Quem é Fernando Cerimedo, preso em investigação sobre ataque a tiros à ex-companheira

Aliado de Eduardo Bolsonaro e Javier Milei, argentino esteve no centro da desinformação sobre as urnas no Brasil

Por Aline Melo | Edição: Bruno Fonseca, em Agência Pública

Fernando Cerimedo foi detido por agentes da Força Especial de Combate ao Crime (FELCC) na madrugada desta terça-feira (18 de agosto), no aeroporto de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. A prisão ocorreu dentro das investigações sobre um ataque armado contra sua ex-companheira, a advogada e analista política boliviana Nadia Beller. Ela foi atingida por três disparos em frente a um hotel próximo ao Canal Isuto por dois homens disfarçados de entregadores na segunda-feira à noite. A detenção de Cerimedo aconteceu poucas horas depois do atentado, quando ele estava no aeroporto para viajar à Argentina. A mulher segue internada.

Ao veículo La Nacion, o comandante de polícia de Santa Cruz informou que Cerimedo foi detido para investigar se houve participação no ataque.

A reportagem não conseguiu contato com Cerimedo. O espaço para manifestação da defesa segue aberto.

Consultor político e estrategista digital argentino, Cerimedo ganhou projeção nos últimos anos como um dos nomes ligados à comunicação da extrema-direita latino-americana. Ele é fundador da agência Numen e está à frente do portal La Derecha Diario, além de manter outros negócios voltados ao marketing político e à produção de conteúdo digital. Sua trajetória política, porém, não começou na direita: antes de se aproximar do bolsonarismo e do movimento de Javier Milei, atuou na organização da militância digital do peronismo em La Matanza, ajudando a estruturar estratégias para redes sociais, segmentação de usuários e posicionamento de conteúdos.

A mudança de campo político levou Cerimedo a trabalhar para nomes como Patricia Bullrich (senadora argentina), Jair Bolsonaro e Javier Milei. Sua especialidade passou a ser a operação política no ambiente digital, combinando comunicação, mobilização de públicos e estratégias para ampliar o alcance de determinadas narrativas, sendo uma figura de destaque na circulação de conteúdos da extrema-direita latino-americana, inclusive de alegações classificadas como falsas ou desinformativas.

A aproximação com Eduardo Bolsonaro

A relação de Cerimedo com Eduardo Bolsonaro ganhou força durante a campanha presidencial brasileira de 2022. Em outubro daquele ano, às vésperas do segundo turno, o argentino recebeu Eduardo em Buenos Aires e, segundo o próprio La Derecha Diario, organizou, junto com sua esposa, Natalia Basil, encontros do deputado com lideranças da extrema direita argentina. A agenda incluiu reuniões com Javier Milei e Victoria Villarruel e foi apresentada como uma iniciativa para aproximar grupos da direita na região e fortalecer a campanha de Jair Bolsonaro.

Embora a viagem de Eduardo tenha sido comunicada oficialmente como uma “missão parlamentar”, a agenda registrada na Argentina teve forte conteúdo eleitoral. O deputado gravou vídeos para a campanha do pai e produziu conteúdos que associavam uma eventual vitória de Lula a uma crise econômica semelhante à enfrentada pela Argentina. A programação foi organizada pela equipe de Cerimedo e o próprio La Derecha Diario afirmou que o consultor havia “patrocinado” a viagem, embora ele posteriormente tenha negado ter feito pagamentos.

A conexão não se limitava à relação pessoal. Giovanni Larosa, funcionário ligado ao Cerimedo e correspondente do La Derecha Diario no Brasil, recebeu R$ 3,9 mil da campanha de reeleição de Eduardo Bolsonaro para atuar na divulgação de propaganda e no apoio à campanha. Larosa também acompanhou Eduardo na viagem à Argentina, evidenciando a sobreposição entre a estrutura de comunicação do consultor argentino e o entorno político do deputado.

Ataques ao sistema eleitoral brasileiro

Poucas semanas depois da viagem, Cerimedo passou a desempenhar um papel central na disseminação de alegações falsas sobre as eleições brasileiras. Em 4 de novembro de 2022, transmitiu pelo La Derecha Diario a live “Brazil Was Stolen”, vista por mais de 400 mil pessoas, na qual apresentou uma suposta diferença de comportamento entre urnas eletrônicas. A tese foi refutada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que afirmou que todos os equipamentos utilizados nas eleições haviam passado por auditoria e fiscalização.

Mesmo diante da relação documentada com Eduardo Bolsonaro, Cerimedo procurou apresentar sua atuação como independente do bolsonarismo. Em entrevista à Pública, afirmou que “nem os militares nem ninguém do partido” havia entrado em contato com ele antes da transmissão e que sequer conseguia falar com Eduardo. Também disse que os dados apresentados na live haviam chegado a ele por “entidades privadas” e que o conteúdo não tinha relação com a campanha de Bolsonaro. As declarações, porém, contrastam com a proximidade registrada entre o consultor e o grupo político: semanas antes, os dois haviam estado juntos em uma agenda organizada pela estrutura de Cerimedo, enquanto um de seus funcionários trabalhava para a campanha de Eduardo.

Em uma transmissão recente com Eduardo Bolsonaro, realizada dia 23 de julho no canal do YouTube do político, Cerimedo retomou alegações já utilizadas em 2022, como uma suposta concentração de votos após as 17h e diferenças entre urnas novas e antigas. Ao ser questionado por Eduardo sobre a quantidade de equipamentos que precisariam ser adulterados para alterar uma eleição, respondeu que era necessário “de 5% ou 10% das máquinas para trocar o resultado, nada mais”. A afirmação foi apresentada como prova de fraude, apesar de as alegações anteriores sobre as urnas já terem sido desmentidas pelo TSE.

A trajetória de Cerimedo com Eduardo Bolsonaro também funcionou como ponte para a extrema-direita argentina: depois da aproximação com o ex-deputado brasileiro, Cerimedo se tornou chefe de comunicação da campanha de Javier Milei e assumiu funções relacionadas ao controle do partido e ao acompanhamento dos votos, tanto no processo eleitoral quanto no ambiente digital. O argentino também já chegou a publicar uma fotografia ao lado de pessoas ligadas ao governo Trump, entre elas Carlos Díaz-Rosillo, apresentado como assessor do secretário de Defesa dos Estados Unidos para assuntos de segurança internacional. Questionado sobre uma possível atuação para Trump nas eleições seguintes, Cerimedo respondeu: “Não posso compartilhar essa informação”.

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