por Gilton Mendes dos Santos*, em The Conversation
A antropologia costuma ser definida como a disciplina dedicada a compreender diferentes sociedades e suas formas de organizar o mundo. Por mais de um século, os povos indígenas ocuparam o lugar de observados ou de objetos dessa investigação. A possibilidade de que seus próprios sistemas de conhecimento produzissem conceitos, categorias e interpretações capazes de renovar a disciplina permaneceu, durante muito tempo, mais como uma perspectiva do que como uma experiência concreta.
Nas últimas décadas, essa situação começou a mudar. Uma experiência pioneira desse processo de transformação teve início, em 2009, no âmbito do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas (PPGAS/UFAM).
Nesse período, o PPGAS/UFAM deu início a um debate sobre a criação de uma ação afirmativa, com a abertura de vagas específicas para candidatos indígenas no mestrado. No repertório de motivos, sustentamos que a iniciativa não era unicamente promoção de “justiça social”, concedendo oportunidade de acesso aos historicamente excluídos. Representava, antes, o interesse que tínhamos numa oxigenação da própria disciplina, abrindo-a para acolher a diferença, uma perspectiva outra. Estávamos interessados naquilo que os indígenas poderiam nos dizer, naquilo que não sabíamos e que a Antropologia ainda não tinha alcançado.
Dessa inquietação e debates nasceu o ensaio Ciência da floresta: por uma antropologia no plural, simétrica e cruzada, escrito em parceria com o antropólogo Carlos Machado Dias, publicado ainda em 2009. Nele defendíamos que os saberes indígenas não deveriam permanecer somente como fonte etnográfica, objeto de descrição ou de sínteses teóricas. A proposta consistia em reconhecer que diferentes tradições intelectuais também produzem teoria e que a antropologia poderia ser um bom espaço de acolhimento para tal, e, assim, ampliar seus próprios fundamentos ao dialogar com elas.
Reflexividade indígena
Em 2010, o PPGAS/UFAM abriu suas primeiras vagas para estudantes indígenas, com a entrada de três candidatos. A presença desses pesquisadores trouxe uma mudança qualitativa ao curso, tornando possível experimentar uma visão do processo de investigação científica construída a partir de novas epistemologias. A antropologia deixava de ser apenas um instrumento para compreender os povos indígenas e passava também a ser apropriada por eles para investigar seus próprios sistemas de conhecimento.
Uma dupla torção era necessária. De um lado, era preciso desfazer clássicos conceitos aprendidos ao longo da formação acadêmica pregressa (sobre natureza, cultura, indivíduo, sociedade, humanidade, animalidade, sagrado, entre tantos). De outro, investigar e encontrar, na floresta epistemológica indígena, novas noções que dessem conta de exprimir uma lógica outra, que melhor e mais fielmente pudesse traduzir a compreensão, as práticas e as relações estabelecidas entre pessoas e mundos diversos. Em última instância, requeria-se uma habilidade de bem traduzir ou explicar o pensamento indígena.
O Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (NEAI) foi um lugar vital dessa fermentação de uma nova escola. O NEAI é um grupo de pesquisa vinculado ao PPGAS que se estabeleceu, desde o começo, como um lugar de acolhimento dos estudantes interessados neste exercício da “reflexividade indígena”, de pensar, a partir da própria antropologia, o próprio pensamento. Nesse ambiente, temos forjado experimentos que buscam o que há de próprio na contribuição das epistemologias indígenas à Antropologia e sua melhor forma de expressão, mesmo em face dos limites impostos pelo modus operandi da vida acadêmica.
Nestes quinze anos de política afirmativa do PPGAS/UFAM, muita coisa aconteceu. Atualmente, com um contingente de aproximadamente 30 estudantes nos níveis de mestrado, doutorado e pós-doutorado, este é um dos maiores programas de pós-graduação stricto sensu do Brasil com presença indígena.
Entre as iniciativas mais importantes adotadas pelo programa estão a criação de editais específicos para os candidatos indígenas; a formação de um Colegiado Indígena que pudesse protagonizar a própria política afirmativa do Programa; o reconhecimento da língua portuguesa como segunda língua para aqueles proficientes em língua indígena e o direito de escrever a monografia na própria língua nativa.
Experimentos e itinerários singulares
Uma das estratégias do PPGAS/UFAM é identificar as particularidades de cada estudante, sua trajetória, sua formação e habilidades, procurando o que cada um pode alcançar e trazer dos mergulhos em seus mundos indígenas. É uma busca que leva em conta e dialoga com a produção etnográfica e teórica da Etnologia Indígena brasileira. Esse percurso assume formas distintas em cada trajetória e nos trabalhos que resultam desse experimento. Alguns itinerários ajudam a mostrar como isso vem acontecendo.
João Paulo Lima Barreto (povo Tukano), por exemplo, ingressou no mestrado no PPGAS/UFAM em 2010, na primeira turma. Graduado em Filosofia, ele tinha um projeto ambicioso: estudar a produção de conhecimentos científicos com peixes, tendo como seu campo de observação os laboratórios de pesquisas em Ictiologia do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA). Essa ideia arremessou João Paulo a um inevitável exercício de reflexividade sobre a natureza e os modos de conhecimento formulados por seu povo, levando-o a uma compreensão nada trivial da consagrada imagem conceitual “peixe-gente”, tão recorrente no contexto sociocosmológico do noroeste amazônico. Sua dissertação foi publicada sob o título Waimahsã – peixes e humanos (Edua, 2018).
Eu seu doutorado, a partir de 2015, João Paulo mergulhou na sistematização de uma teoria geral rionegrina sobre o corpo, desenvolvendo uma reflexão sobre as noções de vida e de pessoa. Defendida em 2021 e publicada sob o título O mundo em mim – uma teoria indígena e os cuidados sobre o corpo no Alto Rio Negro (Editora Mil Folhas, 2022), sua tese recebeu o Prêmio CAPES de Tese na área de Antropologia e Arqueologia.
Também é ilustrativo o percurso de Dagoberto Lima Azevedo (povo Tukano). Ele produziu uma dissertação em formato bilingue (português e tukano), explorando o espaço terra-floresta (dita-nuhku). Por meio da investigação cuidadosa do bahsese (os “benzimentos”), foi possível vislumbrar uma lógica de classificação dos diferentes ambientes da terra-floresta, dos seres que neles vivem e circulam e das relações que estabelecem entre si, incluindo os waimahsã, seus donos.
Intitulada “[Agenciamento do mundo pelos kumuã ye’pamahsã: o conjunto dos Bahsese na organização do espaço Di’ta Nuhku]”(https://saudeindigena.fiocruz.br/items/1e9d3b47-a732-41e2-b425-3bd67c2afa30), sua dissertação foi publicada na Coleção Reflexividades Indígenas (EDUA) em 2018. Já no doutorado, Dagoberto decidiu escrever sua tese inteira em língua tukano (intitulada Pátu: Ye´pamasa ná oãʉ´pʉri), para que fosse lida pelos indígenas letrados do Alto Rio Negro, a quem queria apresentar as formas de produção acadêmica, debater e aprofundar os conhecimentos sobre o ipadu (Erytroxylum coca), preparação tradicional à base de folhas de coca amazônica.
Outro itinerário singular é o de Justino Sarmento Rezende (povo Tuyuka). Descendente de uma linhagem de mestres de cerimônia (bayaroa) do seu povo, ele entrou no doutorado em 2017 para estudar os modos conceituais e práticos das cerimônias entre seu povo no contexto sociocosmológico do Rio Negro. Vinha de uma longa trajetória de militância política no movimento indígena e com reconhecida bagagem intelectual. Sua tese resultou num trabalho de fôlego, escrito em três línguas – português, tukano e tuyuka – com uma estrutura pouco comum. Sua descrição seguiu um roteiro operístico, em cenas e atos. Publicada sob o título A festa das frutas – uma abordagem antropológica das cerimônias rituais entre os Utãpinopona (Tuyuka) do Alto Rio Negro (Mil Folhas, 2022), esta tese foi selecionada entre as 15 melhores no concurso da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS) em 2022.
O estudo do caapi (kahpi), bebida ritual preparada a partir do cipó Banisteriopsis caapi, de seu sentido, preparação e lugar na cosmologia do povo Desano, foi o projeto que trouxe Jaime Moura Fernandes – Diakara ao nosso mestrado. Sua dissertação foi baseada na elaboração de imagens-texto, que revelam uma complexa formulação sobre a cosmologia desana associada ao tema de sua pesquisa. O trabalho foi publicado sob o título GAAPI – Uma viagem por este e outros mundos (Valer, 2021). No doutorado, concluído em 2025, Jaime explorou o conceito de pamũse — até então traduzido como “fermentação” —, categoria nativa que expressa a transformação das coisas e dos espaços pelo poder da saliva e da voz das mulheres. Escrita em língua tukano, a tese foi submetida a uma banca formada por quatro doutores do Alto Rio Negro, egressos do PPGAS/UFAM: João Rivelino Rezende (povo Tukano), Rosilene Pereira (povo Piratapuia), Justino Sarmento (Tuyuka) e Silvio Sanches (povo Bará). Foi a primeira defesa de doutorado no Brasil integralmente indígena — escrita, falada e avaliada por indígenas.
A presença de Edgar Peas Garcia (povo Achuar, do Peru) ao doutorado, em 2026, ampliou o alcance do PPGAS/UFAM para além das fronteiras brasileiras. Quando ingressou no mestrado, em 2023, ele introduziu uma pequena, mas significativa novidade metodológica quando voltou à sua comunidade para participar do rito cotidiano da toma da wayús, bebida emética ligada às práticas tradicionais de ensinamento e sociabilidade. Nesses encontros, as pessoas da comunidade passaram a integrar a pesquisa não como informantes ou interlocutoras, mas como agentes de formação e orientadoras de sua produção antropológica. Sua dissertação, Wayús achuara pujutri: la toma de Wayús como modo de vida entre los Achuar del río Pastaza, en la Amazonía norte del Perú, é o primeiro trabalho acadêmico de mestrado de um indígena Achuar.
Nosso desejo (ou estratégia) é que esses experimentos possam alcançar outros povos e outras formas indígenas de produzir conhecimento, abrindo novas questões e possibilidades para a própria Antropologia.
*Professor titular de Antropologia e coordenador do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (NEAI), Universidade Federal do Amazonas (UFAM).




