Educação é prioridade? Crônica de um buraco sem fundo

Uma professora aguarda o “farol verde” para conseguir aulas. A ironia: hoje, os “substitutos” são maioria na rede pública em SP. Se ficam doentes, perdem lugar na fila de lecionar. Retrato da educação que cobra resultados, mas lembra que o professor é descartável

Por Janethe Fontes*, em Outras Palavras

Depois de um pouco mais de duas décadas trabalhando na área financeira/securitária do setor privado e atuando, paralelamente, como ativista cultural da cidade onde moro, Guarulhos, decidi — acredito que a própria militância foi me levando a isso — me formar em História e Sociologia.

Eu acreditava — e continuo acreditando — que, se existe um lugar capaz de formar uma verdadeira consciência crítica e de transformar a sociedade, esse lugar é a escola.

Mas, ao entrar na rede pública do Estado de São Paulo, percebi algo que quase ninguém fala. Os problemas da Educação não estão apenas na sala de aula, onde professores e professoras precisam lidar diariamente com indisciplina, desrespeito e condições cada vez mais difíceis de trabalho.

O buraco é bem mais fundo… ou pior, o buraco sequer tem fundo.

No Estado de São Paulo, houve concursos para professores em 2013 e depois apenas em 2023. Ou seja, dez anos depois, o governo lançou um edital com a finalidade de contratar 15 mil profissionais, um número que, obviamente, não atendia à verdadeira demanda do estado.

Uma reportagem do G1, publicada em abril de 2024, mostrou que a rede estadual de ensino de São Paulo possui mais professores temporários do que efetivos, segundo dados divulgados pela ONG Todos Pela Educação:

Durante todo o ano de 2023, 162.935 professores deram aulas na rede estadual. Desse total, 82.685 eram temporários, 69.980 eram efetivos e 10.253 eram contratados pelo regime CLT. Ou seja, o número de professores temporários superava o de efetivos e celetistas.

Os números revelam, portanto, que são milhares de profissionais temporários que, de fato, continuam sustentando a escola pública. Profissionais que não têm estabilidade, não têm garantias e, na maioria das vezes, não têm qualquer segurança sobre o próprio futuro.

Afinal, conseguir aulas em um ano não garante a mesma “conquista” para o ano seguinte.

Neste ano de 2026, por exemplo, as regras impostas pela SEDUC-SP para a atribuição de aulas tornaram esse processo ainda mais atribulado do que nos anos anteriores. De forma que, mesmo estando com o chamado “farol verde”, como era o meu caso — outra regra absurda imposta pelo Estado — tive dificuldades para conseguir aulas.

Ao final, consegui apenas aulas de substituição, ou seja, aulas que permaneceriam comigo somente até o retorno do professor titular.

Essa instabilidade, somada à rotina estressante e às cobranças cada vez maiores da SEDUC, leva muitos professores e professoras à Síndrome de Burnout. Juntando isso ao fato de que esses profissionais convivem diariamente com centenas de pessoas, que os expõem a vírus, bactérias e inúmeras doenças, torna-se relativamente comum o afastamento por motivos de saúde.

Mas o professor ou professora “em substituição” não tem o direito de adoecer.

Sim, é isso mesmo!

Ao apresentar um atestado médico por causa de uma pneumonia que, muito provavelmente, contraí na escola, no segundo dia de afastamento perdi as aulas. Houve a chamada interrupção de exercício.

Na prática, isso significa que estou desempregada, já que, sem aulas, não tenho remuneração.

Depois de tudo o que aconteceu… do que está acontecendo, fico me perguntando:

Que tipo de política pública afirma que a Educação é prioridade, mas mantém seus profissionais em permanente insegurança e precarização?

Qual outra carreira profissional, seja no setor público ou privado, pune um trabalhador por adoecer após apenas dois dias de afastamento? Isso não vai na contramão dos direitos trabalhistas tão duramente conquistados?

Que momento histórico é esse em que nada mais é contestado?

Essa instabilidade extrema, a ausência de direitos e as cobranças cada vez maiores impostas aos profissionais da Educação — independentemente de serem efetivos, regentes ou substitutos — fazem com que esses trabalhadores fiquem permanentemente vulneráveis. Vulneráveis ao desemprego, ao endividamento, ao adoecimento físico e ao adoecimento psicológico.

E o mais contraditório é que tudo isso acontece justamente em uma profissão que deveria ser uma das mais valorizadas pela sociedade.

Durante muito tempo ouvi que a crise da Educação estava nos alunos, nas famílias ou nos professores.

Hoje vejo que essa explicação é tendenciosa demais, que visa apenas ocultar a verdadeira raiz do problema.

A crise está em um sistema que exige tudo da escola e de seus profissionais, mas investe cada vez menos em quem faz a escola existir.

Quando um professor vive sob permanente insegurança, não é apenas ele quem perde. Perde a escola, que vê projetos interrompidos. Perdem os estudantes, que convivem com a constante troca de docentes e com a falta de continuidade pedagógica. E perde a própria sociedade, que insiste em cobrar resultados da Educação ao mesmo tempo em que precariza aqueles que são responsáveis por construí-la diariamente.

E talvez o mais preocupante seja isto:

Muitos professores e professoras se acostumaram tanto ao absurdo que já não se indignam mais.

Falta consciência crítica da própria categoria sobre as condições em que trabalha.

Talvez o fundo do poço não seja a precarização.

Talvez seja quando a precarização passa a ser aceita como algo normal.

Normal pela sociedade.

Normal pelos governos.

E, infelizmente, normal até mesmo por parte daqueles que sofrem suas consequências todos os dias.

E não me refiro apenas aos profissionais da Educação.

Refiro-me também aos alunos e alunas que, sem perceberem, aprendem diariamente que o trabalho de seus professores pode ser tratado como algo descartável. Por consequência, aprendem também que a Educação não é importante para suas vidas e, assim, deixam de lutar pelo direito a uma educação de qualidade e verdadeiramente transformadora.

*Janethe Fontes é professora de história e sociologia e escritora. Autora, entre outros livros, de Natureza Selvagem (Ed. A Liter Ação).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezessete − quatro =