Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano
Por Ethel Rudnitzki, Aline Melo | Edição: Natalia Viana, Alexandre Orrico, em Agência Pública

Com novas páginas e perfis, alvos de inquéritos abertos no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) têm publicado conteúdos virais sobre o pleito deste ano. A Agência Pública identificou dez influenciadores digitais investigados por desinformação ou tentativa de golpe de Estado em eleições passadas que seguem ativos na campanha de 2026. Todos eles já tiveram suas páginas batidas por ordens da Justiça, embora não seja possível saber se as decisões seguem válidas, pois os processos estão em sigilo.
Ao menos quatro deles estão foragidos e publicam conteúdos desinformativos desde o exterior.
Um deles é Leonardo Rodrigues de Jesus, primo do candidato à presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, e também de Eduardo e Carlos Bolsonaro. Conhecido como “Leo Índio”, ele é alvo do inquérito que investiga a tentativa de golpe de estado em 2026 e teve a prisão decretada em 2025, após ser flagrado na fronteira com a Argentina. O influenciador também já foi acusado de se beneficiar de esquema de rachadinhas no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro (PL) em 2019. Reportagens na época apontaram que o chefe de gabinete do parlamentar teria pago pelo aluguel de Léo Indio.
Diretamente de Puerto Iguazú, no lado argentino da tríplice fronteira, Leo administra um perfil no Instagram que compartilha vídeos gerados por inteligência artificial sobre política brasileira, como uma deepfake em que Lula recebe um saco de dinheiro de seu filho, publicada em 9 de agosto. Em outra ocasião, publicou um vídeo com deepfakes que mostra Renan Santos e outros militantes do Movimento Brasil Livre seminus em uma sauna.
Os conteúdos são republicados por uma rede de ao menos 31 páginas dedicada à produção de conteúdos sintéticos, que foi denunciada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) no TSE por ataques contra o presidente Lula (PT). Segundo a ação, a rede soma mais de 1,4 milhão de seguidores e 23 mil publicações, com milhares de visualizações no Instagram. A Federação Brasil da Esperança entrou com pedido de remoção das contas e aplicação de multas por propaganda antecipada e uso indevido de inteligência artificial. A ação ainda está em fase inicial e foi delegada ao ministro Kassio Nunes Marques.
Denunciado por associação criminosa no âmbito do inquérito que investiga a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, o blogueiro Oswaldo Eustáquio também fez parceria com páginas de conteúdos políticos gerados por inteligência artificial enquanto esteve foragido na Espanha, que negou sua extradição em dezembro de 2025.
Através do Instagram, tem publicado conteúdos em conjunto com a página “Dona Maria”, influenciadora gerada por inteligência artificial que publica vídeos com ataques ao governo federal e em defesa de Jair Bolsonaro (PL). Entre eles, um vídeo em que diz que o criador do PIX foi o ex-presidente. Na verdade, a ferramenta foi idealizada e implementada pelo Banco Central.
Em abril, o perfil foi alvo de ação no TSE por campanha antecipada.
Procurado pela reportagem, Oswaldo respondeu: “O PIX foi uma iniciativa do banco central na gestão do Governo Bolsonaro. Essa é uma Verdade incontestável. O perfil da Dona Maria tem rótulo de IA e atacar o perfil é querer brigar com a tecnologia.”
Outro foragido que segue desinformando sobre as eleições brasileiras é o blogueiro Allan dos Santos, que reside nos Estados Unidos e tem um mandado de prisão preventiva decretado pelo STF desde outubro de 2021. Considerado foragido pela Justiça brasileira, teve o bloqueio de suas contas bancárias e perfis digitais no Brasil. São diversas as investigações em torno dele, entre elas o inquérito das fake news e das milícias digitais por disseminação de conteúdo falso e ataques a autoridades, e monetização ilícita a partir do uso de doações e monetização de conteúdos digitais para financiar organização criminosa e auferir vantagens econômicas de maneira ilegal.
Ainda assim, o influenciador conseguiu abrir novas páginas e canais nas redes sociais, onde continua disseminando conteúdos desinformativos sobre o processo democrático. Entre as publicações recentes, estão alegações sobre uma suposta interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro, incluindo menções a uma possível ação militar contra instituições do país. “Va logo, Trump. Pegue o Lula!”, escreveu em 13 de julho. A publicação acompanha uma montagem que mostra o presidente brasileiro vendado e vestindo um moletom cinza, em referência à foto da prisão de Nicolás Maduro.
No ano passado ele se juntou com o também foragido Alexandre Ramagem – ex-chefe da Abin durante o governo Bolsonaro e condenado a 16 anos, pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito – com quem faz lives diárias no canal de extrema-direita TimeLine, que pertence a dos Santos.
Em mais de uma ocasião, os investigados chegaram a disseminar desinformação sobre o processo eleitoral, entre elas falsas associações entre as eleições brasileiras com a empresa Smartmatic, acusada de fraude na Venezuela. No dia 16 de junho, Allan fez um tuíte em que diz que as urnas eletrônicas seriam “inauditáveis”, o que é falso. Os equipamentos passam por uma série de etapas de auditoria antes e depois do pleito. O influenciador também compartilhou em 10 de junho vídeo em antigo de Jair Bolsonaro dizendo que Lula só vence eleições devido à urna eletrônica, insinuando que haveria fraude.
Para Yasmin Curzi, professora e pesquisadora de direito digital na FGV Rio, o fato dos influenciadores estarem fora do Brasil pode limitar o alcance da Justiça brasileira sobre os conteúdos que eles publicam nas redes. “A efetividade das decisões depende de cooperação internacional”, explica.
Conteúdos persistem também em território nacional
Mesmo em território nacional, outros influenciadores que já foram alvos de decisões do STF e TSE por desinformar contra o Estado Democrático e o processo eleitoral seguem ativos na campanha de 2026.
Além de manter perfis nas redes sociais, o youtuber Fernando Lisboa da Conceição, conhecido pelo canal Vlog do Lisboa, foi oficializado como candidato a deputado estadual pelo PL de São Paulo. Em seus canais oficiais registrados junto ao TSE, ele publica vídeos em que insinua a invasão do Brasil e a prisão do presidente Lula pelo governo dos Estados Unidos.
Lisboa também foi candidato em 2022, quando concorreu ao cargo de deputado federal pelo PL de São Paulo. Na época, reportagem da Agência Pública mostrou que o influenciador recebeu R$ 200 mil em verbas públicas de campanha do partido, que foram gastos para impulsionar anúncios e administrar suas redes sociais, onde publicava conteúdos desinformativos.
Este ano, ele tem repercutido declarações de políticos e autoridades dos EUA sobre o Brasil e sobre eleições, entre elas, questionando a segurança de urnas eletrônicas. No final do ano passado, chegou a defender a proibição dos equipamentos nas eleições americanas. Em julho, divulgou resultado de pesquisa realizada por aliado de Trump sobre eleições brasileiras para insinuar que o país estaria “na mira” dos Estados Unidos. O levantamento não foi registrado junto ao Tribunal Superior Eleitoral.
Investigada por produzir fake news e por financiar atos antidemocráticos, Bárbara Zambaldi Destefani mantém ativo o canal “Te Atualizei” no X, Instagram e YouTube, além de um aplicativo próprio, criado após ter perfis bloqueados por decisão do STF.
Nesses canais, publica frequentemente ataques a decisões do STF, defende a possibilidade de impeachment de ministros do Supremo, além de apoiar intervenções dos Estados Unidos no Brasil. Em vídeo publicado em março deste ano, ela exibiu uma imagem gerada por inteligência artificial que mostra Alexandre de Moraes em uma cela de cadeia, sendo observado por Donald Trump e Elon Musk.
As publicações também recorrem a estratégias de compartilhamento de conteúdos de forma “privada”, como o convite: “Comente ‘FAMÍLIA’ para receber acesso aos vídeos secretos da Família Te Atualizei”.
Enzo Leonardo Suzi Momenti, conhecido como Enzuh em seu canal no YouTube, também foi alvo da CPMI das Fake News e do Inquérito das Fake News, no qual foi alvo de operação de busca e apreensão e teve redes sociais bloqueadas.
Mesmo assim, hoje seu canal mantém alta frequência de conteúdos que estimulam teorias conspiratórias sobre o 8 de Janeiro, levantam suspeitas sobre a segurança das urnas eletrônicas e promovem ataques frequentes ao STF, especialmente ao ministro Alexandre de Moraes. Também repercute declarações de Donald Trump sobre o Brasil e menciona a possibilidade de impeachment de ministros do Supremo, recorrendo frequentemente a manchetes de tom sensacionalista. São publicados cerca de três ou mais conteúdos por dia.
Em 15 de agosto, publicou vídeo dizendo que as urnas teriam apresentado erros durante testes de auditoria, o que é falso. Não foram encontradas falhas nas etapas de auditoria dos equipamentos até o momento.
Enzo respondeu à reportagem afirmando que “todas as redes foram desbloqueadas e meu nome limpo”. Ele disse que é investigado há 7 anos e “ainda não me disseram porque”. Sobre o vídeo afirmou ser clickbait e autoexplicativo. “Inclusive incentivo sim a irem votar…” explicou. “Não promovo nenhuma conspiração”.
Também seguem ativos e publicando sobre política nacional, os perfis Brasileirinhos, associado a Eduardo Fabris Portella, e do Dr. Marcelo Frazão, ambos investigados pelo STF no inquérito 4874, sobre a organização de atos antidemocráticos em 2021. Já o perfil “RoboConservador” de Rafael Moreno, investigado no inquérito das fake news, tem sido usado para impulsionar a campanha de Bárbara Kogos (NOVO-SP) para deputada federal.
Para Curzi, a persistência de perfis e páginas associados a pessoas já investigadas por desinformação se explica pela escalabilidade dos conteúdos. “A suspensão de conteúdos e contas funciona como ferramenta de contenção pontual, mas não há uma solução estrutural para o problema da desinformação. O volume de conteúdo enganoso segue crescendo, agora amplificado por IA generativa”, avalia.
Ela também explica que o cumprimento de determinações judiciais por plataformas pode ser falho. Segundo a pesquisadora, muitas vezes, as empresas “tiram um ou outro perfil do ar, mas mantém outros sem a transparência adequada”, diz.
Desde a decisão do STF que revisou o artigo 19 do Marco Civil, em junho do ano passado, no entanto, as plataformas não precisam de decisão judicial para remover do ar conteúdos antidemocráticos do ar e “incorrem em culpa por omissão caso não adotem as medidas necessárias para evitar o espraiamento desse tipo de conteúdo”.
A reportagem questionou a Meta, empresa responsável pelo Instagram e Facebook, e o Google, responsável pelo YouTube, sobre as medidas de combate à desinformação eleitoral e iniciativas de colaboração com o TSE. Em resposta, a plataforma de vídeos do Google afirmou que “atua em estrita conformidade com a legislação local e cumpre as ordens judiciais válidas emitidas pelos tribunais competentes, incluindo o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE)”, mas que “não comenta publicamente casos específicos sob apuração”.
Já a Meta se limitou a encaminhar um link com informações sobre a abordagem da plataforma para essas eleições em que informa ter firmado parceria com autoridades e “intensificando ações contra o uso indevido de imagens de candidatos e figuras públicas”.
Os perfis citados foram procurados pela nossa reportagem. O espaço segue aberto para manifestações.




