Escrevo estas linhas de volta do XXXV Congresso da Associação Latino-Americana de Sociologia (ALAS), no Rio de Janeiro, com o tema “Entre a policrise e as alternativas: horizontes da sociologia crítica latino-americana”. E pelo menos, para mim, foi impossível separar o que penso sobre a universidade nesse momento em que se desenham no Brasil uma articulação de intervenção externa conduzida pelos EUA de Donald Trump. E em um contexto de neoliberalismo autoritário em que a instituição universitária volta a figurar, como em outras horas sombrias da nossa história, entre os primeiros alvos de quem teme o pensamento e o questionamento crítico. É com esse pano de fundo e pensando no que vivi nesse Congresso, inclusive diante da situação infraestrutural do Campus Praia Vermelha – UFRJ, que reli o debate recente sobre o pluralismo acadêmico, e porque, pelo menos para mim ele ganha um sentido distinto da intencionalidade e bastidores das disputas acadêmicas que possam o ter motivado.
Em abril de 2026, um grupo interdisciplinar de docentes e pesquisadores(as) reuniu-se no Centro Universitário Maria Antônia, da Universidade de São Paulo, para redigir o Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica, subscrito por mais de mil e quinhentas assinaturas, oriundas de vinte e seis estados e do Distrito Federal, e vinculadas a quase duzentas instituições de ensino superior [1]. O documento parte do que entendi como hipótese, não como diagnóstico, de que as universidades públicas viveriam hoje um ambiente de conformidade ideológica, de autocensura e de intolerância ao dissenso e propõe, como caminho de reconstrução, por um viés liberal, a partir de três pilares: neutralidade institucional, liberdade acadêmica e o pluralismo.
O manifesto não permaneceu sozinho por muito tempo, e provocou respostas de matizes diversas, por exemplo, dentre as quais, mais me chamaram a atenção, com meus limites, foi o texto de Roberto Leher “A desqualificação das universidades públicas” e entende que “a análise do texto não apenas retira do foco os citados problemas que afetam e ameaçam as universidades, como evidencia uma agenda que ganha magnitude a partir de think tanks vinculados à extrema direita estadunidense [2]. E depois veio a resposta de um contra-manifesto intitulado “Em defesa do pluralismo encarnado”, que mobiliza Wendy Brown, Melinda Cooper, Ernesto Laclau e a genealogia nietzschiana do ressentimento para argumentar que o pluralismo defendido na Maria Antônia, resumindo aqui, seria um pluralismo desencarnado, desligado da história e da sociedade, que não pluraliza o poder e apenas multiplica o ressentimento. E em alternativa a isso, propõe em seu lugar um pluralismo encarnado na história, na sociedade e na ética da igualdade democrática [3].
Quem acompanhou o debate sobre o pluralismo tende a reconhecer de imediato a estrutura da cena, uma vez que ela tende a reproduzir, quase ponto por ponto, a geometria, não o teor, das grandes controvérsias universitárias das últimas décadas, com um manifesto que se apresenta como portador da defesa da pluralidade e um contra-manifesto que reinscreve a disputa na longa história das lutas por igualdade. A meu ver, cada uma das duas posições trouxe um debate acadêmico que repercutiu como há muito não se observava no espaço acadêmico e que inclusive gerou debates e muitos textos que se somaram à controvérsia, como esse aqui que escrevo (mesmo quando o debate aparentemente possa ter aferrecido).
No entanto, quem sabe não possa também ser instigante ao debate, no caminho do texto de Leher, propor além da pergunta que os dois lados consideram decisiva e sobre quem tem razão, para formular outra pergunta anterior, que a intensidade da disputa talvez esteja a encobrindo. Por que a universidade brasileira, que produz tanto conhecimento, em que seus pares publicam tantos artigos, que participam de tantos congressos internacionais e que avaliam de forma tão intensa a sua própria produtividade em revistas, Comitês etc, precisa hoje justificar a sua existência diante da sociedade que a sustenta? Cabe lembrar, que a própria democracia, e com ela a instituição universitária, estão sob ataque aberto da extrema direita na América Latina e no Brasil. E é nisso que talvez resida uma problemática social e sociológica, pois é no mínimo curioso que o debate que mobilizou nesse momento a comunidade acadêmica sobre a própria universidade e suas disputas internas por poder, que são legítimas, mas muitas vezes desenraizadas, dos riscos reais que passa a própria universidade e a própria sociedade que a mantém.
Cada geração herda uma universidade em crise
Quando estava pensando sobre a questão em si dos manifestos e da dinâmica interna do meio universitário-acadêmico na atualidade me veio em mente o arcabouço de Patricia Hill Collins que permite acrescentar outra dimensão a esse problema, que passa pela diversidade nas questões de gênero, raça e classe na universidade, pois sua formulação, inclusive da condição de outsider within, a meu ver é particularmente sugestiva para pensar sujeitos que participam de uma instituição, conhecem suas regras e linguagens, mas não ocupam integralmente as posições a partir das quais essas regras são definidas. Essa localização pode produzir limites, mas também perspectivas específicas sobre relações que, para grupos estabelecidos, tendem a aparecer como naturais ou simplesmente como critérios técnicos de excelência. Collins, produzindo a crítica permite perguntar como essas posições interferem também nas condições de produção e reconhecimento do próprio conhecimento.
Mas, dando um passo atrás, e ao contrário do caminho que eu próprio pretendia seguir inicialmente, talvez o exercício mais pertinente seja perguntar se, para enfrentar as questões evocadas pelos manifestos, precisamos necessariamente esperar pela incorporação de novos referenciais, sejam eles provenientes de um arcabouço eurocentrado, anglo-saxão ou de outras tradições. Parte dos problemas colocados nesse debate, especialmente pelo Manifesto pelo Pluralismo, pode começar a ser examinada com ferramentas analíticas há muito presentes na própria Sociologia e, em muitos casos, bastante conhecidas por quem participa dessa controvérsia. Há Os cânones na sociologia em algumas de suas obras clássicas, conhecidos por muitos(as) dos(as) que participam desse debate, já não ofereceriam ferramentas instigantes para que a universidade examine a si mesma? (ou evitáveis por serem incômodos?).
Talvez esteja aí uma das contradições mais interessantes desse debate. A universidade dispõe de um amplo repertório intelectual para analisar poder, hierarquias, desigualdades, formação de grupos, disputas por legitimidade, reprodução social, gerações e produção do conhecimento, mas nem sempre submete suas próprias relações a esse mesmo exercício de reflexividade. O problema não está somente naquilo que ainda falta incorporar, recuperar ou inventar, mas também na distância entre o conhecimento que a instituição produz e ensina cotidianamente e sua capacidade de utilizá-lo para compreender suas próprias práticas. Ou seja, além de uma questão epistemológica, há também uma dimensão ontológica entre pares, diria até praxiológica, a ser enfrentada, mesmo que elas sejam inter-relacionadas.
Assim, há uma percepção que acompanha as grandes transformações da vida acadêmica brasileira, e que pode passar despercebida devido a sua recorrência. Observo e estudo que cada geração universitária acredita ter herdado uma universidade com algum tipo de crise e acredita que caberá a ela, e não às gerações anteriores, e nem às seguintes, a tarefa histórica de reconstruí-la sobre bases que a seu ver seriam mais justas. As gerações precedentes teriam acumulado equívocos, acomodações e cegueiras, ao passo que a geração presente traria consigo um tipo de lucidez que faltava. O manifesto da Maria Antônia, com intelectuais e pesquisadores(as), inclusive muitos(as) com mais de três décadas de atuação universitária, expressam essa estrutura ao se apresentar como a voz de uma comunidade que nomeia um mal-estar silenciado. O contra-manifesto do pluralismo encarnado a expressa em sentido inverso, ao se apresentar como a memória histórica que devolve à discussão a profundidade que a outra posição não teria (o que particularmente concordo em partes).
Vamos a um exemplo básico. Karl Mannheim, no clássico “O problema sociológico das gerações” compreendeu que a experiência de uma geração não se define apenas pela contemporaneidade cronológica, e sim pela partilha de um mesmo horizonte histórico de problemas, pela vivência comum de acontecimentos que marcaram a entrada de cada grupo na vida pública e que passaram a organizar a sua maneira de interpretar o mundo. Uma geração formada sob a ditadura (1960-1980), outra formada na euforia da redemocratização (1988-2003), outra ainda formada na expansão do ensino superior e na chegada das políticas afirmativas (2003-2015) e mais outra que chega no período do golpe e do pós-golpe de 2016, onde cada uma delas carrega uma memória social distinta e, com ela, uma imagem sua daquilo que a universidade pode e deveria ser. A convicção de que se detém a razão sobre os rumos da universidade não se trata de uma ilusão individual ou de grupo e sim de uma condição histórica em que cada grupo tende a universalizar a própria experiência, e talvez possa haver uma confusão entre o que é específico da sua posição no tempo com aquilo que poderia ser válido em qualquer tempo.
Reconhecer isso talvez produza uma consequência que pode incomodar os dois lados da disputa nessa quadra da história no Brasil. Se toda geração tende a interpretar a universidade a partir da sua própria localização histórica, então o conflito entre diferentes gerações acadêmicas é constitutivo da dinâmica cotidiana da vida intelectual, de modo que a maturidade científica não se mede pela ausência de conflitos, sim como se encontram maneiras de reconhecer e lidar com os inúmeros conflitos ideológicos, epistemológicos e ontológicos entre diferentes perspectivas historicamente situadas. Ou seja, a chegada, a convivência e o conflito entre diferentes gerações, sem querer excluir diferentes grupos para não ter que lidar com as suas contribuições, limites, contradições e até legados, é o que constitui e potencializa um espaço de produção científica substantiva[1] e socialmente referenciada. E isso ambos os manifestos não se furtam em mencionar, pelo menos em seu conteúdo, mesmo que no cotidiano das universidades ocorram silenciamentos, invisibilizações e assédios, que não são práticas dissociadas do problema que ambas discutem.
A disputa pelos rumos da Universidade
Os conflitos universitários e acadêmicos geralmente são complexos e não ocorrem apenas porque existem ideias diferentes. E reduzi-los a divergências teóricas seria perder de vista aquilo que os torna tão intensos e tão pouco solúveis pela mera argumentação. Os conflitos ocorrem porque diferentes grupos disputam o direito de definir quais ideias passarão a representar e organizar o funcionamento da própria universidade e do campo acadêmico, bem como em legitimar quais concepções de ciência serão reconhecidas, além de quais trajetórias serão consagradas como exemplares e quais serão “discretamente” empurradas a margem do que cada geração e seus grupos de poder reconhecem como legítimo e passível de valorização. A disputa na universidade é, ao mesmo tempo, uma disputa de ideias e uma disputa por poder, e não discutir que apenas o primeiro plano existe costuma ser a maneira, digamos, mais “elegante” e “cordata” (quando é) de impor e consensuar o segundo.
Por exemplo, só para adensar mais essa vertente de discussão, na sociologia básica contemporânea, na obra prima “Estabelecidos e Outsiders” de Norbert Elias há ferramentas interpretativas para pensar essa dinâmica, ao mostrar que toda configuração social se organiza em relações de interdependência nas quais grupos estabelecidos e grupos recém-chegados disputam permanentemente posições, e que essas disputas mobilizam menos a força bruta do que uma economia sutil de prestígio, de pertencimento e de estigma. Os estabelecidos tendem a apresentar os seus critérios particulares de excelência como se fossem os critérios universais do bom trabalho intelectual, ao passo que os recém-chegados precisam, para conquistar espaço, ora demonstrar que dominam esses mesmos critérios, ora contestá-los em nome de outros que lhes sejam mais favoráveis. Quando essa configuração deixa de ser percebida como tal, a disputa por autoridade performa como disputa pela razão, e um grupo pode passar a acreditar que aquilo que apresenta como “padrão neutro” seja uma suposta qualidade diante de outro que evoca a memória mais fiel das lutas como sua qualidade.
A meu ver, que nesse ponto a sociologia de Pierre Bourdieu se torna incontornável, ainda que não pelas razões que tenho visto serem invocadas em seu nome. Bourdieu descreveu o mundo científico como um campo, isto é, como um espaço de forças e de lutas em que pesquisadores(as), grupos, Programas de Pós-graduação, Departamentos, Centros etc competem pelo monopólio da autoridade científica, entendida como a capacidade socialmente reconhecida de dizer o que conta como ciência legítima. Nesse espaço circulam formas distintas de capital, o científico, o cultural, o social, o econômico e, sobretudo o simbólico. E a acumulação desse capital não coincide necessariamente com a contribuição efetiva e substantiva de cada pesquisador(a) ao conhecimento científico, uma vez que o reconhecimento acadêmico depende de networking e de mecanismos de consagração repetidos cotidianamente, e não apenas da suposta qualidade intrínseca do conhecimento produzido, da qualidade intelectual de um debate e das pesquisas que são feitas e que tem uma repercussão substantiva na sociedade.
A reflexividade que corta dos dois lados
Entendo que uma sociologia do conhecimento que não se converte também em uma sociologia do(a) próprio(a) pesquisador(a) permanece incompleta, e pior do que incompleta, porque se transforma em um instrumento de dominação, capaz de denunciar a posição do adversário no jogo enquanto se imagina, ela mesma, situada em um ponto supostamente neutro de onde se enxergaria o tabuleiro inteiro. A reflexividade, entendida com esse rigor, não é um refinamento metodológico opcional, e sim um pressuposto de que quem analisa o campo reconheça que também ocupa uma posição nele, que dispõe de capitais a defender e que também tem interesse no desfecho da disputa que descreve. Ou seja, exercitar a reflexividade para que se altere a lógica do campo, conforme se enuncia que se deseja em ambos os manifestos, não tem a ver com ter razão ou se omitir, é cortar na própria carne.
Esse exercício, em tese, poderia alcançar primeiro o manifesto da Maria Antônia, que apresenta a neutralidade institucional como se fosse a ausência de posição, quando a defesa da neutralidade é ela própria uma posição, historicamente datada e socialmente interessada, que produz determinados efeitos e favorece determinados grupos no interior da universidade brasileira. A meu ver, esse mesmo manifesto acerta ao lembrar que a homogeneidade ideológica de um ambiente pode estreitar o debate e alimentar a autocensura, pois esse é um risco em qualquer comunidade intelectual que confunda consenso e fantasias de poder de um grupo com os fatos. No entanto, no caminho do que Leher aponta, o problema começa quando se examina em que terreno o manifesto assenta o seu diagnóstico, uma vez que a evidência principal da suposta intolerância generalizada é uma pesquisa de opinião que capta, antes de tudo, a percepção pública fabricada por anos de campanha de desqualificação da universidade pública, de maneira que erguer um programa de reforma sobre esse dado é correr o risco de emprestar autoridade justamente à narrativa da extrema direita que também fragiliza a universidade a partir de fora.
Uma universidade que se declara neutra diante das disputas do seu tempo não suprime a política, apenas transfere para o silêncio institucional o poder de decidir, e convém lembrar que a universidade brasileira jamais foi neutra, tendo sido, ao longo da sua história, elitista, socialmente seletiva e ajustada a uma ordem colonialista e capitalista-dependente que foi apresentada como natural porque não entendia que precisava se declarar ou porque não era oportuno diante da posição de poder que ocupa na sociedade. Invocar agora uma neutralidade que nunca existiu não devolve à instituição um equilíbrio perdido, e sim a desarma no instante exato em que ela mais precisaria tomar partido da democracia e da soberania de seu país diante de um inimigo que tem um projeto neocolonial autoritário e que tem apoiadores que desejam a ruína da universidade pública, gratuita e socialmente referenciada. Isto é, a neutralidade não protege o pluralismo e nem nada parecido com isso, apenas assegura que o “consenso” e o silenciamento institucional trabalhem a favor da dominação de quem está mais forte dentro e fora da universidade em determinado momento da história.
Reconhecer que nos dois manifestos não se fala de um ponto exterior a essa disputa não impede que se reconheça que a lucidez de cada posição sobre a outra convive com uma sombra sobre si mesma. É essa zona de sombra que talvez permita entender por que um debate tão intenso e tão bem armado pode, ainda assim, deixar de fora questões sobre como a universidade pública deve ser mantida, defendida e financiada publicamente no próximo período. E a avaliação que a sociedade pode formular sobre a defesa da universidade pública, quando invocada por algum governo, não será só pelos seus critérios internos de poder e consagração. E ok na universidade, termos o nosso próprio ritmo, mas vivemos também tempos, como em outros, em que a universidade como conhecemos está em risco iminente. O que percebo no dia a dia em projetos com as comunidades é que precisamos recuperar um vínculo estratégico com a sociedade e o caminho será também pela extensão universitária e comunitária, não só pela pesquisa, relatórios e parcerias público-privadas. Na real, talvez tenhamos boa parte das respostas que precisamos, mas precisamos mudar as perguntas, e para mudar as perguntas também precisamos mudar as nossas ações.
O produtivismo e a inversão das finalidades: o que o espelho não reflete
Nas últimas décadas, a avaliação da vida universitária concentrou-se de maneira crescente em indicadores de produtividade, como publicações, fator de impacto, índices bibliométricos, posições em rankings internacionais, volume de captação, dentre outros. O problema não reside na existência das métricas, e sim no momento em que elas passam a monopolizar a definição de suposto sucesso e até fama acadêmica, porque então corremos o risco de reduzir a instituição àquilo que ela consegue medir, esquecendo que as coisas mais substantivas e enraizadas que uma universidade faz em sociedade são também as mais difíceis de quantificar.
Instala-se uma inversão silenciosa das finalidades, na qual a pesquisa deixa de ser um dos fins da universidade para se tornar o princípio que a organiza inteiramente, enquanto o ensino a cada dia se converte em atividade para muitos(as) secundária, penosamente conciliada com as exigências produtivistas que são um fim em si mesmas, e a extensão universitária, que deveria ser a ponte de “mão dupla” (ou tantas mãos quanto possíveis) entre o conhecimento produzido e a sociedade, mas que definha em muitos casos como requisito burocrático a ser cumprido para efeitos de relatório e complementação curricular.
Chega-se, por esse caminho, àquilo que, além das suas potencialidades e do debate público, me parece ser o limite comum do manifesto e o contra-manifesto. Cada um à sua maneira permanecem voltados para o espelho, pois disputam quem tem razão sobre a universidade perante a própria universidade, quando nesse momento a ameaça mais grave à instituição não vem do interior das suas disputas, e sim do avanço de um projeto neoliberal autoritário que faz da universidade pública um dos seus alvos preferenciais. A prova recente disso, vem desde a falácia do Escola Sem Partido, da Ideologia de Gênero, das buscas e apreensões de livros e cartazes em campis durante o segundo turno de 2018, a retórica da balbúrdia empunhada por um ministro da Educação no governo Bolsonaro para justificar cortes e os anos de asfixia orçamentária que vêm até hoje no governo Lula 3 e, no cenário internacional, a chantagem econômica que o governo de Donald Trump passou a exercer sobre as universidades estadunidenses, tudo isso compõe uma ofensiva que não é metáfora nem exagero retórico, e que trata da existência universidade, pelo menos como ela ainda é. E não se trata de ameaça encerrada no passado, pois, no momento em que escrevo, a própria democracia brasileira volta a ser testada, com uma intervenção externa no Brasil conduzida pelos Estados Unidos e seus asseclas na América latina. E basta recorrermos à história para saber que a universidade, quando ocorre uma tentativa ou a efetivação de um golpe de estado, figura entre os primeiros alvos, o que converte a pergunta sobre a sua legitimidade pública em uma questão de sobrevivência, pois interessa saber com quem ela poderá contar quando a ofensiva se fizer inteiramente aberta.
Foi Theodor Adorno quem formulou, em uma conferência de 1966 hoje conhecidas como “Educação após Auschwitz”, a tese que considero mais radical sobre a relação entre a educação e o fascismo, ao afirmar que a primeira de todas as exigências que se pode dirigir à formação é que Auschwitz não se repita. Para Adorno, a barreira mais sólida contra a barbárie não está na vigilância das opiniões alheias nem na suposta pureza de ideias de um ambiente, e sim na formação de sujeitos autônomos, capazes de reflexão e de resistência à identificação cega com o coletivo, uma vez que o fascismo se enraíza menos nas ideias explícitas que professa do que na incapacidade de pensar contra si mesmo e na frieza que desliga o indivíduo do sofrimento dos outros.
Percebe-se que a autonomia que Adorno pauta na educação pode dialogar com a reflexividade que Bourdieu cobra da ciência, e as duas apontam para uma universidade que só se protege do autoritarismo quando forma pessoas capazes de voltar o pensamento contra as próprias certezas, o que é o oposto tanto da neutralidade e da inação que se recusa a lidar com a problemática da política, quanto da crítica que, mesmo que negue, se pauta pela posição do adversário. E nenhum dos dois manifestos enfrenta, pelo menos, por perguntas, como: De que maneira, com as nossas características, podemos ampliar de forma substantiva o apoio popular à universidade? E a extensão universitária? E o seu financiamento? Como vamos nos organizar a um possível cenário de intervenção externa pós-eleições ou de mais cortes de recursos? Como a reforma administrativa vindoura vai afetar o cotidiano do servidor público docente?
Em ciclos de ascensão fascista, ou em uma situação em que a extrema direita e grupos autocráticos ascendem socialmente (nem me refiro ao governo em si), como estamos vivendo no Brasil, a gente já devia ter aprendido que essas forças tendem a se alimentar menos das ideias que circulam dentro da universidade e mais das ideias que separam a universidade da sociedade. Uma instituição percebida como distante, autorreferente e debilitada ao mostrar sua missão social se torna um alvo fácil, porque poucos sairão em sua defesa quando o ataque vier. Nesse momento, ao mesmo tempo em que precisamos da universidade que forma professores(as) para a escola pública, que leva atendimento e conhecimento aos que dela precisam, que se alimenta de questões e devolve em pesquisa aplicada pela extensão universitária aquilo que recebe em recursos, precisamos também de uma universidade que constrói para si uma legitimidade social que dificilmente uma think tank a serviço dos EUA conseguiria desmontar (ver mais também no texto de Leher).
Talvez a nossa universidade brasileira precise, neste momento, menos de novas certezas e mais de novas perguntas, menos de grupos convencidos de que serão eles a salvá-la e mais de uma comunidade intelectualmente orgânica capaz de submeter as próprias convicções ao mesmo escrutínio crítico que exige dos seus adversários internos. A reflexividade também começa nesse ponto, quando na universidade deixamos de perguntar quem está certo em suas disputas corporativas internas e volta a se perguntar para quem de fato ela existe. Já diria, Marilena Chaui “a Universidade nasce como uma instituição social – em outras palavras, uma prática social – , autônoma diante de outras instituições sociais, com ordenamentos, regras, normas e valores próprios, “inseparável das ideias de formação, reflexão, criação e crítica”.
[1] Uso “substantivo” para me referir às atividades que realizam finalidades sociais constitutivas da universidade e produzem efeitos relevantes para além de sua contabilização institucional; e “enraizadas”, em diálogo com Karl Polanyi, para destacar que parte desses efeitos se constitui nas relações sociais, institucionais e territoriais nas quais a universidade está inserida. A ideia de “enraizamento” em diálogo com Karl Polanyi (2000), para quem a economia não constitui uma esfera autônoma da sociedade, mas encontra-se inserida em relações, instituições e obrigações sociais. Uma atividade de extensão, por exemplo, pode ser contabilizada pelo número de participantes, horas realizadas, projetos registrados ou produtos gerados, mas esses indicadores dificilmente apreendem, por si mesmos, a construção de relações de engajamento e confiança com uma comunidade, a circulação de conhecimentos entre universidade e sociedade, a formação dos(as) estudantes no contato com problemas sociais concretos ou os efeitos que essas relações podem produzir ao longo do tempo. Ou seja, uso essas ideias não para denotar ou que são sinônimos de atividades mais importantes, mas para designar práticas universitárias cujo significado é intrínseco a sociedade que a provém.




