Invasão da Venezuela expõe vulnerabilidade do Brasil e importância do reaparelhamento militar. Mas precisa vir acompanhada de reforma das Forças Armadas, para não fortalecer nem os privilégios castrenses, nem possíveis aventuras antidemocráticas
Por Márcio Ferreira*, em Outras Palavras
Durante boa parte da redemocratização brasileira, a esquerda tratou o tema da defesa nacional com evidente desconforto. O trauma produzido por vinte e um anos de ditadura militar transformou qualquer aproximação com as Forças Armadas em terreno politicamente sensível. A defesa passou a ser percebida, muitas vezes, como pauta pertencente ao campo conservador, enquanto a esquerda concentrou suas energias nas agendas de direitos sociais, redistribuição de renda e ampliação da cidadania.
O discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na convenção nacional do Partido dos Trabalhadores, realizada em 2 de agosto, sugere que esse paradigma pode estar mudando. Em mais de uma hora de pronunciamento, Lula organizou o que seria um eventual quarto mandato em torno de cinco compromissos: a soberania sobre os recursos estratégicos, com destaque para as terras raras e os minerais críticos; o enfrentamento à violência contra as mulheres; a transformação da educação; uma política nacional para a população idosa; e o fortalecimento da indústria de defesa. Ao defender investimentos na capacidade militar brasileira, fez uma crítica pouco comum dentro do próprio campo progressista: pediu à esquerda que abandonasse a “bobagem de achar que não temos que ter preocupação com a defesa”, dizendo querer o país preparado “para que ninguém invada esse país para levar o presidente”. Não se tratava de defesa do militarismo, mas da soberania do Estado brasileiro.
O gesto tem origem concreta e recente. Na virada do ano, os Estados Unidos invadiram a Venezuela, capturaram Nicolás Maduro e patrocinaram a instalação de um governo submisso em Caracas, coroando a Estratégia de Segurança Nacional que o governo Trump havia divulgado em dezembro de 2025, lida por analistas como um corolário contemporâneo da Doutrina Monroe. Preocupado, Lula convocou os comandos militares, em 15 de janeiro, para uma leitura de cenários sobre uma eventual ação semelhante em território brasileiro. O diagnóstico foi pouco animador: o país não dispõe sequer de defesa antiaérea capaz de dissuadir uma ofensiva como a que atingiu a capital venezuelana. Em seguida, o Ministério da Defesa apresentou um plano de R$ 800 bilhões em quinze anos, cerca de R$ 53 bilhões anuais, para reduzir essas vulnerabilidades. É a esse pano de fundo, e não a uma abstração geopolítica, que o discurso da convenção responde.
A declaração da convenção não surgiu isolada. Nas semanas anteriores, durante visita à Avibras, empresa estratégica da Base Industrial de Defesa recém-reaberta em Jacareí, Lula afirmou que o Brasil não deseja guerras, mas precisa estar preparado para proteger suas fronteiras, seu território, sua Amazônia, suas riquezas minerais e seu patrimônio tecnológico. Disse querer as Forças Armadas preparadas, sem arrogância, “para não deixar ninguém meter o nariz nesse país”. Em outro momento, recorreu à Guerra do Paraguai como exemplo histórico dos riscos enfrentados por países incapazes de desenvolver capacidade própria de defesa. A mensagem é inequívoca: um país pacífico não pode abrir mão de instrumentos de dissuasão.
Essa mudança de ênfase merece atenção porque representa uma inflexão no discurso histórico do lulismo, ainda que seja preciso qualificá-la. Seria impreciso sugerir que a esquerda brasileira apenas agora descobre a defesa. Foi o primeiro governo Lula que formulou a Estratégia Nacional de Defesa, em 2008, reativou a Base Industrial de Defesa e lançou programas de longo curso, como o de submarinos (PROSUB) e o cargueiro KC-390. O que há de novo, portanto, não é a agenda de defesa em si, mas dois gestos: convertê-la em vitrine de campanha, ao lado das pautas sociais, e confrontar abertamente o preconceito que parte do próprio campo progressista ainda mantém em relação ao tema.
A agenda petista sempre esteve associada à inclusão social, ao combate à pobreza e à ampliação de direitos, e esses elementos permanecem. Não por acaso, entre os compromissos anunciados figuram a promessa de enfrentar definitivamente o desafio da educação, o programa voltado à população idosa e o enfrentamento à violência contra as mulheres. Chama atenção, porém, que esses temas apareçam lado a lado com a defesa da indústria militar e com a preservação das terras raras sob controle nacional. Longe de constituírem assuntos desconectados, integram uma mesma concepção de Estado.
O discurso revela uma tentativa de reconstruir a ideia de soberania nacional em bases contemporâneas. No século XXI, soberania já não significa apenas proteger fronteiras terrestres. Significa dominar tecnologias estratégicas, controlar cadeias produtivas críticas, desenvolver capacidade industrial própria, proteger minerais essenciais à economia digital e reduzir vulnerabilidades diante tanto da disputa entre Estados Unidos e China por tecnologias e recursos estratégicos quanto de um vizinho que voltou a ser palco de intervenção militar direta de uma grande potência. Não por acaso, ao anunciar o compromisso com as terras raras, Lula fez questão de nomear os dois polos dessa disputa, dizendo que nem chinês, nem americano, nem francês meteria o dedo na riqueza mineral brasileira. É justamente nesse contexto que a defesa nacional deixa de ocupar um espaço exclusivamente militar para se converter em política de desenvolvimento.
O Brasil possui uma das maiores reservas mundiais de minerais críticos, abriga a maior floresta tropical do planeta, controla extensa faixa marítima rica em petróleo e biodiversidade e ocupa posição estratégica na produção de alimentos e de energia limpa. Em um cenário internacional marcado pela competição por recursos naturais e tecnologias sensíveis, esses ativos passam a integrar a própria agenda da segurança nacional. É também aí que a transição energética, mencionada por Lula na convenção, se articula ao argumento: não como pauta ambiental isolada, mas como componente da autonomia estratégica do país.
Não por acaso, Lula associa o fortalecimento da indústria de defesa à política industrial e à inovação tecnológica. Ao perguntar por que um país do tamanho do Brasil não possui uma indústria mais robusta de drones e equipamentos estratégicos, desloca o debate da lógica tradicional da caserna para a lógica da capacidade produtiva nacional. A defesa aparece menos como gasto militar e mais como investimento em ciência, tecnologia e autonomia industrial.
Essa inflexão também se compreende à luz das transformações geopolíticas recentes. A América do Sul atravessa um período de reconfiguração política, no qual diversos governos de orientação progressista foram substituídos por administrações de centro-direita ou direita. A Argentina de Javier Milei, a Bolívia de Rodrigo Paz, que em 2025 encerrou quase duas décadas de hegemonia do Movimento ao Socialismo, e o Chile de José Antonio Kast, empossado em março de 2026 após o governo Boric, compõem um continente bem mais heterogêneo do que em qualquer momento das últimas duas décadas. Na Colômbia, a direita venceu a eleição de 2026, e a posse de um novo governo, alinhado ao liberalismo econômico, encerra o ciclo aberto por Gustavo Petro. Somada à guinada intervencionista de Washington, essa reconfiguração ajuda a explicar por que o conceito de soberania adquire centralidade no discurso presidencial.
Ao mesmo tempo, as relações entre Brasil e Argentina atingiram um dos momentos mais delicados desde a redemocratização. As divergências entre Lula e Milei ultrapassam diferenças ideológicas e alcançam temas comerciais, diplomáticos e de integração regional. Paralelamente, as relações com os Estados Unidos passaram a experimentar novos momentos de tensão em torno de tarifas comerciais, reciprocidade econômica e da disputa internacional pelos chamados minerais críticos, ainda que Lula mantenha canais abertos e interlocução direta com Trump.
Seria, entretanto, equivocado concluir que Lula pretende promover uma reaproximação política com os militares. Desde os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, o presidente adotou uma estratégia marcada pelo pragmatismo: de um lado, buscou responsabilizar individualmente militares envolvidos em atos antidemocráticos; de outro, preservou a institucionalidade das Forças Armadas, recompôs canais de diálogo com os comandos e evitou alimentar uma crise permanente entre governo e caserna.
O que emerge é outra concepção. Em vez de recolocar os militares no centro da política, Lula procura recolocar a política de defesa no centro do Estado. São movimentos distintos. Enquanto a experiência recente demonstrou os riscos da politização das Forças Armadas, o novo discurso presidencial sugere que a defesa nacional não pode permanecer ausente do projeto de desenvolvimento brasileiro: trata-se de recuperar uma agenda estratégica sob liderança civil, vinculada à inovação tecnológica, à indústria nacional, à proteção ambiental e à autonomia geopolítica.
Convém, ainda assim, não tomar o enquadramento pelo seu valor de face. O primeiro problema é fiscal. Um plano de R$ 800 bilhões em quinze anos supera de longe os recursos hoje destinados à defesa, e mesmo a exceção de R$ 30 bilhões em seis anos que o arcabouço abriu para projetos estratégicos. Entre o anúncio e a execução interpõe-se o Orçamento, e é nele, mais do que na convenção, que se saberá se há lastro material para o salto prometido. Não é detalhe menor que o próprio plano tenha vindo a público pela via militar, que enxergou na animosidade regional uma oportunidade de pressionar por mais gasto: a agenda de soberania nasce, em parte, de um interesse corporativo por ampliação orçamentária.
O segundo problema é mais fundo, e foi bem formulado por dois estudiosos do tema, o historiador Manuel Domingos e o antropólogo Piero Leirner. Reequipar as Forças Armadas, argumentam, não basta, e pode reproduzir velhos vícios. Boa parte do arsenal brasileiro segue amarrada à dependência tecnológica: as fragatas mais modernas da Marinha operam orientadas pela rede Starlink, e os caças Gripen dependem de software norte-americano, de utilidade duvidosa diante justamente de um ataque como o que atingiu a Venezuela. Superar essa dependência exige indústria bélica própria e cooperação sul-americana, tratando os vizinhos como aliados, e não como inimigos potenciais, tarefa que não pode ser entregue com exclusividade aos militares. Pressionado pelo tarifaço americano, Lula tem ensaiado aproximar-se da China como parceiro em reindustrialização e defesa, mas aqui vale a ressalva de Domingos: sair da tutela de Washington para a de uma potência euroasiática não é o mesmo que conquistar autonomia.
Há ainda a dimensão interna, e é aqui que a reflexão toca o ponto mais delicado. Leirner, pesquisador de longa data das relações civis-militares, observa que o orçamento da defesa consome cerca de três quartos de seus recursos com pessoal, aposentadorias e pensões, perfil que destoa do padrão internacional e revela uma instituição voltada sobretudo à própria reprodução, resistente a reestruturações profundas, inclusive quanto à hierarquia e ao número de oficiais-generais. Domingos lembra que o requisito primeiro da soberania é a coesão social, comprometida quando a maioria não se reconhece em um Estado percebido como injusto, e que as Forças Armadas, historicamente mobilizadas como tropa de choque das elites, da repressão a Canudos às operações de Garantia da Lei e da Ordem nas periferias, precisam se concentrar no adversário externo e abandonar a tutela sobre a ordem social, o que passa por rever a ambiguidade do Artigo 142 da Constituição.
Essa crítica interpela diretamente a fórmula aqui proposta. Recolocar a política de defesa no centro do Estado, sem recolocar os militares no centro da política, é objetivo justo, mas talvez não tão simples quanto sugere. A experiência recente, do 8 de janeiro aos impulsos golpistas de 2022, mostra que a instituição militar carrega uma autonomia política que o mero reequipamento não dissolve, e pode até reforçar. Não há política de defesa verdadeiramente soberana sem, no mesmo movimento, uma reforma do lugar que as Forças Armadas ocupam na democracia brasileira.
Talvez resida aí a principal novidade, e o principal risco, de um eventual quarto mandato. Se Lula 1 foi marcado pelo combate à fome, Lula 2 pela expansão do consumo e Lula 3 pela reconstrução institucional após a ruptura democrática simbolizada pelos atos de 8 de janeiro, um possível Lula 4 parece ensaiar outra ambição: transformar a soberania nacional em eixo articulador entre desenvolvimento econômico, transição energética, inovação tecnológica e defesa.
Ainda é cedo para saber se essa agenda encontrará respaldo suficiente dentro da própria esquerda, ou mesmo nas Forças Armadas, e se saberá distinguir o reequipamento necessário da reforma institucional indispensável. Mas o discurso da convenção deixa uma indicação importante: pela primeira vez em muitos anos, um presidente oriundo da esquerda brasileira não apenas incorpora a defesa nacional ao centro de seu projeto político, como reivindica esse tema para além das fronteiras ideológicas que historicamente o separaram do campo progressista. Se essa inflexão se consolidará como política de governo ou permanecerá apenas como estratégia de campanha, somente os próximos anos poderão responder. Uma coisa, porém, parece evidente: a invasão da Venezuela recolocou a soberania no centro da política brasileira, e, desta vez, o debate chega pelas mãos de quem durante décadas foi identificado prioritariamente com a agenda dos direitos sociais.
*Marcio Ferreira é Doutorando em Sociologia Política, PPGSP/IUPERJ | UCAM Jornalista e Pesquisador do Grupo de Estudos Religião e Cidades (RE-CID)




