Sob Trump, EUA estabelecem rede de cárceres em países remotos, para onde enviam parte dos imigrantes detidos pelo ICE. Perseguições a estrangeiros crescem em ritmo e terror. E já atingem, com penas pesadas, ativistas políticos de esquerda
O domínio dos Estados Unidos sobre as Américas “jamais será questionado”, voltou a ameaçar o Departamento de Estado de Washington, nesta terça-feira (11/8), num vídeo de 5 minutos postado em meio aos fracassos de sua guerra contra o Irã. A frase, pronunciada pela primeira vez por Donald Trump no início do ano, horas após o sequestro do presidente venezuelano Nicolas Maduro, confirma um risco geopolítico crescente. Enfraquecidos em quase todo o mundo, os EUA podem estar preparando um recuo para o que veem como seu “quintal”. Aqui, passariam a exercer controle máximo – objetivo explícito da Doutrina Donroe, que retoma, recrudescida, a ideia de “América para os americanos”. Além do ataque a Caracas, a tendência aparece em sua aliança com Javier Milei na Argentina; suas interferências explícitas nas eleições recentes na Colômbia, Peru, Chile, Equador; suas pressões contra o Brasil.
Mas o que significa esta “volta ao reduto”, em termos de ataque à leis internacionais e aos direitos humanos? Ampla reportagem do jornalista Nicholas Casey, publicada nesta quarta-feira (12/8) no New York Times, traz uma das respostas. Ela conta a história quase surreal de Raul Mosquera, um imigrante cubano de 59 anos que, após mais de quatro décadas nos EUA, foi preso e deportado para o desconhecido reino de Eswatini — um enclave no território da África do Sul, governado por uma monarquia absoluta. Seu caso está longe de ser o único. Centenas, talvez milhares de imigrantes detidos nos EUA estão sendo enviados pelo governo Trump para prisões em 35 países. Nelas, assim como ocorria antes em Guantánamo, enfrentam, além do cárcere, um limbo jurídico. Enquanto isso, no EUA, o ICE, polícia de imigração, intensifica a caçada aos estrangeiros. E um de seus braços volta-se em especial contra ativistas de esquerda.
A saga de Mosquera é emblemática. Ele chegou aos EUA em1980 num barco de pesca, quando tinha 14 anos. Ingressou em meio ao chamado Êxodo de Mariel, em que 150 mil pessoas deixaram o país, estimuladas pelo governo norte-americano. Envolveu-se em guerras de gangue. Teria ferido um rival na perna, com um tiro. Passou 15 anos em prisões norte-americanas. Após pagar pelos crimes, casou-se em Miami, onde tem quatro filhos. Empregou-se como encanador e evoluiu para mestre de obras. “Trabalhava pesado e inspirava quem estava a seu redor”, contou seu empregador ao jornal.
Mosquera acostumou-se a comparecer a um órgão público todos os anos, para renovar sua licença de permanência nos EUA. Admirador discreto de Trump, ignorou os conselhos da irmã, que recomendou não voltar a fazê-lo, após a posse de Trump e em meio à onda de perseguições desencadeada pelo ICE. “Achei que nada tinha a temer”, contou. Em junho de 2025, aproveitou um intervalo no trabalho e tomou emprestado o caminhão da firma, para que pudesse voltar ao serviço logo após cumprir sua obrigação anual com o Estado.
Foi preso, transferido para o Texas e metido num avião cargueiro com destino à base militar dos EUA em Djibouti. De lá, levaram-no para o Complexo Correcional Matsapha, prisão de segurança máxima de Eswatini. Falou com o repórter por meio de um celular que um de seus companheiros de cela obteve, após greve de fome. Contou que teme jamais sair de lá, e não tem qualquer caminho à vista para fazê-lo. Não há acusação lançada contra si nem, portanto, direito a um recurso ou um pedido de redução de pena. Aliás, não há pena formal, apenas encarceramento. Em seu cárcere, Mosquera desenvolveu glaucoma. Perdeu 80% da visão num olho e metade no outro.
A matéria de Nicholas Casey relata: os EUA estão montando no exterior um autêntico arquipélago de prisões semelhantes. Para elas são enviados todos aqueles na mesma condição de Mosquera. Foram presos pelo ICE mas não podem ser repatriados a seus países de origem — ou por ausência de um acordo para tanto (como no caso do cubano) ou quando os detidos estão sob ameça de morte ou tortura em seus países, e ordens de tribunais norte-americanos os protegem de deportação direta.
A primeira nação a firmar com Trump um acordo para receber prisioneiros foi El Salvador, governado pelo trumpista Nayib Bukele e conhecido por sua política de ataque aos direitos humanos. Em março de 2025, apenas dois meses após a posse do presidente norte-americano em seu segundo mandato, um acordo firmado entre os dois países rendeu a Bukele 6 milhões de dólares e transferiu para uma megaprisão salvadorenha 250 imigrantes venezuelanos. Enviados mais tarde a seu país de origem, denunciaram torturas, espancamentos e abusos sexuais, que levaram alguns deles a tentar suicídio.
Desde então, as deportações para “terceiros países” não pararam de aumentar. “Ao menos 35 governos fizeram acordos para receber deportados – uma lista que inclui nações tão distantes quanto o Sudão do Sul, Gana, Palau, Uzbequistão e Moldova”, segundo a organização norte-americana Third Country Deportation Watch. Alguns deles são ditaduras ou estão em situação política instável. A República Centro-africana vive guerra civil. A República Democrática do Congo enfrenta um surto de ebola. Como os prisioneiros já não estão sob jurisdição norte-americana, nada impede os governos que agora os recebem de enviá-los para seus países de origem, onde enfrentarão ameça severa, potencialmente fatal.
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O espectro de ser deportado para um países longínquo, e de lá permanecer encarcerado e sem nenhum direito ou garantia, não é o único a assombrar o imigrantes nos EUA. Em junho e julho, reportou o Guardian, disparou o número de prisões de estrangeiros – inclusive os que trabalham regularmente, têm família constituída e jamais foram acusados de qualquer crime. O número de ocorrências saltou de cerca de 1 mil, no início do ano, para 2 mil, nas últimas semanas. Junho (43.138) e julho (aproximadamente 51 mil) foram os meses com maior número de detenções. Em consequência, 590 mil “pessoas ilegais” já foram deportadas desde o início do governo Trump.
O orçamento do ICE teve um acréscimo de US$ 70 bilhões, prossegue o jornal. Milhares de novos agentes de perseguição foram contratados. E a tática policial mudou. Agora, não se fazem mais operações espalhafatosas, como as de Chicago, Los Angeles e Minneapolis, em 2025. Num primeiro momento, elas rejubilavam os apoiadores de Trump; mas desencadeavam protestos e ações protetivas (como apitaços nas ruas, alertando aos imigrantes para se protegerem).
A repressão passou a se infiltrar no quotidiano das cidades. As prisões são feitas em locais de trabalho, em blitze de trânsito, na entrada das casas ou (como no caso do cubano Mosquera) quando os imigrantes se apresentam para renovar seus papéis de permanência. Estes métodos estão espalhando terror nas comunidades de estrangeiros. “As pessoas não querem sair de suas casas. Têm medo de dirigir ou de ir ao supermercado. Estão aterrorizadas, relatou Cindy Blandon, uma advogada de imigrantes em Miami. A situação se agravou no final de junho, quando a Suprema Corte, de maioria conservadora, decidiu que Trump pode revogar proteções legais anteriores, que defendiam pessoas provenientes de países atingidos por guerras e tragédias.
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A partir de junho último, o governo Trump derivou de sua guerra contra os imigrantes uma escalada de repressão e intimidação a quem os defende. As primeiras vítimas são os chamados Antifa – ou antifascistas – e, em particular, um grupo de 22 manifestantes que participou, há 14 meses, de um protesto diante da prisão ICE na localidade de Praireland, no Texas. As primeiras sentenças, já emitidas contra nove dos réus, condenam-nos a penas de prisão de 30 a 100 anos, e já estão sendo impostas. Em oito dos casos, o único delito atribuído aos réus é o de exercer a liberdade de expressão. Pelo menos duas das pessoas condenadas sequer estavam presentes aos protestos. O “crime” atribuído a elas é manter em casa uma impressora de zines, uma guilhotina de cortar papel e uma dobradora para produzir livros. A história está contada em matérias do El Salto espanhol e do Guardian.
A chave para entender o sentido das condenações é o Memorando da Presidência para a Segurança Nacional nº7 (NSPM-7), emitido por Trump em setembro de 2025, duas semanas após o assassinato de Charlie Kirk, um integrante de ultradireita norte-americana. O elo de ligação criado por Trump para criminalizar e tentar encarcerar a defesa dos direitos dos imigrantes é a suposta existência de uma Internacional Antifascista. Esta organização, tão fantasiosa como o Cartel de los Soles, que organizaria o tráfico de drogas proscritas nos EUA, a partir da Venezuela, foi mencionada de forma explícita pelo secretário de Estado Marco Rubio, em encontro com 50 governantes direitistas patrocinada pela Casa Branca em 16/7 e denominada Reunião Ministerial sobre o Ressurgimento do Terrorismo Político.
Agitar o fantasma da Internacional Antifascista é, tudo indica, uma tentativa de criminalizar a dissidência exagerando a suposta “periculosidade” de alguns de seus integrantes. No protesto de junho de 2025, diante do ICE em Praireland, um dos manifestantes disparou um tiro contra um agente da polícia antiimigrantes, que se feriu superficialmente. O agressor foi condenado a 100 anos de prisão – muitas vezes mais que os participantes do assalto ao Capitólio e tentativa de golpe de Estado de 6 de janeiro de 2021 (todos, por sinal, perdoados por Trump).
O precedente do Texas pode, em breve, suscitar outras condenações. No estado de Michigan, manifestantes contra o genocídio praticado por Israel em Gaza aguardam julgamento baseado no memorando NSPM-7. No estado de Minnestota, 15 integrantes dos grupos Direct Action Minnesota e Cat Workers Collective estão ameaçados por participar de protestos contra o ICE.
Além de odiosas em si mesmas, a perseguição aos imigrantes e o encarceramento kafkiano de personagens como Rafael Mosquera parecem ser parte de um projeto repressivo maior. O governo Trump, tudo indica, age de modo deliberado para criminalizar grupos que protestam de maneira artificialmente radicalizada, isolá-los e, com base em sua punição, tentar calar as dissidências. Também por isso, a Doutrina Donroe, que agora se volta contra o Brasil, precisa ser derrotada. Seria trágico se o fracasso dos Estados Unidos, cada vez mais claro em todo o mundo, se convertesse em controle brutal sobre a América Latina.




