Em nova série, autores alertam sobre os impactos ambientais na região de Lábrea, município localizado em área de forte pressão de desmatamento e crimes ambientais, e cujas ocupações podem se estender à região Trans-Purus. A perda de floresta nessa região seria catastrófica para o Brasil, pois ela é crucial para a reciclagem da água que é transportada para São Paulo e outras partes do sudeste e sul do Brasil pelos “rios voadores”.
Por Beatriz Figueiredo Cabral, Aurora Miho Yanai, Paulo Maurício Lima de Alencastro Graça, Maria Isabel Sobral Escada, Cláudia Maria de Almeida e Philip Martin Fearnside, em Amazônia Real
Publicamos um trabalho na prestigiosa revista Journal of Environmental Management [1], disponível aqui, cujo título significa “Desmatamento da Amazônia: Um futuro perigoso indicado por padrões e trajetórias em um ponto crítico de destruição florestal no Brasil.” Trata-se de uma análise do desmatamento no Município de Lábrea, Amazonas, que é um foco de desmatamento, grilagem e conflitos na região. Aqui trazemos estas informações em português.
Resumo
Nos últimos anos, a perda de floresta na Amazônia brasileira atingiu proporções alarmantes, com 2021 registrando o maior aumento em 13 anos, principalmente na Zona de Sustentável Abunã-Madeira, que abrange o sul do Amazonas, Acre e Rondônia. Isso acarreta repercussões ambientais, sociais e econômicas significativas em nível global e para as comunidades locais que dependem da floresta. Analisar os padrões e tendências de desmatamento auxilia na compreensão da dinâmica de ocupação e desmatamento em uma região crítica da Amazônia, permitindo inferir possíveis trajetórias de ocupação. Esse entendimento é crucial para identificar zonas de expansão do desmatamento e formular políticas públicas para contê-lo. As decisões do governo brasileiro em relação ao manejo da paisagem terão profundas implicações ambientais. Realizamos uma análise dos padrões e tendências de desmatamento até 2021 no município de Lábrea, localizado na porção sul do estado do Amazonas.
Os processos de desmatamento nessa área provavelmente se espalharão para a região adjacente do Trans-Purus, no oeste do estado do Amazonas, onde o maior bloco remanescente de floresta tropical da Amazônia está ameaçado pela construção de rodovias planejadas. Os polígonos de desmatamento anual, de 2008 a 2021, foram categorizados com base em tipologias de ocupação vinculadas a diversos atores e processos definidos para a região (por exemplo, difuso, linear, espinha de peixe, geométrico, multidirecional e consolidado). Esses padrões foram representados por meio de células de grade de 10 × 10 km. Os resultados revelaram que o território de Lábrea é predominantemente caracterizado pelo padrão difuso (estágio inicial de ocupação), concentrado principalmente em áreas protegidas. Padrões de ocupação avançados (multidirecional e consolidado) foram os principais contribuintes para o desmatamento durante esse período. As trajetórias de mudança observadas incluíram consolidação (30,8%) e expansão (19,6%) na porção sul do município, particularmente ao longo das estradas secundárias Boi e Jequitibá, que dão acesso a grandes posses rurais ilegais. Além disso, as trajetórias sem mudança (67%) apresentaram padrões de ocupação inicial próximos a rios e em áreas protegidas, provavelmente ligados a comunidades ribeirinhas e extrativistas. É crucial adaptar as medidas de controle do desmatamento com base nos tipos de atores e considerando os estágios de ocupação. As técnicas desenvolvidas neste estudo fornecem uma abordagem abrangente para a Amazônia e outras regiões tropicais.
As consequências do desmatamento para o Brasil e o mundo.
O papel central do desmatamento da Amazônia nas crises climáticas e de biodiversidade globais, bem como seus impactos ambientais e sociais na região amazônica, tornaram a contenção dessa destruição uma prioridade máxima tanto para o mundo quanto para os países amazônicos [2]. Com mais de 40% das florestas tropicais remanescentes do mundo, o Brasil é, de longe, o país mais importante em termos de impactos potenciais do desmatamento e da degradação florestal sobre o clima global [3]. Isso decorre não apenas da emissão anual substancial de carbono, mas também das emissões potenciais dos enormes estoques de carbono na biomassa florestal remanescente e no solo sob a floresta, caso sejam liberados pela degradação florestal devido ao aumento das temperaturas, à severidade da seca e aos incêndios florestais associados às mudanças climáticas [4, 5]. A liberação desse carbono ao longo de alguns anos constitui um fator potencialmente determinante para que o clima global ultrapasse um ponto de inflexão, além do qual as ações humanas voltadas à redução das emissões de gases de efeito estufa seriam incapazes de impedir o avanço do aquecimento global, que passaria a ser sustentado por mecanismo de retroalimentações positivas no sistema terrestre [6].
O município de Lábrea, foco do nosso estudo, está localizado na porção sul do estado do Amazonas e é adjacente à região Trans-Purus, uma vasta área que permanece em grande parte intocada devido à falta de acesso por estradas. A região Trans-Purus, localizada na porção oeste do estado do Amazonas, possui uma extensa área de “florestas públicas não destinadas”, termo que se refere a terras governamentais que não foram destinadas a um uso específico, como unidade de conservação, terra indígena ou projeto de assentamento. Essas florestas públicas não destinadas (conhecidas como “terras devolutas”) são as áreas mais atrativas para a ocupação ilegal por grileiros, pequenos agricultores organizados (“sem-terras”), madeireiros e outros grupos. Os processos de ocupação que ocorrem em Lábrea provavelmente se expandirão para a região Trans-Purus [7-9]. A região Trans-Purus enfrenta riscos de desmatamento devido às estradas planejadas para se ramificarem a partir da rodovia BR-319 (Manaus-Porto Velho). A rodovia BR-319 foi inicialmente construída em 1972-1973 e abandonada em 1988; recebeu “manutenção” a partir de 2015 e agora está prevista para “reconstrução”, aguardando aprovação da licença ambiental (Figura 1) [6, 10].
A perda da floresta na região Trans-Purus seria catastrófica para o Brasil, visto que essa área é crucial para a reciclagem da água que é transportada para São Paulo e outras partes do sudeste e sul do Brasil pelos ventos conhecidos como “rios voadores” [11, 12]. Os ventos predominantes na Amazônia sopram de leste para oeste devido ao efeito da rotação da Terra no fluxo de retorno da circulação de Hadley, e esses ventos trazem água evaporada do Oceano Atlântico. Aproximadamente metade da água que cai como chuva sobre a floresta amazônica é reciclada pelas árvores, que a liberam como vapor d’água que, juntamente com o vapor d’água restante proveniente diretamente do Atlântico, é transportado pelos ventos [13]. Os ventos de jato de baixos níveis da América do Sul são bloqueados pela Cordilheira dos Andes e giram para o sul e leste, transportando vapor d’água para São Paulo, outras partes do sudeste e sul do Brasil e para países vizinhos [14, 15]. Esse transporte é especialmente intenso durante dezembro, janeiro e fevereiro, quando a zona de convergência intertropical está em sua posição mais ao sul e os ventos encontram a parte mais alta dos Andes. Essa é a estação chuvosa no sudeste da América do Sul e o período crítico para o enchimento dos reservatórios que abastecem a cidade de São Paulo, bem como de muitos outros reservatórios no sudeste e sul do Brasil e em países vizinhos. A bacia do Rio da Prata, que inclui São Paulo, depende do vapor d’água da Amazônia para entre 16% e 70% de sua precipitação anual, segundo as quatro estimativas existentes [13, 16-18]. Uma seca catastrófica em 2014 deixou São Paulo, a quarta maior cidade do mundo, à beira da escassez de água, inclusive para consumo humano [19-21]. Em 2021, outra seca catastrófica atingiu essa região do Brasil [22, 23]. Essas secas resultam de alterações na temperatura dos oceanos, ligadas ao aquecimento global, e a expectativa é de que se intensifiquem com as mudanças climáticas projetadas [24, 25]. Essas mudanças aumentam a importância da preservação da floresta amazônica, especialmente na região Trans-Purus, pois não há mais margem para perdas de água transportada pelos “rios voadores”. [26]
Notas
[1] Cabral, B.F.; Yanai, A.M.; Graça, P.M.L.A.; Escada, M.I.S.; de Almeida, C.M.; Fearnside, P.M. 2024. Amazon deforestation: A dangerous future indicated by patterns and trajectories in a hotspot of forest destruction in Brazil. Journal of Environmental Management 354:art. 120354.
[2] Fearnside, P.M. 2021a. Deforestation in Brazilian Amazonia. In: E. Wohl (ed.) Oxford Bibliographies in Environmental Science. New York, EUA: Oxford University Press.
[3] Laurance, W.F.;Cochrane, M.A.; Bergen,S.; Fearnside, P.M.; Delamônica, P.; Barber, C.; D’Angelo, S.; Fernandes, T. 2001. The future of the Brazilian Amazon. Science, 291, 438-439.
[4] Barros, H.S.; Fearnside, P.M. 2019. Soil carbon is decreasing under “undisturbed” Amazonian forest. Soil Science Society of America Journal, 83(6), 1779-1785.
[5] Nogueira, E.M.; Yanai, A.M.; Fonseca, F.O.R.; Fearnside, P.M. 2015. Carbon stock loss from deforestation through 2013 in Brazilian Amazonia. Global Change Biology, 21, 1271–1292.
[6] Fearnside, P.M. 2022. Por que a rodovia BR-319 é tão prejudicial. Amazônia Real, série completa.
[7] Fearnside, P.M. 2021. O desmatamento da Amazônia. Amazônia Real-Série Completa.
[8] Fearnside, P.M. 2018. BR-319 e a destruição da floresta amazônica. Amazônia Real, 19 de outubro de 2018.
[9] Fearnside, P.M.; Ferrante, L.; Yanai, A.M.; Isaac Júnior, M.A. 2020. Trans-Purus, a última floresta intacta. Amazônia Real-Série completa.
[10] Santos, J.L.; Yanai, A.M.; Graça, P.M.L.A.; Correia, F.W.S.; Fearnside, P.M. 2023. Impacto simulado da BR-319. Amazônia Real, Série completa.
[11] Fearnside, P.M. 2004. A água de São Paulo e a floresta amazônica. Ciência Hoje, 34(203), 63-65.
[12] Fearnside, P.M. 2015. Rios voadores e a água de São Paulo. Amazônia Real, série completa.
[13] Zemp, D.C., Schleussner, C.-F.; Barbosa, H.M.J.; van der Ent, R.J.; Donges, J.F.; Heinke, J.; Sampaio, G.; Rammig, A. 2014. On the importance of cascading moisture recycling in South America. Atmospheric Chemistry and Physics, 14, 13.337–13.359.
[14] Nicolini, M.; Saulo, C.; Torres, J.C.; Salio, P. 2002. Enhanced precipitation over southeastern South America related to low-level jet events during austral warm season. Meteorologica, 27, 59–70.
[15] Arraut, J.M.; Nobre, C.A.; Barbosa, H.M.; Obregon, G.; Marengo, J.A. 2012. Aerial rivers and lakes: Looking at large-scale moisture transport and its relation to Amazonia and to subtropical rainfall in South America. Journal of Climate, 25, 543-556.
[16] van der Ent, R.J.; Savenije, H.H.G.; Schaefli, B.; Steele-Dunne, S.C. 2010. Origin and fate of atmospheric moisture over continents. Water Resources Research, 46, art. W09525.
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[18] Yang, Z.; Dominguez, F. 2019. Investigating land surface effects on the moisture transport over South America with a moisture tagging model. Journal of Climate, 2, 6627-6644.
[19] Nobre, C.; Marengo, J.; Seluchi, M.; Cuartas, L.; Alves, L. 2016. Some characteristics and impacts of the drought and water crisis in southeastern Brazil during 2014 and 2015. Journal of Water Resource and Protection, 8, 252-262.
[20] Cunha, A.P.M.A.; Zeri, M.; Deusdará Leal, K.; Costa, L.; Cuartas, L.A.; Marengo, J.A.; Tomasella, J.; Vieira, R.M.; Barbosa, A.A.; Cunningham, C. et al. 2019. Extreme drought events over Brazil from 2011 to 2019. Atmosphere, 10, art. 642.
[21] Fearnside, P.M. 2021. As lições dos eventos climáticos extremos de 2021 no Brasil: 2 – A seca no Sudeste. Amazônia Real, 20 de julho de 2021.
[22] Fernandes, V.R.; Cunha, A.P.M.; do Amaral, P.; Luz, A.C.; Leal, K.R.D.; Costa, L.C.O.; Broedel, E.; Alvalá, R.C.S.; Seluchi, M.E.; Marengo, J. 2021. Secas e os impactos na região Sul do Brasil. Revista Brasileira de Climatologia, 28, 561-584.
[23] Getirana, A.; Libonati, R.; Cataldi, M. 2021. Brazil is in water crisis — It needs a drought plan. Nature, 600, 218-220.
[24] Biastoch, A.; Boning, C.W. 2013. Anthropogenic impact on Agulhas leakage. Geophysical Research Letters, 40, 1138–1143.
[25] Coelho, C.A.S., de Oliveira, C.P., Ambrizzi, T. et al. 2016. The 2014 southeast Brazil austral summer drought: regional scale mechanisms and teleconnections. Climate Dynamics, 46, 3737–3752.
[26] Esta série traduz o trabalho Cabral, B.F., A.M. Yanai, P.M.L.A. Graça, M.I.S. Escada, C.M. de Almeida & P.M. Fearnside. 2024. Amazon deforestation: A dangerous future indicated by patterns and trajectories in a hotspot of forest destruction in Brazil. Journal of Environmental Management 354:art. 120354. Agradecemos ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) (PRJ15.125) e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) (Resolução 003/2019 e Processo 01.02.016301.000289/2021-33); Rede Brasileira de Pesquisa em Mudanças Climáticas (FINEP/Rede CLIMA) (Processo 01.13.0353-00), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) (Código de Financiamento 001), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) (Processo 2020/08916-8) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (Processo 312450/2021-4). Agradecemos também a José Ribeiro pelo apoio técnico em campo.




