de três décadas ações de prevenção e combate ao trabalho escravo, acompanhando denúncias, apoiando trabalhadores e fortalecendo redes de proteção nos territórios.
Presente na região sudeste desde 1992, a CPT de Tucuruí segue atuando junto às comunidades rurais, movimentos sociais e instituições públicas para enfrentar violações de direitos e promover condições dignas de vida e trabalho. Atualmente, esse compromisso também se expressa por meio de campanhas como a “De olho aberto para não virar escravo”, que desenvolve ações desde a prevenção ao desenvolvimentos de iniciativas de formação como a realizada em Pacajá, que buscam fortalecer as redes locais para identificarem situações de exploração e garantir proteção às vítimas.
Para a CPT, o enfrentamento ao trabalho escravo e ao tráfico de pessoas depende da atuação articulada entre sociedade civil e poder público. Nesse processo, o envolvimento de profissionais da assistência social, saúde, educação, direitos humanos e segurança pública é fundamental para prevenir violações, assegurar direitos e ampliar a proteção das populações mais vulneráveis.




