A captura algorítmica da educação. Eduardo S. Vasconcelos

Restituir à pedagogia o comando sobre a técnica é o gesto político que devolve à educação sua finalidade última: formar sujeitos que não apenas navegam na corrente algorítmica, mas ousam desviar seu curso em direção ao bem comum

Em A Terra é Redonda

1.

A promessa de que a transição digital inauguraria um ciclo de democratização e eficiência na educação pública revelou, em curto prazo, a sua face oposta: a submissão do ecossistema educacional a uma lógica estritamente extrativista e corporativa. Sob o signo do avanço pedagógico e da modernização inevitável, assistimos à transferência gradual do coração da escola pública e da universidade para as infraestruturas proprietárias do oligopólio das Big Techs.

A conectividade, em vez de expandir a autonomia intelectual, tornou-se o vetor primário de uma dependência estrutural que confunde inovação com concessão de soberania.

Esse movimento ultrapassa a mera escolha de ferramentas operacionais. Ao adotar plataformas privadas para gerir desde a comunicação administrativa até a dinamização do ensino, o Estado brasileiro converteu a comunidade escolar – professores, gestores e estudantes – em produtora compulsória de dados comportamentais.

O ambiente educacional, historicamente constituído como espaço de formação cívica, reflexão crítica e livre circulação do conhecimento, é reconfigurado sob os parâmetros da civilização algorítmica: um modelo em que a mediação da linguagem, da pesquisa e do aprendizado é subordinada a arquiteturas invisíveis de engajamento, otimização e controle.

A naturalização dessa dependência assenta-se em uma premissa determinista: a de que a tecnologia possui uma neutralidade intrínseca e de que o único papel das instituições de ensino seria o adestramento funcional de seus quadros para operar tais sistemas. Ignora-se, contudo, que as plataformas e os modelos de inteligência artificial generativa corporativos trazem embutidos projetos específicos de poder e escolhas econômico-políticas que priorizam o consumo passivo em detrimento da dúvida metódica e do pensamento autônomo.

Nesse cenário, a resposta pública não pode se limitar à celebração acrítica da “inclusão digital” ou à entrega irrestrita do fazer pedagógico a algoritmos proprietários. O enfrentamento da barbárie digital exige deslocar o debate da mera eficiência instrumental para o terreno da tecnopolítica. A verdadeira emancipação na era digital demanda a construção de uma soberania tecnológica – pautada pelo letramento digital crítico, pela proteção dos dados como bem comum e pela defesa da escola pública enquanto espaço irrenunciável de resistência e formação emancipatória.

2.

A penetração das plataformas digitais e dos sistemas de inteligência artificial generativa no cotidiano educacional atua diretamente sobre duas dimensões constitutivas do ato pedagógico: a natureza do trabalho docente e as dinâmicas de estruturação do pensamento discente. Longe de representarem meros suportes auxiliares, essas tecnologias reconfiguram a práxis educacional ao impor uma racionalidade pragmática que tende a desqualificar a mediação humana e a empobrecer a experiência cognitiva.

No âmbito do trabalho docente, a plataformização introduz uma forma sutil, porém profunda, de precarização funcional. Sob o pretexto da eficiência administrativa e do alinhamento a métricas de desempenho, a autonomia do professor é progressivamente cerceada por painéis de gestão, algoritmos de recomendação curricular e tutores virtuais.

O fazer pedagógico – historicamente pautado pela sensibilidade relacional, pelo diagnóstico situacional da turma e pela liberdade de cátedra – é reduzido a uma execução protocolar de conteúdos pré-formatados. Processa-se uma divisão do trabalho intelectual em que a formulação e o planejamento são delegados às arquiteturas de software, restando ao docente o papel de operador de sistemas ou fiscal de cumprimento de metas quantitativas.

Simultaneamente, a subjetividade e a cognição dos estudantes sofrem os impactos da exposição contínua a ambientes desenhados para a otimização da atenção e a resposta imediata. A mediação pedagógica, que exige o tempo da síntese, o exercício da dúvida metódica e a tolerância à complexidade, entra em entrechoque direto com a lógica dos feeds e dos modelos de linguagem que entregam sínteses prontas e respostas descontextualizadas.

O uso passivo da inteligência artificial generativa no ambiente de aprendizagem ameaça subtrair do estudante o esforço constitutivo da escrita, da argumentação e da investigação histórica. Transforma-se o processo de construção do conhecimento – que é inerentemente social e dialético – em mero consumo de resultados algorítmicos.

Ademais, a aparente neutralidade dessas ferramentas oculta escolhas epistêmicas e ideológicas profundamente centralizadas. Os algoritmos de busca e os modelos de inteligência artificial não apenas filtram a informação, mas hierarquizam visões de mundo a partir de bases de dados estruturadas sob a hegemonia do Norte global e de interesses de mercado.

Ao acatar criticamente as saídas produzidas por tais sistemas, a comunidade escolar arrisca naturalizar vieses e apagar o contraditório, enfraquecendo a capacidade da educação pública de formar sujeitos autônomos, capazes de questionar as assimetrias do tempo presente.

3.

A resposta hegemônica das políticas públicas frente à digitalização do ensino costuma se restringir à noção simplista de “inclusão digital”. Sob essa ótica, incluir resume-se à expansão do acesso a dispositivos, à garantia de conectividade e ao treinamento instrumental de alunos e professores para o manuseio de Softwares e plataformas corporativas.

Essa abordagem opera um reducionismo nocivo: confunde a capacitação operacional para o consumo de tecnologias proprietárias com a formação de sujeitos conscientes de sua inserção no ecossistema digital. O resultado não é a emancipação, mas um adestramento técnico que naturaliza as assimetrias da rede.

Superar esse modelo exige deslocar o eixo da formulação pedagógica para o letramento digital crítico. Não se trata de rejeitar a tecnologia ou de defender uma postura luddita no ambiente escolar, mas de qualificar a relação com os meios digitais a partir de uma perspectiva tecnopolítica. O letramento crítico pressupõe capacitar os estudantes e educadores para desmontar a pretensa caixa-preta dos algoritmos, compreendendo as dinâmicas da economia política da informação, os mecanismos de extração e mercantilização de dados (surveillance capitalism) e os vieses epistêmicos e ideológicos que orientam as arquiteturas de código.

Essa virada conceitual é crucial no combate à desinformação sistêmica. A proliferação de discursos de ódio e fake news na esfera pública não deve ser interpretada como mero desvio comportamental ou escassez de checagem individual de fatos. Trata-se de um modelo de negócios altamente rentável, estruturado em arquiteturas de plataformas desenhadas para maximizar o engajamento afetivo e a polarização.

Quando a escola limita sua atuação ao ensino de dicas superficiais de verificação de fontes, ela deixa intocada a engrenagem que produz a desinformação. O letramento digital crítico, ao contrário, instrumentaliza o estudante para compreender como a circulação da informação é mediada pelo lucro das Big Techs e por projetos geopolíticos de desestabilização democrática.

Assim, a sala de aula da escola e da universidade públicas firma-se como o espaço privilegiado de resistência e desnaturalização da ordem algorítmica. É nesse ambiente dialógico que a tecnologia deixa de ser encarada como um dado inexorável da realidade para voltar a ser compreendida como construção humana, histórica e contingente – passível, portanto, de crítica, regulação e reconfiguração a serviço da soberania popular.

4.

Reverter o quadro de dependência estrutural em relação aos oligopólios tecnológicos exige superar a mera denúncia e articular alternativas concretas na gestão da infraestrutura pública de ensino. Se a tecnologia não é neutra, a escolha das ferramentas pedagógicas é, eminentemente, uma decisão política. A construção da soberania digital no ambiente educacional passa, necessariamente, pelo fomento e pela adoção prioritária de tecnologias abertas, softwares livres e servidores institucionais sob controle público, livres da lógica de extração de dados e do controle algorítmico proprietário.

Essa transição requer uma atuação firme do Estado na formulação de marcos regulatórios e políticas públicas de proteção de dados no ambiente escolar. É urgente estabelecer diretrizes que proíbam expressamente a exploração comercial, o perfilamento e o rastreamento comportamental de estudantes e docentes no âmbito das instituições públicas. A privacidade e a propriedade dos dados gerados no fazer acadêmico devem ser tratadas como bens inalienáveis da comunidade e da nação, e não como contrapartida gratuita pelo uso de serviços corporativos em nuvem.

No plano curricular e metodológico, a busca por soberania implica reconceituar o papel da tecnologia na formação cívica. Trata-se de reorientar a pesquisa, a extensa e o ensino para o desenvolvimento de soluções tecnológicas alinhadas às demandas locais e ao interesse social.

A universidade e a escola públicas precisam deixar de ser meras consumidoras de pacotes tecnológicos importados para se afirmarem como polos produtores de conhecimento emancipatório, onde a programação, a robótica e a ciência de dados sejam ensinadas sob a perspectiva da ética pública, do bem comum e da justiça social.

A soberania digital, portanto, não significa o isolamento ufanista, mas a garantia da autonomia decisória das instituições de ensino frente aos imperativos de mercado. Somente ao reaver o controle sobre suas infraestruturas e seus projetos pedagógicos será possível assegurar que a inovação tecnológica sirva ao fortalecimento da democracia, e não à perpetuação de novas formas de colonização cultural e cognitiva.

A disputa pelas infraestruturas e pelas metodologias digitais na educação pública não se reduz a uma controvérsia técnica ou à escolha de insumos de gestão. Trata-se, no limite, da definição do projeto de sociedade que se deseja construir.

A rendição passiva da escola e da universidade à racionalidade corporativa das Big Techs compromete não apenas a autonomia do fazer pedagógico, mas a própria sustentabilidade das instituições democráticas, na medida em que aliena a capacidade de formação de sujeitos autônomos e reflexivos.

Diante do avanço da civilização algorítmica, o espaço escolar reafirma-se como uma das últimas trincheiras para a preservação do pensamento crítico e da esfera pública compartilhada. Cabe às lideranças educacionais, aos docentes e aos formuladores de políticas públicas recusar o determinismo tecnológico que naturaliza a mercadorização do conhecimento e a precarização do trabalho intelectual. A inovação tecnológica deve estar subordinada ao projeto pedagógico e aos valores republicanos, e não o contrário.

Resgatar a soberania digital e implementar um letramento digital verdadeiramente crítico são tarefas urgentes e indissociáveis da defesa da educação pública, gratuita e de qualidade. Somente ao reassumir o controle sobre suas ferramentas, seus dados e suas narrativas, a instituição escolar poderá cumprir sua vocação emancipatória: a de formar cidadãos capazes não apenas de operar nos meandros da sociedade digital, mas de questioná-la, transformá-la e subordiná-la ao bem comum.

*Eduardo S. Vasconcelos, professor e diretor geral do Instituto Federal Goiano (IF Goiano), é doutor em ciências pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

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