Para além das tensões entre reformistas e radicais, a aliança tática do campo progressista mostra-se indispensável para frear a ameaça neofascista
“Se quiser ir rápido, vá sozinho. Se quiser ir longe, vá acompanhado”
(Sabedoria popular africana).
1.
Não é preciso ter uma avaliação exaltada destes últimos três anos e meio, um legado positivo, quando comparado com os seis anos anteriores, mas limitado, dizendo o mínimo, para compreender que a eleição de Lula é vital, por duas razões:
(i) porque a alternativa real é o perigo catastrófico que Flávio Bolsonaro representa, indo além até do que seu pai queria fazer e não conseguiu, como a subversão do regime democrático-liberal, recolonização subordinada aos EUA, privatização da Petrobrás e bancos públicos, avanço das fronteiras agrícolas na Amazônia, desconstitucionalização dos pisos para educação e saúde, desvinculação do salário-mínimo como piso previdenciário, a redução da maioridade penal para dezesseis anos, a impunidade da violência contra a mulher, e muito mais.
(ii) Porque, em perspectiva mais histórica, quando pensamos “grande”, na escala dos últimos cinquenta anos, um mínimo de lucidez deve admitir que o papel de conjunto da esquerda, moderados e radicais, foi chave para pelo menos evitar o pior. Se o governo Dilma Rousseff e seu “giro fiscalista” não foi inocente diante das condições que impediram uma mobilização de massas para bloquear o impeachment, é também inescapável que sem Lula não teria sido possível derrotar Bolsonaro em 2022.
E por esquerda não devemos considerar, somente, o PT e outros partidos como o PSol, porque a esquerda é maior do que suas expressões institucionais. A esquerda são milhares de ativistas em muitos movimentos sociais: operário e sindical, estudantil e populares, feministas e indígenas, LGBT’s e ambientais, culturais e de direitos humanos, editoras e portais, jornais e rádios, e por aí vai.
A estratégia da extrema direita é virar a mesa, indiferentes às diferenças que nos separam entre reformistas e radicais, e impor uma derrota histórica irreversível e por prazo indefinido, como foi em 1964. Desconsiderar que Donald Trump está na presidência dos EUA, o mapa da América do Sul é um pesadelo, e Cuba cercada agoniza seria imperdoável.
Neste marco, a esquerda brasileira tem recebido muitas críticas. Umas mais justas do que outras, porque tem de tudo. Aquelas que mais doem, ainda quando necessárias. são as que fazemos uns aos outros. Faz parte. Estas discussões são quase sempre reduzidas a uma escala política imediata, de alguma forma estreita, mesmo se tratamos de um balanço do recente governo Lula. Mas, e na grande dimensão da avaliação histórica?
2.
As respostas mais óbvias são duas e antagônicas. Ou o balanço é a exaltação das reformas das gestões lideradas pelo PT, ou é a condenação do papel da moderação refrmista porque não fizemos a revolução. As duas têm algum grão de verdade. Mas nada é tão simples em um país em que a classe dominante não aceita sequer reformas “melhoristas”, e a classe trabalhadora e a maioria popular não acumulou ainda a consciência e disposição de luta que é necessária para a precipitação de uma situação revolucionária.
O que mudou na “alma” da esquerda brasileira nestes últimos quarenta anos? Se diz que a alma é a essência que anima a consciência humana que nos define. A metáfora fica mais bonita quando “poetizamos” uma imaterialidade. Dizemos algo sobre o coração de uma pessoa, quando pensamos que a conhecemos bem. Abusando um pouco da imagem podemos dizer, que a esquerda tem, também, uma “alma”.
As últimas gerações da esquerda brasileira, aquelas que chegaram à vida adulta desde a fase final da luta contra a ditadura até hoje, têm pelo menos dois “corações’: o democrático e o igualitarista. São estas duas “paixões” que conquistaram influência de massas. Até aqui, viemos, e o que foi tem muita força. Por que tem sido assim exige considerar muitos fatores, objetivos e subjetivos, entre eles o papel de Lula não foi menor, mas é assim.
O nacionalismo anti-imperialista foi muito menor que na Venezuela, por exemplo, e se expressou em alguns momentos excepcionais, como nas manifestações contra a invasão do Iraque, ou mais recentemente contra o tarifaço de Donald Trump, mas na dimensão de mobilizações de vanguarda. O socialista, entendido como anticapitalista, foi muito menor que na Argentina, e bateu somente no peito de dezenas de alguns milhares de ativistas.
O coração que sempre bateu mais forte foi o democrático. Não é nenhum exagero polêmico afirmar que, se ainda vivemos hoje em um país com liberdades democráticas, foi porque a esquerda brasileira lutou com todas as suas forças pela derrubada da ditadura, e até sacrificou vidas de alguns dos melhores entre nós. As formas limitadas e deformadas, às vezes degeneradas, do regime democrático-eleitoral não diminuem a imensa vitória histórica que foi o fim da ditadura.
3.
Seria um excesso ou injusto não reconhecer que lideranças liberais – como Ulysses Guimarães, entre alguns outros, mas não muitos – lutaram, também, pela democracia. Mas a maioria dos capitalistas – a “massa da burguesia” no vocabulário de Karl Marx – apoiaram a ditadura por duas décadas, e a extrema-direita a reivindica. O compromisso da esquerda com a luta pelas liberdades foi posto à prova uma segunda vez, em condições extremas, na luta pela defesa do mandato de Dilma Rousseff, na resistência à ofensiva da extrema-direita que culminou com a prisão de Lula e eleição de Jair Bolsonaro, na oposição ao governo do neofascista e, finalmente, na denúncia do golpismo e campanha contra a anistia do ano passado.
O coração igualitarista começou a bater mais forte quando as greves incendiaram o país na década de oitenta, e o PT conquistou a posição de principal partido de esquerda. O igualitarismo latu sensu é a denúncia da desigualdade social e injustiças. Este impulso é muito poderoso e insubstituível para mudar a sociedade. Nos anos oitenta, auge do ascenso sindical, assumiu a forma classista.
A força do lulismo depois dos anos 2000 foi construída pela transferência de renda para os mais pobres e repousa neste instinto, que pulsa em milhões. O impulso dos movimentos de mulheres, negros e LGBT’s, depois de junho de 2013, se alimenta, também, desta indignação contra a opressão.
O projeto político dominante nesta etapa histórica da esquerda foi, reformista. O reformismo não é somente uma doutrina, é uma estratégia: consiste, grosso modo, em lutar nos limites do capitalismo por reformas que ampliem direitos sociais, evitando rupturas, por dentro das regras do regime democrático. Obedece a um cálculo: tensionar uma ruptura precipitará um confronto que não possível de vencer.
O PT usou muito vocabulário marxista, mas nunca foi um partido marxista, embora algumas tendências minoritárias sempre tenham sido. Cultivou afinidades, mas nunca foi também, a rigor, um partido socialdemocrata no formato europeu, porque estamos na periferia do sistema mundial, e porque tem militância. Manteve relações com o PC da Alemanha Oriental até 1989, mas nunca se identificou com o aparelho dos partidos alinhados com a URSS. Estreitou relações com o PC cubano, os sandinistas da Nicarágua, a Farabundo Marti de El Salvador e com o governo de Chávez na Venezuela e nos anos noventa, liderou a formação do Foro de São Paulo, mas nunca foi um partido anti-imperialista radical.
Afinal o que é o PT? O PT é o maior partido que a classe trabalhadora brasileira construiu em sua história. Conheceu uma gênese nos anos oitenta, o apogeu na virada do milênio, e mergulhou em decadência na década passada, mas se recuperou diante da tragédia que foi o governo de Jair Bolsonaro.
4.
O PT é um tipo especial de partido de esquerda. É um partido eleitoral reformista, mas não mantém relações orgânicas com a burguesia. É um aparelho eleitoral profissional, mas não porque concorre a eleições. É eleitoral porque depende, há muitas décadas, dos mandatos parlamentares e do financiamento público para sobreviver. É reformista, não porque luta por reformas, mas por que defende a regulação do capitalismo ou a colaboração de classes. A condição eleitoral e uma política reformista não transformam o PT em um partido burguês.
Ao longo desta longa etapa manteve-se viva, também, a esperança, em distintas correntes e organizações minoritárias, em uma aposta revolucionária. Os marxistas têm três paixões em um coração revolucionário. Consideram a luta pela igualdade indivisível da luta pela liberdade. Seu programa é o socialismo. Somos igualitários, libertários, anticapitalistas e internacionalistas.
Nossa aposta na revolução brasileira não deve nos impedir de ser um ponto de apoio para que a esquerda moderada liderada por Lula se mantenha no governo, diante da ameaça de recolonização colocada pelos EUA, e de regressão autoritária pelo bolsonarismo. O compromisso com o igualitarismo explica a confiança na luta da classe operária, trabalhadores, juventude, mulheres, negros, LGBT’s e todos os povos oprimidos.
O engajamento libertário explica o entusiasmo com as formas mais avançadas de auto-organização popular, o impulso de experiências de democracia direta participativa e plural, os reflexos antiburocráticos, a defesa das liberdades democráticas. O internacionalismo explica a solidariedade com as lutas em escala mundial, as campanhas contra o imperialismo e as guerras, o combate ecossocialista contra o aquecimento global, a necessidade da revolução.
Acontece que alimentar três paixões no mesmo coração não é simples. É necessária uma bússola para não se perder nas condições de terrível pressão hostil em que se realizam as lutas políticas. O que é progressivo e o que é regressivo? Essa bússola não pode ser outra, senão uma interpretação marxista da situação concreta. Mas não é simples. A paixão obreirista pode levar a expectativas infundadas na disposição de luta imediata da classe trabalhadora, ou seja, a esperança de que a relação social de forças evolua, rapidamente, para melhor.
A paixão libertária pode ser contaminada por idealizações democráticas. Direitos nunca são absolutos, porque estão sempre limitados por outros direitos. São sempre relativos. A experiência do processo venezuelano é plena de lições. A paixão internacionalista pode ser corrompida pelas pressões geopolíticas do campismo. Os princípios são indispensáveis. Mas o mundo é complicado, e a vida é dura. Os princípios não são o bastante. E estamos tão divididos, e ainda é tão grande a nossa solidão política que é muito fácil ceder às pressões poderosas que nos cercam. Não há gênios entre nós e temos pressa.
*Valerio Arcary é professor de história aposentado do Instituto Federal de São Paulo (IFSP). Autor, entre outros livros, de Ninguém disse que seria fácil (Boitempo). [https://amzn.to/3OWSRAc].




