SP: Escola premiada, diretor punido

O caso notável de Regis Ribeiro, que transformou uma escola despovoada e decadente num caso de recuperação reconhecido mundialmente. A decisão do governo paulista: afastá-lo, alegando picuinhas, sem diálogo com a comunidade e sem processo justo

Por Katya Braghini* e Juliana Fonseca O. Neri**, em Outras Palavras

Um educador que transformou uma escola conhecida como “Parque dos Pesadelos” em vencedora de um dos prêmios mais disputados da educação mundial acaba de perder o cargo que ocupava havia quase uma década. Regis Marques Ribeiro, professor de História e ex-diretor da EE Parque dos Sonhos, teve sua designação cessada em 2026, depois de um processo administrativo que se arrastou desde 2022 e culminou em uma penalidade de 45 dias de suspensão. Em resposta o próprio educador apresenta uma moção de apoio ao seu trabalho, pedindo que o caso seja reexaminado à luz de seu contexto integral.

Uma escola que virou símbolo, bem antes de virar um caso

Antes de ser processo, a EE Parque dos Sonhos era notícia por outro motivo. Construída em 2013 e em funcionamento desde 2014, a unidade tinha, quando este educador assumiu a direção em 2016, pouco mais de cem alunos e um histórico de furtos, brigas e depredações tão marcante que lhe rendeu o apelido informal de “Parque dos Pesadelos”. A instituição enfrentou um cenário crítico, com ocorrências frequentes de roubos, conflitos e depredação do patrimônio.

Dez anos depois, a mesma escola chegou a cerca de 1.200 matrículas o que mostra um crescimento superior a 1000% em relação aos 116 alunos de 2016. Deixou de registrar boletins de ocorrência por invasão ou vandalismo. No ano de 2025, o trabalho, construído em torno de acolhimento e cultura de paz, ganhou reconhecimento internacional quando a escola venceu a categoria “Superação de Adversidades” do World’s Best School Prize, da organização britânica T4 Education, disputado por instituições de ensino de todo o mundo.

Nenhum desses resultados nasceu, imediatamente, de um pacote de tecnologia. A recuperação começou quando o diretor passou a trabalhar junto ao corpo docente para reverter a evasão que havia reduzido a escola a pouco mais de cem estudantes, apostando em proximidade e na ideia freireana de que o aluno deve ser protagonista de sua própria transformação. O restante veio de projetos como patinação artística, vôlei, uma galeria de grafites nas portas das salas homenageando lideranças humanistas e um programa em que professores visitam as casas dos estudantes. Foi esse conjunto, com mais de 40 iniciativas curriculares e extracurriculares, que rendeu à escola também o ouro no SARESP de 2025 e o reconhecimento de sua merenda entre as dez melhores do estado.

O reconhecimento não ficou restrito ao prêmio. Na própria rede estadual, o nome do diretor passou a circular como referência em enfrentamento às violências no ambiente escolar, procurado por unidades que enfrentam o mesmo quadro de evasão, depredação e conflito que a EE Parque dos Sonhos enfrentou em 2016. Foi dessa reputação que nasceu também a articulação da rede internacional Escolas dos Sonhos, que conecta instituições de diferentes países em torno de uma ideia simples: a de que a escola pública pode ser o lugar mais seguro e mais desejado do bairro. O profissional que outras escolas procuram para aprender como se desarma a violência é, precisamente, o que a rede acaba de afastar.

O que estamos mesmo chamando de “inovação educacional”?

É aqui que o caso da EE Parque dos Sonhos se torna um bom espelho para um debate mais amplo e que exige cuidado, ao retirar um educador do posto de diretor. Nos últimos anos, consolidou-se nas políticas educacionais, privadas, mas excessivamente no mundo público, uma ideologia segundo a qual “inovar em educação’ significa, antes de tudo, digitalizar: adotar plataformas de ensino, sistemas de gestão de aprendizagem, aplicativos de mensuração de desempenho e ferramentas que prometem “personalizar” o ensino etc. Falam da era do “Super BI”. Denúncias recentes no campo da educação vêm chamando atenção para os riscos dessa equivalência. Sabe-se que as plataformas digitais se tornaram um dos instrumentos mais eficazes de disseminação de um currículo administrado, justamente sob o discurso da inovação tecnológica e da modernização pedagógica. Este fenômeno social também tem recibo acusações de discriminar totalmente as competências técnicas dos professores, precisamente porque os sobrecarregam com atividades ruins e desqualificadas. Depois, sabe-se que tais condições estão alinhadas a processo de racionalidade neoliberal que tende a reduzir a autonomia de docentes e discentes em nome da eficiência mensurável, ou mais do que isso, passa a torná-los elementos de ativação financeira por sua coprodução de dados, que são simplesmente negociados como ativos de capital. Neste último ponto, nem estamos mais falando de processos educativos propriamente ditos. A escola pública paulista se tornou celeiro do enriquecimento privado por meio dos tecnodados de plataformas e esta condição não tem absolutamente nada a ver com ensino de qualidade.

Nada disso nega que a tecnologia possa ter um papel pedagógico legítimo. O problema é a inversão de prioridades: quando a plataforma se torna sinônimo de inovação, o que não é digital tem sido lido como atraso. Mas, não é isso que vemos nos resultados como os apreciados pela E.E. Parque dos Sonhos em Cubatão. Não necessariamente vemos o excesso da matéria plataformizada e, ainda assim, os dados mensuráveis em indicadores concretos mostram a valorização que a escola conquistou com a sua comunidade nos últimos anos. A EE Parque dos Sonhos foi reconhecida mundialmente sem depender de nenhum tecnotrash de EdTech. Vemos o fortalecimento de vínculos comunitários, a mediação de conflitos e o enfrentamento das violências; a tecnologia da escuta com a presença de professores nas casas dos alunos; o pertencimento construído pela valorização da infraestrutura da instituição e uma gestão disposta a questionar quando a rede não entrega condições dignas, como no episódio da merenda.

A violência que não deixa marca

Há uma ironia difícil de engolir no desfecho. O trabalho que tornou a EE Parque dos Sonhos conhecida foi, no essencial, um trabalho contra a violência: mediação de conflitos, acolhimento, presença, reconstrução de vínculos onde antes havia furto e boletim de ocorrência. Foi por isso, e não por outra coisa, que a escola venceu a categoria “Superação de Adversidades”. E é justamente esse educador que é retirado da função por um gesto que tem, ele próprio, a estrutura da violência.

Violência institucional é isso: tem um agressor com um procedimento e uma cessação de designação que nenhuma comunidade escolar foi convidada a discutir. Este tipo de violência veio vestido de trâmite. Como resultado, produz a retirada de um educador exatamente do lugar onde seu trabalho foi reconhecido mundialmente. Há ainda uma segunda atingida, que não aparece no processo porque ele não a prevê: a comunidade escolar. Nenhum estudante, professor, funcionário ou família foi ouvido. Foram silenciados, porque o rito não abre espaço para eles. A escola que aprendeu que o vínculo é o que a sustenta, descobre que este tal vínculo não tem estatuto jurídico. Não entra na planilha, não pesa na decisão. Dez anos de construção de confiança cabem em um ato administrativo.

Vale perguntar, então, o que essa situação ensina agora. Durante uma década, a EE Parque dos Sonhos ensinou aos seus estudantes que o conflito se resolve pela escuta, que a presença desarma. Ensinava-se que aquele que erra deve ser acolhido antes de ser excluído. Foi essa pedagogia que virou prêmio internacional. Quando a mesma rede que celebrou o método resolve o seu próprio conflito pelo caminho oposto, ela ensina outra coisa, e ensina pelo mal exemplo, que torna fugaz aquilo que se promete como boa escola pública. O currículo oculto da decisão diz que o que vale é o trâmite, e que resultado, vínculo e comunidade são adereços.

A mentira que a moção expõe

Não se pode tratar como irrelevante o contexto em que esse diretor foi afastado, sob pena de esvaziar o próprio discurso de valorização que sustentou a celebração pública do caso. Se a inovação de Cubatão foi genuína o bastante para o palco internacional, ela também deveria ser levada a sério na hora de avaliar as circunstâncias do caso de afastamento de quem a dirigiu e fez a revalorização do espaço escolar público. Trata-se da vida profissional de um educador. Está incoerente, para não dizer maledicente, quando o poder estadual diz valorizar a inovação em seus discursos vazios, quando, na prática, age contra os interesses públicos e educativos, afastando o educador que alterou para melhor um quadro completamente desfavorável de escola pública.

O estado de São Paulo pune com afastamento o educador que conduziu a escola do abandono ao reconhecimento mundial. O poder público rechaça o resultado que diz almejar. O estado valoriza o tecnotrash de vigilância. O estado que retira um diretor de escola premiada, realmente não se interessa com “boa educação”. Há uma moção de apoio feita pelo próprio professor afastado, solicitando coerência para com o significado de boa escola pública. Entenda melhor o caso. Assine-a.

Nos últimos dias, a comunidade escolar do Parque dos Sonhos realizou um ato pela volta do diretor. Professores, alunos, funcionários e a comunidade como um todo participou da mobilização que gritava: “Volta, Régis!”

O professor Regis interpõe recurso administrativo contra a pena de suspensão por 45 dias que lhe foi imposta no âmbito do Processo Administrativo Disciplinar instaurado pela Portaria nº 386/2023. As acusações, referentes a supostas irregularidades ocorridas em 2021 e 2022, envolvem quatro infrações, segundo o documento: atraso na solicitação de vistoria do Corpo de Bombeiros após pagamento à empresa MP Medeiros; execução ultrarrápida de serviços complexos por essa mesma empresa em apenas 8 dias; pedido duplicado de verba do Programa de Dinheiro Direto na Escola Paulista (PDDE-Paulista) para renovação do Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB), que teria sido contratado pela Associação de Pais e Mestres (APM), em 2021; e execução ultrarrápida pintura e remoção de piso pela PM Barbosa em apenas 5 dias. Segundo o documento, a penalidade proposta foi a de demissão. O motivo legal para essa decisão residiria, pelo documento, na violação dos seguintes dispositivos da Lei nº 10.261/68: Artigo 241, incisos III, XIII e XIV, que se referem a deveres funcionais infringidos, e Artigo 256, inciso II, que classifica as condutas como “procedimento irregular de natureza grave”.

Em sua própria defesa, o recorrente sustenta que as acusações sobre o atraso e a duplicidade são manifestamente falsas e desprovidas de provas, tendo em mãos o histórico que comprova ser a empresa contratada, a responsável pelo agendamento da vistoria, e afirmando que solicitou a verba por ordem expressa de seu superior, tendo cancelado o pedido voluntariamente, antes de qualquer recebimento, sem causar dano ao erário. Quanto à rapidez das obras, rebate a punição à eficiência, explicando que ambas as empresas realizaram “força-tarefa” com equipes ampliadas e turnos noturnos, e que os três orçamentos foram apresentados com escolha do menor preço, sendo os serviços efetivamente prestados. Por fim, destaca a aprovação de todas as prestações de contas da escola (PDDE Federal e Paulista) em 2021 e 2022 pela Diretoria de Ensino, além do histórico de excelência e premiações da unidade, para reforçar a inexistência de má-fé ou conduta desidiosa. O educador pede a absolvição total, e a reforma da decisão, com base na ausência de irregularidades, dano ao erário, ou violação aos princípios administrativos.

A moção de apoio não questiona a existência do processo, nem propõe blindar ninguém da fiscalização pública. O que ela contesta é a desproporção entre a punição aplicada e a trajetória que a antecede e o silêncio sobre um episódio anterior, relatado pelo próprio professor, em que ele teria entrado em atrito com a Diretoria de Ensino, em 2017, ao questionar a oferta de merenda escolar baseada, por cerca de três meses, apenas em atum e sardinha enlatados. Segundo o relato reproduzido na moção, foi a partir desse enfrentamento que a relação entre a gestão da escola e setores da administração teria se deteriorado, num movimento que desembocaria, anos depois, na apuração sobre serviços de obras na unidade e, por fim, no afastamento.

*Doutora em Educação, professora e pesquisadora do PEPG em Educação: História, Política, Sociedade (PUC-SP), historiadora da educação.

**Doutora em Educação. Atua como Professora nos Programas de Pós-graduação em Educação, História, Política e Sociedade (EHPS) e Educação e no Mestrado Profissional Práticas Docentes no Ensino Fundamental da Unimes. Pesquisa políticas públicas em educação.

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