Por que ler Roberto Schwarz?

Por Fabio Mascaro Querido, no blog da Boitempo

I.

Quando pensamos em Roberto Schwarz lembramos, quase que instantaneamente, de uma série de imagens a ele associadas: o discípulo de Antonio Candido, o herdeiro do chamado “Seminário d’O capital”, o ensaísta cujos títulos desconcertam, o crítico irredutível.

E, de fato, Schwarz é tudo isso. Mas é também muito mais. Pois em Schwarz – que acaba de completar 88 anos de uma vida muito bem vivida –, o encontro entre estas várias facetas se desdobra num pensamento original, que tira proveito de um conjunto de referências sem, no entanto, se desgarrar do objeto em questão.

Schwarz não é simplesmente “influenciado” por Candido, por Fernando Henrique Cardoso, por Fernando Novais, por Lukács, Adorno, Brecht ou Benjamin. Ele os toma, antes, como mediações para pensar em chave própria o problema que lhe interessa. E esse problema é, em última instância, o Brasil.

Mais do que o crítico que provocou uma reviravolta na análise de Machado de Assis, Schwarz é, portanto, responsável por uma verdadeira interpretação do Brasil, a qual se destaca por seu ceticismo em relação às possibilidades da modernização capitalista1. Ao visualizar no narrador do Machado de Assis da segunda fase – aquele que começa com Memórias póstumas de Brás Cubas – uma formalização literária da “desfaçatez de classe” que caracterizava (e ainda caracteriza, diga-se de passagem) as elites brasileiras, Schwarz revelava como as expectativas vinculadas à modernização como via de escape para os problemas históricos da sociedade brasileira estavam condenadas ao fracasso.

Modernização até que houve. Aliás, de certa forma, sempre fomos modernos, como mostraram Caio Prado Júnior ou Fernando Novais, para os quais o Brasil nasce como entreposto comercial do capitalismo mercantil emergente. O ponto é que modernização não significa, por si só, formação da nação.

II.

Assim, se é verdade que Schwarz se insere no quadro das reflexões sobre a “formação” – quadro que, como apontou Paulo Arantes, era a obsessão por excelência da intelectualidade brasileira2 –, ele não vislumbra qualquer saída para os dilemas do país nos limites do desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo. Não há resolução meramente nacional. Mas isso não significa que o referente nacional tenha que ser pura e simplesmente descartado, em favor de uma abordagem de classe, tal como propuseram, nos anos 1970 e no início dos 1980, Francisco Weffort, Maria Sylvia de Carvalho Franco e, sobretudo, Marilena Chaui.

Aqui está o ponto. Para Schwarz, uma coisa não anula a outra: não é possível pensar as classes sociais desconsiderando o caráter periférico da nação. Por outro lado, não se pode pensar a nação sem atentar para o modo como ela é atravessada por antagonismos de classe. Do mesmo modo, se o horizonte é internacional (ou internacionalista), o ponto de partida é nacional: é à luz das contradições locais que a questão internacional ganha concretude, o que exige da crítica a “tradução” (como diria Gramsci) das ideias originalmente elaboradas no centro do sistema para o contexto nacional.

Foi o que fez o segundo Machado, ao reelaborar a “forma” sob os influxos da “formação” nacional. E é o que faz o próprio Schwarz: assim como Walter Benjamin procedera em relação a Baudelaire, o crítico brasileiro transforma Machado numa espécie de bússola para a aclimatação do marxismo num país em que, até segunda ordem, a teoria social fundada por Marx também estava “fora do lugar”.

Como disse em entrevista de 1976 ao jornal Movimento, se o marxismo, tanto quanto o liberalismo ou o conservadorismo, parece, na periferia do sistema, inicialmente deslocado, a sua inclinação materialista faz com que ele esteja em posição de reelaborar as ideias em um lugar cuja compreensão é, afinal, o que importa. “O problema […] não é o de ser a favor ou contra o influxo externo, mas o de considerá-lo (bem como a tradição nacional) de uma perspectiva popular”3. Longe de apenas transplantar o marxismo à realidade brasileira, ou, o que dá no mesmo, de encaixar a matéria local numa teoria geral que permanece intacta, trata-se de repensar a crítica do capitalismo num país que não passara, e nem poderia, pelo mesmo percurso histórico dos países europeus.

Schwarz escapa, assim, da antinomia contra a qual se voltou, por exemplo, no ensaio “Nacional por subtração” (1986): de um lado, o nacionalismo metodológico e político, que mantém esperança em completar o processo de formação da nação; de outro, o cosmopolitismo abstrato, para o qual – nesse caso – a abordagem de classe prescindiria da análise das especificidades periféricas. Sem falar de sua oposição frontal, a partir dos anos 1990, a uma nova modalidade de cosmopolitismo, que se poderia chamar de cosmopolitismo neoliberal, levado a cabo justamente por aquele que, em 1958, fora um dos responsáveis pela criação do “Seminário d’O capital”, mito de origem do marxismo paulista: Fernando Henrique Cardoso, o sociólogo que se tornou – supostamente “por acaso” – presidente da República à frente de uma coalizão liberal-conservadora.

III.

Ler Roberto Schwarz é, portanto, ler o Brasil – e, por meio dele, o mundo – de ontem e de hoje. Desde o ensaio seminal “As ideias fora do lugar”, escrito no exílio francês em 1971 e primeiro texto vinculado ao seu projeto de estudos sobre Machado de Assis, Schwarz argumentou que a nossa posição periférica no concerto global das nações é uma porta de entrada para a crítica do capitalismo como um todo. Como diria Marx, a colônia revela a verdadeira natureza da metrópole. Ou, para dizer em termos benjaminianos, a “exceção” periférica explicita o outro lado da “norma” do centro4.

Se a condição de país periférico desloca o sentido das teorias “importadas”, ocasionando o que Schwarz chamará de “comédia ideológica”, ela também permite uma outra relação com as ideologias modernas, revelando-as em seu avesso. Nas palavras do autor: “Largamente sentidas como defeito, bem conhecido mas pouco pensado, este sistema de impropriedades decerto rebaixava o cotidiano da vida ideológica e diminuía as chances da reflexão. Contudo facilitava o ceticismo em face das ideologias, por vezes bem completo e descansado, e compatível aliás com muito verbalismo”5.

Mas o efeito não é apenas ideológico, senão também prático. Ainda nos termos de Schwarz: “É natural que a autocrítica da ordem burguesa se faça, ao menos em parte, em nome das energias que ela pulverizou. Acontece que, em países da periferia capitalista, estas energias ainda se encontram soltas na rua, o que na corrida internacional pode ser um atraso, mas permite as confluências que procuramos sugerir, as quais possivelmente não sejam um fato só brasileiro”6.

Não é por acaso que, nas últimas décadas, quando os países do centro passaram a vivenciar uma fratura social que outrora parecia restrita à periferia do sistema, Schwarz tenha sido reconhecido como um crítico de alcance global. Tanto para Perry Anderson quanto para Franco Moretti, ele é “o maior crítico marxista de nosso tempo”. E essa “universalidade” não se manifesta apesar de, mas justamente porque Schwarz se volta para o mundo a partir da periferia do capitalismo.

Em face daquilo que Paulo Arantes chamou de “periferização do mundo”, Schwarz transforma o ponto de vista da periferia em sintoma agudo da dinâmica do capitalismo contemporâneo. Como diz o primeiro, “… na hora histórica em que o país do futuro parece não ter mais futuro algum, somos apontados, para mal ou para bem, como o futuro do mundo”7. O futuro já chegou, e é isso mesmo. O “colapso da modernização” não apenas bloqueia, e de uma vez por todas, as esperanças no “progresso” da periferia, como também indica o presente e o futuro do centro do sistema. A periferia se torna, então, uma espécie de “vanguarda da desintegração”8.

Roberto Schwarz sempre esteve no cruzamento dos caminhos. E foi por isso que se tornou o intelectual que é. Ele nunca hesitou em seguir caminhos próprios, a contrapelo dos consensos estabelecidos entre as esquerdas. Mais do que repensar outra vez o que já foi pensado, Schwarz se infiltra naquilo que ainda não foi considerado, no que ainda permanece desconhecido. Diante do “antigo bom”, que tanto contenta a esquerda que se acredita do lado certo da História, ele prefere interrogar o “novo ruim” – nos termos de um de seus mestres, Bertolt Brecht, transcritos de uma conversa pessoal por outro de seus “aliados”, Walter Benjamin9.

O pensamento de Schwarz é, portanto, um pensamento em movimento, que, por sua vez, dá forma ao movimento da própria formação social. É verdade que, ultimamente, a crítica dialética parece em baixa, espremida que está entre novas versões do “positivismo” ou do “formalismo”. Como disse Schwarz no discurso de recebimento do título de professor emérito, na Unicamp, em outubro de 2022, “os estudos culturais dos anos 1980, em sua versão norte-americana, concentraram-se nas questões de raça, gênero e classe, tomadas como categorias gerais. Voltava-se à utilização documentária da ficção, ou seja, a um tipo de conteudismo crasso, indiferente à especificação estética”10. Voltava-se, então, a uma forma (atualizada) de positivismo.

Na outra ponta, a do formalismo, “a perspectiva pós-moderna, cancelando o dinamismo da história e a dimensão da realidade exterior à linguagem, restabelece o jogo vazio e a-histórico das abstrações universalistas, indiferentes às formações históricas singulares, à maneira dos New Critics11. Segundo Schwarz, talvez a crítica dialética tenha sido um breve parêntese. Ou não. Tudo depende de “que as novas gerações, solicitadas pelos impasses de nosso tempo e pela necessidade de superá-los, a recuperem para a vida – para um capítulo inédito, na boa fórmula de um comentador recente, da história ‘depois do fim da história’”12.

Se o “fim de partida” parece próximo, para lembrar Samuel Beckett, é preciso bifurcar o sentido do jogo. Eis por que, para as velhas e novas gerações, Schwarz permanece uma referência inescapável. Ao menos para aqueles e aquelas para os quais a revitalização da crítica dialética não é uma tarefa apenas teórica, mas também prática – “para a vida”. Uma vida que, como sabemos, anda cada vez mais difícil de ser vivida.

Que Schwarz continue nos ajudando a demolir a fachada do existente para, assim, conseguirmos desbloquear a nossa capacidade de imaginar um outro futuro, na contramão de um presente que, deixado como está, apenas prolongará a agonia. Que viva Roberto Schwarz!

Notas

  1. Tratei da questão em Lugar periférico, ideias modernas: aos intelectuais paulistas as batatas (Boitempo, 2024). 
  2. Paulo Arantes, “Providências de um crítico literário na periferia do capitalismo”, in: Paulo Arantes e Otília Fiori Arantes, Sentido da formação. Três estudos sobre Antonio Candido, Gilda de Mello e Souza e Lúcio Costa. Paz e Terra, 1997, p.11-12.  
  3. Roberto Schwarz, “Cuidado com as ideologias alienígenas (Repostas a Movimento)”, in: Essencial Roberto Schwarz. Companhia das Letras, 2023, p.159. 
  4. Sobre a crítica benjaminiana da “norma” do progresso, ver Fabio M. QueridoWalter Benjamin: uma introduçãoBoitempo, 2026.  
  5. Roberto Schwarz, “As ideias fora do lugar”, in: Ao vencedor as batatas. Forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. Duas Cidades; Editora 34, 2000 [1977], p.28. 
  6. Roberto Schwarz, Ao vencedor as batatas, cit., p.195-196.  
  7. Paulo Arantes, “A fratura brasileira do mundo. Visões sobre o laboratório brasileiro da mundialização”, in: Zero à Esquerda. Conrad, 2004, p.30. 
  8. Roberto Schwarz, “Fim de século”, in: Sequências brasileiras. Companhia das Letras, 1999, pp.55-62.  
  9. Walter BenjaminEnsaios sobre Brecht (trad. Claudia Abeling). Boitempo, 2017, p.114. 
  10. Roberto Schwarz, “Emérito”. Remate de Males, v. 43, n. 2, 2023, p.627-628.  
  11. Ibidem, p.628.  
  12. Idem. O “comentador recente” é Wolfgang Streeck, “Return of the King. Sidecar, New Left Review’s Blog, 4 de maio de 2022. Disponível aqui.  

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Fabio Mascaro Querido é professor livre-docente do Departamento de Sociologia da Unicamp. Pela Boitempo, publicou Lugar periférico, ideias modernas: aos intelectuais paulistas as batatas (1958-2000) (2024) e Walter Benjamin: uma introdução (2025). Membro do comitê editorial da revista Margem Esquerda.

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