Mudanças climáticas e saúde mental: quando nem os anciãos indígenas e quilombolas conseguem mais entender a natureza*

Por Izabela da Silva Jatene, Universidade Federal do Pará (UFPA); James Ferreira Moura Junior, Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab); Juliana Maria Pereira Fleury, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Rute Morais Souza Anacé, Universidad de Salamanca, no The Conversation

Antes, os mais velhos indígenas e quilombolas olhavam para o céu, observavam o comportamento dos pássaros, o florescimento das árvores, a subida dos rios e sabiam quando era tempo de plantar, pescar ou se preparar para a cheia. Hoje, em muitos territórios indígenas e quilombolas do Brasil, esses sinais já não seguem o ritmo conhecido há gerações. O que, durante séculos, orientou a vida coletiva, tornou-se imprevisível.

E quando a natureza muda de linguagem, não é apenas o clima que entra em crise. Também entram em crise a segurança alimentar, os conhecimentos ancestrais, o sentimento de pertencimento e a saúde mental de comunidades que sempre aprenderam a viver em profunda integração e diálogo com a floresta, os rios e as estações.

João, líder do Quilombo do Cumbe, no litoral do Ceará, faz uma pausa antes de continuar sua história. Durante gerações, sua comunidade aprendeu a observar o comportamento das nuvens, dos ventos, dos pássaros e das lagoas para decidir quando plantar, pescar ou esperar a chegada das águas. Esse conhecimento nunca esteve escrito em livros, foi construído pela convivência diária com o território e transmitido de geração em geração.

Hoje, porém, João afirma que os sinais da natureza já não seguem o mesmo ritmo de antes. As estações se dividiam entre seis meses de chuva e seis de estiagem; hoje, predominam longos e severos períodos de seca. Lagoas, que faziam parte da vida da comunidade, desapareceram, gerando imenso luto ecológico. Os mais velhos e sábios passaram a duvidar das previsões que, durante décadas, orientaram a vida no quilombo e eram transmitidas de geração em geração.

A milhares de quilômetros dali, agricultores da planície de Konya, na Turquia, relataram um sentimento semelhante. Depois de anos de seca e da exploração intensa das águas subterrâneas, enormes buracos começaram a surgir inesperadamente, engolindo plantações e ameaçando casas. “Vivo com medo constante”, contou um agricultor ao descrever uma paisagem que já não reconhece.

No Paraguai, outra reportagem acompanhou entregadores que enfrentam temperaturas superiores a 40 °C nas horas mais quentes do dia. Muitos relataram fadiga extrema, dores de cabeça, tonturas e até desmaios provocados pelo calor. Nos Estados Unidos, uma terceira investigação mostrou como trabalhadores rurais convivem com temperaturas cada vez mais perigosas, transformando atividades antes rotineiras em riscos permanentes à saúde.

Um ruptura além da mudança climática

Nossas inserções em diferentes territórios indígenas e quilombolas sugerem que, no Brasil, a crise climática acrescenta uma dimensão ainda pouco explorada nessa conversa global. Ao longo dos últimos anos, temos visitado diferentes territórios devido ao desenvolvimento de pesquisas participativas por parte de algumas universidades e às ações dos Ministérios dos Povos Indígenas e da Igualdade Racial.

Apesar das enormes diferenças entre os biomas da Amazônia, da Caatinga, do Cerrado e da Mata Atlântica, uma mesma preocupação aparece repetidamente nas conversas com as lideranças: a natureza continua sendo observada, mas seus sinais já não correspondem à forma como se manifestavam durante séculos.

Essa ruptura vai muito além da alteração do clima. Quando os ciclos das chuvas deixam de coincidir com o tempo do plantio, quando os rios já não enchem na época esperada ou quando animais e plantas mudam seus comportamentos, não é apenas a produção de alimentos que se torna incerta. Também se fragiliza um sistema de conhecimentos ancestrais que sempre orientou a vida coletiva.

A mesma preocupação aparece a mais de dois mil quilômetros dali, na Amazônia. Em comunidades quilombolas do arquipélago do Marajó, onde a agricultura familiar sempre dependeu do ritmo das chuvas e das águas, as mudanças climáticas deixaram de ser uma previsão científica para se tornarem uma experiência cotidiana. Hilário, líder comunitário, conta que as famílias já não conseguem confiar no calendário que orientou gerações anteriores.

O período de plantio mudou, a produção diminuiu e áreas tradicionalmente cultivadas permanecem alagadas por mais tempo ou secam antes do esperado. “A gente sempre viveu da terra”, explica. “Mas hoje já não sabemos mais quando ela vai responder.”

De repente, a natureza fala uma nova língua

Essa sensação de estranhamento também atravessa diferentes povos indígenas brasileiros. Durante nossos projetos, anciãos descreveram um fenômeno semelhante: árvores que florescem em épocas inesperadas, rios que enchem antes ou depois do habitual, peixes que mudam de rota e animais que deixam de aparecer nos períodos conhecidos pelas comunidades. Para quem cresceu aprendendo a interpretar esses sinais, não se trata apenas de uma mudança ambiental.

É como se a floresta falasse uma língua diferente. Durante séculos, povos indígenas e quilombolas desenvolveram formas sofisticadas de interpretar o comportamento das águas, dos ventos, dos animais, das plantas e do céu. Esse conhecimento não foi produzido em laboratórios. Foi construído pela observação paciente do território, acumulado ao longo de gerações e continuamente testado na prática cotidiana. É ele quem permite reconhecer o momento certo para plantar, prever enchentes, localizar peixes, identificar frutos ou compreender os ciclos da floresta.

Quando esses sinais deixam de corresponder ao que sempre significaram, não é porque o conhecimento tradicional falhou. É porque o clima mudou mais rapidamente do que qualquer geração havia experimentado.

No Baixo Tapajós, entre o rio, a floresta e os igarapés do território Kumaruara, a crise climática também mudou a forma como as pessoas se relacionam com o lugar onde vivem. “Essa seca foi diferente. Houve um momento em que o igarapé secou e as famílias foram obrigadas a sair.” O relato de Tainan Kumaruara descreve muito mais do que um evento climático extremo.

Quando um igarapé desaparece, a comunidade não perde apenas uma fonte de água. Perde caminhos, lugares de encontros, memórias e referências construídas ao longo da vida, afinal, como diz o poeta paraense Ruy Barata, na Amazônia “Este Rio é minha Rua”. Para Arlete Kumaruara, liderança da comunidade, a seca extrema deixou marcas que continuam presentes mesmo depois da volta das chuvas. “A gente não tinha água, não tinha como sobreviver… e tudo isso afeta o psicológico, principalmente o das mulheres e das crianças.”

Estratégias de adaptação

Naquele momento ficou evidente que estávamos diante de uma dimensão das mudanças climáticas que dificilmente aparece nos relatórios científicos. Quando um rio seca, perde-se água. Quando uma floresta é degradada, perde-se biodiversidade. Mas quando desaparecem os sinais que permitiam aos anciãos interpretar a natureza, perdem-se também importantes elementos simbólicos que se traduziam em formas de transmitir conhecimento, no fortalecimento de vínculos entre gerações e na construção da segurança sobre o futuro.

Em praticamente todas as comunidades, as conversas também revelaram estratégias de adaptação. Famílias experimentam novas variedades agrícolas, ajustam o calendário de plantio, diversificam os cultivos e compartilham observações sobre as mudanças no comportamento da floresta, dos rios e dos animais.

Em muitos territórios, jovens acompanham os mais velhos nas atividades de pesca, agricultura e coleta, registrando conhecimentos que antes eram transmitidos apenas pela oralidade. Ao mesmo tempo, pesquisadores, organizações comunitárias e povos tradicionais constroem, de forma colaborativa, novas maneiras de combinar ciência e conhecimento ancestral para compreender um clima em constante mudança.

As mudanças climáticas nos diversos territórios de povos tradicionais demandam políticas públicas concretas e o fortalecimento das gestões municipais para que estas possam assumir as responsabilidades nas redes de proteção e promoção social. Contudo, o que observamos são as comunidades desenvolvendo estratégias de adaptação e mitigação a partir das redes construídas entre si, com baixa responsabilização do Estado.

Essas iniciativas mostram que o conhecimento tradicional não desapareceu, como demonstra o povo indígena Anacé. Pelo contrário, ele continua sendo uma das ferramentas mais importantes para compreender as transformações ambientais em curso. O desafio é que esse conhecimento foi construído a partir de padrões ecológicos relativamente estáveis ao longo de muitas gerações.

Hoje, a velocidade das mudanças climáticas obriga comunidades inteiras a reinterpretar continuamente uma natureza que já não responde aos mesmos sinais. Essa talvez seja a principal contribuição que povos indígenas e quilombolas oferecem ao debate internacional sobre mudanças climáticas.

As histórias que ouvimos no Brasil acrescentam uma nova camada a esse retrato global. Elas mostram que as mudanças climáticas também podem romper os sistemas de conhecimento que orientaram a relação entre seres humanos e a natureza ao longo de séculos. Quando os sinais da floresta, dos rios, dos ventos e das chuvas deixam de corresponder ao que sempre significaram, não desaparece apenas uma forma de prever o tempo. Desaparece parte da memória ecológica construída coletivamente por gerações.

Izabela da Silva Jatene, Professora Associada do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Pará (UFPA); James Ferreira Moura Junior, Psicólogo comunitário e Professor, Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab); Juliana Maria Pereira Fleury, Presidente da Associação pela Saúde Emocional, MBE em Responsabilidade Social e Terceiro Setor, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Rute Morais Souza Anacé, Indígena do povo Anacé e doutora em Ciências Sociais, Universidad de Salamanca.

*O The Conversation Brasil e o Pulitzer Center – uma das instituições jornalísticas mais conceituadas do planeta na divulgação dos maiores desafios humanos, ambientais e geopolíticos da atualidade – iniciam hoje a segunda edição de uma parceria que vem se consolidando: de hoje até outubro, publicaremos aqui artigos sobre os efeitos das mudanças climáticas sobre a qualidade de vida e as condições de trabalho, transporte e alimentação da humanidade e dos seres vivos como um todo. Análises de cientistas colaboradores do TCBrasil que estudam o tema em busca de soluções, inspiradas por reportagens dos jornalistas investigativos do Pulizter Center que atuam nas redações mundo afora. E no primeiro texto, abaixo, a antropóloga da Universidade Federal do Pará (UFPA) Izabela da Silva Jatene e sua equipe relatam como as mudanças no clima afetam o bem estar e a saúde mental dos velhos indígenas, quilombolas e outros veteranos de povos originários que vêm se alterarem, diante dos seus olhos, os ciclos de uma natureza que aprenderam a reconhecer como imutáveis, através da transmissão de conhecimentos milenares. Uma harmonia milenar, que agora corre o risco de se perder.

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

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