Os ultrarricos estão precificando a história

A história pertence a todos. Mas se os governos continuarem cortando o financiamento de museus e galerias nacionais, garantirão que os artefatos antigos só possam ser vistos em lojas de luxo, exibidos nas mesas de centro dos ricos e usados ​​por celebridades no tapete vermelho.

Por John Livesey, na Jacobin

Barron London é uma loja de antiguidades e joias localizada em Mayfair, um dos bairros mais ricos de Londres. À primeira vista, sua fachada parece discreta — se você passar apressado, provavelmente não notará nada. Mas por trás dessa fachada modesta, encontra-se um showroom privativo que abriga uma coleção impressionante de joias preciosas, antiguidades e artefatos, muitos dos quais datam de vários milênios atrás.

A Barron é apenas uma das muitas galerias londrinas que atendem ao crescente mercado de artefatos raros e antiguidades. No entanto, a galeria se viu sob escrutínio neste mês devido a um par de brincos persas antigos emprestados à atriz Zendaya para sua aparição na estreia londrina de A Odisseia, de Christopher Nolan.

Segundo o registro oficial, os brincos foram descobertos originalmente em 1946 perto do Castelo de Ziwiyeh, no noroeste do Irã, e acredita-se que datem de cerca de 700 a.C. Dada essa procedência singular, historiadores não tardaram a criticar a decisão de Zendaya de usar as peças preciosas no tapete vermelho. Muitos também apontaram a ironia de uma atriz estadunidense usar itens valiosos pertencentes a uma civilização que o presidente de seu país — apenas meses antes — ameaçava bombardear e fazer retroagir à Idade da Pedra.

É claro que a mercantilização de artefatos históricos não é novidade. Zendaya não é a única a cometer esse erro. No mesmo tapete vermelho que Zendaya, sua colega de elenco Anne Hathaway foi fotografada usando um relógio cravejado de diamantes feito a partir de uma antiga moeda romana. Quatro meses antes, Margot Robbie compareceu à estreia de O Morro dos Ventos Uivantes com o colar de diamantes Taj Mahal da Cartier, que apresenta uma pedra em forma de coração que pertenceu ao quarto imperador Mughal, Jahangir, durante o século XVII.

Para além de Hollywood, muitos outros artefatos históricos também foram reaproveitados como artigos de luxo. A poucos quarteirões da Barron London, galerias como a Charles Ede e a Barakat adquirem e vendem rotineiramente fragmentos têxteis, entalhes, esculturas e relevos arquitetônicos como objetos de arte decorativa para clientes ultrarricos que desejam formar suas próprias coleções. Entre os itens atualmente anunciados online, encontram-se uma autêntica máscara de múmia egípcia datada de 664 a.C., um ídolo da Idade do Bronze que remonta a 2100 a.C. e uma tabuleta cuneiforme ainda não traduzida que data de 2027 a.C.

“Será mesmo melhor que itens preciosos fiquem ao lado de edições antigas da revista New Yorker nas mesas de centro dos ultrarricos do que serem mantidos em instituições públicas como a National Gallery?”

Para justificar a remoção de tais artefatos de seu contexto cultural, galerias privadas frequentemente empregam uma linguagem eufemística: antigas estátuas persas ou joias preciosas indianas não estão sendo retiradas do público, mas sim “colocadas” nas mãos seguras daqueles mais capazes de cuidar delas. Essa é uma estratégia de defesa inteligente. Mas isso não muda o fato de que esse processo de “colocação” desses objetos geralmente os deposita em apartamentos de luxo, onde não podem mais ser devidamente estudados, conservados ou acessados ​​pelo público leigo curioso. Será mesmo melhor que itens preciosos fiquem ao lado de edições antigas da revista New Yorker nas mesas de centro dos ultrarricos do que serem mantidos em instituições públicas como a National Gallery?

Graças a um mercado de antiguidades em expansão, liderado por uma jovem geração de compradores que herdaram recentemente sua riqueza, a redistribuição antidemocrática de artefatos antigos em favor dos ricos só se intensificou nos últimos anos. Os preços exorbitantes de aquisição estão tornando quase impossível para os museus financiados com recursos públicos manterem-se competitivos, especialmente porque essas instituições sofrem ataques ao seu financiamento e legitimidade. O resultado é que cada vez mais itens de importância científica e histórica estão sendo perdidos para colecionadores particulares.

Talvez o exemplo mais flagrante dessa tendência seja a venda do dinossauro Gus. Gus é o nome dado a um esqueleto de Tyrannosaurus rex, escavado pela primeira vez em Dakota do Sul, em 2021. Considerado o maior e mais completo já descoberto, o esqueleto de Gus foi objeto de muitas pesquisas paleontológicas antes de ser vendido na Sotheby’s, em Nova York, por US$ 50,1 milhões. Após a venda, Gus não fará mais parte de nenhuma coleção de museu reconhecida e, como resultado, os cientistas não terão mais acesso ao seu esqueleto — o que impede a possibilidade de muitas descobertas científicas valiosas. Quanto ao público, os restos mortais do dinossauro só estarão acessíveis se forem emprestados a uma instituição pública — um processo precário, temporário e repleto de questões políticas.

Sob o capitalismo, fica claro que a história, assim como tudo o mais, está à venda — e, sem regulamentação, as tendências atuais ameaçam nos levar de volta ao século XVIII, quando tais itens só podiam ser vistos em coleções particulares de pessoas ricas. Foi em resposta a esse sistema antidemocrático que os museus nacionais foram criados, propondo a ideia radical de que o patrimônio é propriedade comum de todos. Hoje, no entanto, parece que essa visão sofreu com uma compreensão mais mercantilista do que torna os objetos históricos valiosos.

Nos últimos quinze anos, museus na Europa e nos EUA têm sido alvo de duras críticas. Muitos acadêmicos progressistas têm buscado enfatizar o entrelaçamento dessas instituições com a violência da exploração colonial e as maneiras pelas quais essa violência foi reproduzida em narrativas nocivas sobre civilizações não ocidentais. Essas são, sem dúvida, críticas válidas. No entanto, as controvérsias em torno dos brincos de Ziwiyeh ou do dinossauro Gus apontam para uma alternativa ainda mais sinistra. De fato, o mercado de artefatos está convertendo rapidamente objetos históricos em mercadorias para serem exibidas ao bel-prazer de indivíduos. Esse processo representa sua própria forma de exploração e, se não for controlado, acabará por separar o público de sua própria história. Nesse novo mundo, não haverá debate sobre os legítimos proprietários dos artefatos históricos, apenas a brutal lei do mercado que afirma que tudo é válido para o maior lance.

*John Livesey é doutorando na University College London, especializado no trabalho de James Baldwin. Seus escritos foram publicados no Guardian, Little White Lies e na Oxford Review of Books.

Tradução: Pedro Silva

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