Primeiro Encontro de Rezadores Guarani Nhandeva fortalece a espiritualidade, a cultura e a tradição do povo

Entre rezas, memórias e saberes ancestrais, Yvy Katu reuniu, durante três dias, rezadores, lideranças, mulheres, parteiras e jovens

Por Ir. Maria Câmara Vieira e Carine Fontes Ribeiro – Cimi Regional Mato Grosso do Sul

Antes das palavras, veio a reza. Antes das decisões, veio a escuta. E, antes de tudo, veio a memória. Foi assim que começou, na Terra Indígena Yvy Katu, em Japorã, Mato Grosso do Sul, o 1º Encontro de Rezadores Guarani Nhandeva, realizado entre os dias 4 e 6 de setembro de 2026. Durante três dias, rezadores, lideranças, mulheres parteiras, jovens e representantes de diferentes comunidades se encontraram para fortalecer a cultura, a espiritualidade, a identidade e a tradição do povo Guarani.

Na região de Paloma Pykasu, no tekoha da família de Rosana Sirlei Ortiz, neta do saudoso guerreiro Rosalino Ortiz, Yvy Katu tornou-se espaço de oração, memória, diálogo e decisões. Representantes de Pirajuí, Potrero Guassu, Sombrerito, Fortuna Guassu, no Paraguai, Pyelito, Ý Po’i, Dourados, Porto Lindo, Yvy Katu e Takua Jú chegaram trazendo suas histórias, seus conhecimentos e suas experiências.

Cada tekoha trouxe sua própria caminhada. Juntos, formaram uma grande roda de escuta e partilha, reafirmando uma convicção que atravessou todo o encontro: a cultura permanece viva quando a sabedoria dos mais velhos encontra a presença e a participação das novas gerações.

O encontro começa na reza

Na sexta-feira, 4 de setembro, as delegações chegaram a Yvy Katu. Após as acolhidas e apresentações, os participantes se reuniram no oga pysy para o ritual de jehovasa, conduzido pelos ñanderukuera, os rezadores tradicionais.

O encontro começou pela espiritualidade. Antes das discussões, das reflexões e das decisões, a reza preparou o caminho e reuniu os participantes em torno de uma responsabilidade comum. Foram apresentados os rezadores, as lideranças, os jovens e os yvyra’ija que acompanhavam as delegações.

A cultura permanece viva quando a sabedoria dos mais velhos encontra a presença e a participação das novas gerações

A abertura deixou evidente o sentido profundo do encontro: reunir diferentes gerações para rezar, lembrar, escutar e refletir sobre o ser Guarani e sobre os caminhos necessários para manter viva a cultura.

Terra, águas e conhecimentos tradicionais

No sábado, as atividades começaram cedo. Durante a reunião, foram abordadas a cultura dos tekoava, as tradições Guarani e a resistência dos povos indígenas. Também foram discutidos os desafios relacionados à defesa dos territórios, os ataques durante as retomadas, o desmatamento, o uso de agrotóxicos e a redução das nascentes.

A professora Edna de Souza, filha de Marçal de Souza Tupã’i, grande liderança e mártir da causa indígena, falou sobre a violência territorial e os conflitos enfrentados pelos povos indígenas na defesa de seus territórios. Os participantes manifestaram preocupação com as doenças relacionadas à contaminação das águas por agrotóxicos e com os impactos ambientais que atingem diretamente a vida das comunidades.

Para os participantes, defender o território significa defender a própria vida, a memória, a espiritualidade, os conhecimentos e o futuro das comunidades

No final da tarde, Matias Benno, representante do Conselho Indigenista Missionário (CIMI-MS), falou sobre os avanços relacionados à demarcação dos territórios indígenas e ressaltou que a terra não pode ser tratada como mercadoria. Destacou, ainda, a importância da luta das comunidades pela proteção de seus territórios e pela garantia dos direitos dos povos originários.

Outro tema de grande preocupação foi a desvalorização dos ñanderukuera, os rezadores mais antigos, e dos conhecimentos tradicionais, em meio ao crescimento das igrejas evangélicas nas aldeias. As falas reforçaram a necessidade de escutar as pessoas mais velhas, valorizar seus conhecimentos e garantir que seus ensinamentos sejam transmitidos às novas gerações.

A memória e a reflexão sobre o ser Guarani

Os participantes fizeram perguntas aos rezadores sobre a cultura Guarani, a origem do povo, os utensílios tradicionais, o modo de vida, a caça e a pesca. Esse momento de escuta possibilitou recuperar memórias e conhecimentos que fazem parte da identidade e da história do povo.

Também foi discutida a denominação Guarani Nhandeva e a origem desse nome. A partir das orações, das reflexões e dos conhecimentos tradicionais compartilhados, o rezador Luciano explicou que, segundo os conhecimentos tradicionais, o povo Guarani não possui fronteiras. Nesse processo de diálogo, apresentou Guarani Ka’aruaguá como uma denominação relacionada à identidade tradicional.

A reflexão foi retomada no domingo e, com base nas falas dos ñanderukuera, dos rezadores e das autoridades presentes, os participantes reafirmaram a importância da denominação Guarani Ka’aruaguá.

O encontro também reafirmou a necessidade de garantir maior espaço para a participação e a organização própria dos Guarani

A decisão foi vivida como parte de um processo maior de reconhecimento e fortalecimento da identidade. Mais do que uma mudança de palavra, a reflexão sobre o nome expressou um movimento de retorno às próprias raízes, à memória e aos conhecimentos guardados pelos mais velhos.

O encontro também reafirmou a necessidade de garantir maior espaço para a participação e a organização própria dos Guarani, inclusive em espaços como o Aty Guasu, para que suas demandas, seus conhecimentos e suas formas próprias de organização sejam devidamente representados.

A palavra das ñandesy

Após o almoço, as mulheres parteiras tradicionais, as ñandesy, participaram de uma roda de conversa. Elas compartilharam suas experiências e falaram sobre os partos tradicionalmente realizados nas comunidades, os cuidados com as gestantes, o uso de remédios e plantas medicinais e os ensinamentos transmitidos entre as gerações.

As mulheres manifestaram preocupação com o fato de que muitos desses partos tradicionais já não acontecem com a mesma frequência e, em alguns casos, deixaram de existir. A conversa destacou a necessidade de valorizar, registrar, transmitir e preservar esses conhecimentos.

Cuidar do nascimento, das mães e das crianças também é uma forma de preservar a cultura e fortalecer a vida comunitária. As ñandesy guardam conhecimentos que fazem parte da memória viva do povo e que precisam continuar encontrando espaço nas comunidades e no coração das novas gerações.

A dança e a reza mostraram que a tradição não é apenas memória. Ela vive no corpo, na palavra, no canto, na presença dos jovens e na responsabilidade dos mais velhos em ensinar

À noite, foram realizadas demonstrações de danças tradicionais dos Guarani Ka’aruaguá e dos yvyra’ija. Por volta das 21h30, os participantes se reuniram novamente em um momento de jerokytakuara, acompanhado pelo canto de jehovasa, conduzido pelos ñanderukuera.

A dança e a reza mostraram que a tradição não é apenas memória. Ela vive no corpo, na palavra, no canto, na presença dos jovens e na responsabilidade dos mais velhos em ensinar. Naquele momento, a cultura tornou-se presença compartilhada. Os conhecimentos que haviam sido refletidos durante o dia ganharam expressão na dança, na reza e na convivência comunitária.

A semente plantada em Yvy Katu carrega, assim, uma mensagem para o futuro: aquilo que é cuidado no presente poderá alimentar as próximas gerações

Sementes de continuidade

No domingo, 6 de setembro, as discussões sobre identidade, denominação e cultura foram retomadas. Em seguida, foi realizado o ñemongaraí, ritual de batismo e consagração das mudas e sementes que seriam plantadas na área da retomada.

Conduzido pelos ñanderu, de acordo com os conhecimentos e práticas tradicionais Guarani, o ritual deu ao plantio um sentido profundo de continuidade. As sementes simbolizaram o próprio encontro e o compromisso com a permanência da vida, da cultura e da organização do povo Guarani Ka’aruaguá.

A semente plantada em Yvy Katu carrega, assim, uma mensagem para o futuro: aquilo que é cuidado no presente poderá alimentar as próximas gerações. Da mesma forma, os conhecimentos, as rezas, os cantos, as danças e a memória precisam ser cultivados para que continuem florescendo.

Um caminho que continua

Os participantes decidiram que o próximo encontro será realizado no tekoha Potrero Guassu, no município de Paranhos, com o mês e a data ainda a serem definidos. Também ficou estabelecido que o encontro dos rezadores será realizado anualmente.

Foram escolhidos representantes de diferentes aldeias e tekoha para compor a equipe dinamizadora dos Guarani: Silvana Vera e Ronilson Ferreira, da Aldeia Pirajuí; Eldo, da Aldeia Cerrito; Virgílio, da Aldeia Porto Lindo; Solange, do tekoha Potrero Guassu; e Rosana Sirlei Ortiz, da Retomada Yvy Katu.

O encontro não acabou: continua nas comunidades, nos tekoha, nas palavras dos mais velhos, nos ensinamentos transmitidos às crianças e aos jovens

Por volta das 13 horas, o encontro foi encerrado com uma apresentação dos yvyra’ija da Aldeia Pirajuí. Ao longo de três dias, Yvy Katu foi espaço de oração, memória, escuta e decisão. Em cada reza, cada conversa, cada dança e cada semente plantada, o povo Guarani reafirmou que sua cultura permanece viva porque possui espiritualidade, memória, território e comunidade.

O 1º Encontro de Rezadores Guarani Ka’aruaguá não terminou com o encerramento dos trabalhos. Ele continua nas comunidades, nos tekoha, nas palavras dos mais velhos, nos ensinamentos transmitidos às crianças e aos jovens, nas rezas, nas sementes e na luta pela terra.

Guardião da vida e da palavra

Gratidão pelo que vivi e testemunhei em Yvy Katu.

Vi a força da reza,
ouvi a palavra dos mais velhos,
acompanhei a presença dos jovens,
das lideranças, dos ñanderukuera e das ñandesy.

Vi a memória sendo partilhada,
a cultura sendo celebrada
e a espiritualidade sendo vivida.

Agradeço por este encontro
e por tudo aquilo que ele despertou:
a memória, a identidade, a união
e o desejo de continuar fortalecendo o jeito de ser Guarani.

Peço que as palavras dos mais velhos
continuem sendo transmitidas às novas gerações
e que nenhum conhecimento ancestral se perca.

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