“Honestino”: memória não é passado, é compromisso com o futuro

Por Bianca Borges*, no blog da Boitempo

Hoje, 13 de agosto, chega aos cinemas o filme Honestino, de Aurélio Michiles. Com uma linguagem híbrida, que funde documentário e ficção, o filme conta a história de Honestino Guimarães, uma das principais lideranças estudantis da geração de 1968, presidente da União Nacional dos Estudantes e estudante de Geologia da Universidade de Brasília. A partir de cartas, poemas, imagens de arquivo, depoimentos de familiares e contemporâneos e cenas interpretadas por Bruno Gagliasso, o longa devolve presença e humanidade a um jovem que a ditadura tentou transformar apenas em ausência.

Honestino foi preso repetidas vezes por sua militância. Em 1973, aos 26 anos, foi capturado no Rio de Janeiro e nunca mais voltou. Seu corpo não foi localizado, e o Estado brasileiro passou décadas negando à família até mesmo o direito elementar de conhecer as circunstâncias de sua morte. Em 1996, seus familiares receberam um atestado de óbito que nem sequer informava a causa. Somente em 2013, quarenta anos depois de seu desaparecimento, Honestino foi reconhecido como anistiado político post mortem, com o registro da responsabilidade estatal pela violência que interrompeu sua vida.

Em 2025, o Brasil deu um novo passo nessa política de reparação ao determinar a retificação das certidões de centenas de mortos e desaparecidos políticos. Onde antes havia omissões, eufemismos e mentiras oficiais, os documentos passaram a registrar que aquelas mortes foram “não naturais, violentas, causadas pelo Estado brasileiro”, no contexto da perseguição sistemática promovida pelo regime ditatorial instaurado em 1964. Não se trata de uma simples alteração cartorial. É o reconhecimento de que o Estado não pode continuar escondendo, em seus próprios registros, os crimes cometidos por seus agentes.

É impossível assistir à história de Honestino como se estivéssemos diante de um passado encerrado. Em um momento no qual setores da política voltam a relativizar rupturas institucionais e a flertar com o rompimento do pacto democrático consolidado na Constituição de 1988, lembrar de Honestino – e, em seu nome, de tantos outros – é imprescindível. A invasão e a depredação das sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, assim como a campanha sistemática de desinformação contra as urnas e o sistema eleitoral, mostram que o passado não passou.

É verdade que quando um país escolhe esquecer sua história, abre espaço para que ela se repita. No Brasil, a transição democrática privilegiou a conciliação em detrimento do enfrentamento. A Lei da Anistia, ao tempo em que foi fundamental para o retorno de perseguidos e exilados, também permitiu que se consolidasse um entendimento que protegeu agentes responsáveis por torturas, assassinatos e desaparecimentos. Sob uma mesma ideia de perdão, produziu-se uma falsa equivalência entre vítimas e repressores. Os perseguidos foram obrigados a conviver com as consequências da violência, enquanto seus algozes permaneceram, em grande medida, sem responder pelos crimes que cometeram.

Nossa transição democrática foi incompleta. A ausência de responsabilização permitiu que a impunidade permanecesse como uma das heranças mais persistentes da ditadura. Preservaram-se silêncios, estruturas e práticas autoritárias que atravessaram a redemocratização. E, quando uma sociedade não enfrenta adequadamente o passado, ele retorna: na violência política, na brutalidade policial, na naturalização do autoritarismo e nos ataques às instituições democráticas.

É nesse contexto que a luta por memória, verdade, justiça e reparação precisa ser compreendida. Ela não é nostalgia, ressentimento ou uma agenda presa ao passado. É uma agenda do presente e, sobretudo, uma responsabilidade com o futuro. Não existe democracia plena sem memória. Não existe justiça sem verdade. E não existe garantia de não repetição sem responsabilização.

A UNE conhece essa história na própria pele. Foi uma das primeiras organizações atacadas pelo golpe de 1964. Na madrugada de 31 de março para 1º de abril, sua sede, na Praia do Flamengo, foi metralhada e incendiada. A entidade foi colocada na ilegalidade, mas continuou existindo na clandestinidade. Seus dirigentes foram perseguidos, presos, torturados, assassinados e desaparecidos.

Em 1968, a polícia cercou o Congresso da UNE em Ibiúna e prendeu centenas de estudantes. Em 1977, invadiu a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo durante o III Encontro Nacional dos Estudantes, uma tentativa de reconstrução da entidade, que somente se concretizaria em 1979, no histórico Congresso de Salvador. Ainda assim, mesmo submetida à violência, à clandestinidade e ao desaparecimento de seus dirigentes, a entidade jamais deixou de existir.

Por isso, quando a UNE fala de memória, não fala em terceira pessoa: fala da própria história.

Fala de Helenira Rezende, vice-presidenta da entidade e estudante da USP, assassinada no Araguaia. Fala de Alexandre Vannucchi Leme, torturado e morto aos 22 anos. Fala de Edson Luís, assassinado dentro do restaurante estudantil Calabouço. E fala de Honestino Guimarães.

Foi justamente porque a ditadura compreendia a força da juventude organizada que tentou destruir sua principal entidade. Incendiar a sede da UNE não era apenas atacar um prédio. Era tentar eliminar um espaço no qual estudantes de todas as partes do país se encontravam, produziam cultura, discutiam os destinos do Brasil e se organizavam para transformá-lo. Prender dirigentes, invadir congressos e empurrar a entidade para a clandestinidade era uma tentativa de romper os fios que ligavam uma geração à outra.

A ditadura fracassou. A UNE permanece viva porque a juventude brasileira se recusou a herdar o silêncio.

É nesse ponto que o filme cumpre um papel fundamental. O cinema rompe a frieza dos arquivos e devolve rosto, voz, afeto e complexidade às pessoas que o autoritarismo tentou reduzir a números, prontuários e certidões incompletas. Ao apresentar Honestino às novas gerações, o filme não apenas preserva a memória de um dirigente estudantil assassinado. Ele transforma uma trajetória individual em reflexão coletiva e aproxima do presente uma história que jamais foi verdadeiramente encerrada.

Honestino é, por isso, mais do que uma homenagem. É uma memória-manifesto profundamente contemporânea. Ao contar sua história, reafirmamos que não esquecemos nossos mártires e que a chama da resistência permanece viva em cada sala de aula, em cada entidade estudantil e em cada luta travada por um Brasil mais soberano, democrático e justo.

Compreendendo a dimensão dessa disputa, protocolamos, ao lado do senador Randolfe Rodrigues, o Projeto de Lei nº 5.081, de 2025, que propõe inscrever seu nome no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. A proposição está em tramitação no Senado Federal.

Inscrever Honestino nesse livro significa afirmar que os verdadeiros heróis brasileiros não são aqueles que censuraram, torturaram e assassinaram. São aqueles que colocaram a própria vida a serviço da liberdade, da democracia e da construção de um país melhor.

Também é uma disputa sobre os valores que o Brasil escolhe transmitir às próximas gerações. Honestino Guimarães não pode ser lembrado apenas como vítima. Ele foi dirigente estudantil, organizador, militante, sonhador e um brasileiro profundamente comprometido com o seu povo. Reconhecê-lo como Herói da Pátria é permitir que sua coragem ocupe oficialmente o lugar que a ditadura tentou reservar ao esquecimento.

O lançamento de Honestino, a retificação de certidões de óbito e o projeto para inscrever seu nome no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria fazem parte de uma mesma agenda: retirar as vítimas do esquecimento, inscrever a verdade nos documentos oficiais, reconhecer como heróis aqueles que defenderam a democracia, enfrentar a impunidade e garantir que as novas gerações saibam o que aconteceu, compreendam por que aconteceu e assumam a responsabilidade de impedir que aconteça novamente.

Queremos que este filme percorra o Brasil. Que chegue às universidades, escolas, centros culturais e organizações populares. Que cada sessão seja um espaço de memória, mas também de reflexão, organização e esperança. E que os jovens conheçam Honestino não apenas pela violência que sofreu, mas pela vida que viveu, pelas convicções que sustentou e pelo país que sonhou.

A memória honra as vítimas. A verdade enfrenta a mentira. A justiça combate a impunidade. E a reparação é o caminho para que o “nunca mais” deixe de ser apenas um slogan e se transforme em realidade.

*Presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dez + doze =