Fiocruz concede título póstumo a pesquisadores cassados na ditadura

Fórum 21

A Fiocruz concedeu na quarta-feira (05/08), Dia Nacional da Saúde, a outorga póstuma do título de pesquisador emérito aos cientistas da Fundação que tiveram seus direitos políticos cassados em 1970, no episódio conhecido como Massacre de Manguinhos. A atividade ocorreu nas escadarias do Castelo da Fiocruz, mesmo local em que, há 40 anos, uma cerimônia os reincorporou à Fundação. O Dia Nacional da Saúde é celebrado em 5 de agosto por ser o dia de nascimento de Oswaldo Cruz.

A iniciativa homenageou os cientistas Augusto Cid de Mello Perissé, Tito Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, Haity Moussatché, Fernando Braga Ubatuba, Moacyr Vaz de Andrade, Hugo de Souza Lopes, Masao Goto, Sebastião José de Oliveira e Domingos Arthur Machado Filho. Também foi feita a entrega simbólica do título a Herman Lent, pesquisador emérito da instituição desde 2004, e a Walter Oswaldo Cruz, filho do patrono da Fundação e um dos membros fundadores da SBPC. 

A honraria foi aprovada pelo Conselho Deliberativo da Fiocruz em maio e reconhece trajetórias que marcaram o desenvolvimento científico da instituição e do país. Pautada pela premissa de que ciência se faz com democracia, a instituição realizou o ato como um manifesto pela liberdade ao estabelecer uma ponte entre 1986 e 2026. O episódio de 40 anos atrás foi realizado na gestão do então presidente da Fundação, Sergio Arouca.

O presidente da Fiocruz, Mario Moreira, lembrou que “houve tempos sombrios quando governantes viam na ciência livre, soberana, uma ameaça (…) Estamos aqui exatamente para que não se repita. E esta afirmação política ainda é necessária mesmo passados 56 anos da cassação dos nossos pesquisadores. Para que nunca mais a ciência, a educação e a democracia sejam vistas como ameaças. Ao contrário: como partes constituintes de um país mais justo, mais desenvolvido, com dignidade para todos”.

 A representante do Conselho Deliberativo da Fiocruz e diretora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Tania Araújo-Jorge, fez uma intervenção em que recordou a história da instituição e também o impacto da cassação. De acordo com a diretora, “o título póstumo de pesquisadores eméritos não honra apenas a memória desses cientistas que sofreram na pele e na vida as perseguições da ditadura militar a partir das nossas próprias entranhas. Essa outorga honra o Instituto, honra o compromisso com a ciência básica, a ciência que busca explicar o mundo, a fisiologia, descobrir novos medicamentos, a farmacologia, e o estudo das doenças infecciosas muito determinadas pelas condições de vulnerabilidade e negligência social, em suas diversas dimensões”. 

A atividade contou com a apresentação do contexto sócio-histórico da cassação, passando por todo o período do governo militar até chegar à reintegração dos pesquisadores, feita pelo chefe de gabinete da presidência da Fiocruz em 1986, Ary Miranda. Ele disse que a Fiocruz foi atacada por ter pensamento crítico, assim como as universidades. “Arouca já dizia que o pensamento autoritário tem medo do pensamento livre, como é o da ciência”. 

Ao fazer uma análise sobre a ação da ditadura contra os cientistas, o historiador da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) Gilberto Hochman afirmou que a homenagem é “um ato de memória, de verdade e de justiça, mas também de reflexão sobre o presente e o futuro das relações entre ciência e democracia. Um ato para relembrarmos, mais uma vez e sempre, a violência perpetrada pela ditadura militar contra a universidade brasileira e contra as instituições científicas e, principalmente, para celebrarmos a vida e a obra desses nossos cientistas”. Segundo o historiador, “é um ato tardio de reparação (sempre incompleta, e temos muito ainda a fazer) aos pesquisadores que tiveram contribuições significativas, não apenas para os seus campos de estudo e para esta instituição, mas também para as lutas pelo desenvolvimento pleno e soberano da ciência brasileira”.

O representante da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS) no Brasil, Cristian Morales, descreveu o momento como uma “festa da memória”. Segundo ele, “a decisão da Fiocruz de conceder esses títulos e demais homenagens é um ato importante de reparação e preservação da memória. O Massacre de Manguinhos permanece como um marco doloroso da história e um lembrete do alto preço que uma sociedade paga quando a ciência é silenciada”. 

Representante do Sindicato Nacional dos Servidores de Ciência, Tecnologia, Produção e Inovação em Saúde Pública (Asfoc-SN), Carlos Fidelis ressaltou que “a luta pela democracia contou com dois pilares fundamentais desta casa: a saúde e a ciência. Ambas as esferas trabalharam intensamente para que estejamos hoje celebrando a vitória de 1986”. 

Familiares e herdeiros científicos 

A outorga reuniu familiares e herdeiros científicos dos homenageados. Testemunha da reintegração de Haity Moussatché em 1986, a neta mais velha do cientista voltou ao mesmo local para representá-lo na entrega do título. “É muita emoção voltar ao lugar que estive há 40 anos. Haity era um homem generoso e este título é mais do que merecido”, disse Márcia Adler.

Responsável por representar o pai durante a cerimônia, Masao Goto Filho pontuou que o cientista evitava abordar o período de perseguição em casa como forma de proteção aos filhos. “Algumas coisas que eu vejo através de homenagens e da própria memória da Fiocruz me mostram facetas diferentes do meu pai. Por esse motivo, participar deste momento é uma honra e uma alegria, mas também é uma forma de conhecer ainda mais a história dele”. 

O legado do primeiro cientista negro do Instituto Oswaldo Cruz, Sebastião José de Oliveira, foi celebrado por seu filho, Paulo Silva, que representou o pesquisador no evento. “Tenho orgulho do meu pai ser uma das pessoas homenageadas. Lembrar do que aconteceu é sempre fundamental e este reconhecimento é muito importante para todos que tenham conhecimento sobre a história. Estes fatos não podem ser esquecidos”, afirmou. 

O filho de Herman Lent, Roberto Lent, destacou que espera que a homenagem inspire a nova geração de cientistas do país. “Meu sentimento vai muito além de uma emoção de família. Meu sentimento é de esperança que isso nunca mais se repita e que quem esteja estrando na ciência persista em defesa dela”, comentou. 

Para a neta mais velha de Walter Oswaldo Cruz, Elisa Oswaldo Cruz Marinho, “resgatar o episódio do Massacre de Manguinhos é muito importante para a memória do país e para a formação das próximas gerações”.

Carta dos pesquisadores 

A cerimônia teve a leitura da carta dos pesquisadores eméritos em memória aos cassados, feita pelo pesquisador Renato Cordeiro, e a apresentação da impressão do livro publicado por Herman Lent em 1978 – obra que registrou o episódio sob o título O Massacre de Manguinhos. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, enviou uma mensagem em vídeo, assim como, respectivamente, as presidentes da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena Nader, e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Francilene Procópio Garcia.

A programação incluiu homenagens ao técnico Francisco José Rodrigues Gomes, conhecido como Chico Trombone e um dos auxiliares de laboratório mais conhecidos de Manguinhos, e à então chanceler da Universidade Santa Ursula, madre Mária de Fátima Maron Ramos, que acolheu corajosamente os pesquisadores perseguidos naquela universidade, e aos idealizadores e realizadores da atividade de reintegração dos cientistas cassados em 1986.

*Reprodução de texto e foto publicados no site da Fiocruz

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