Grito dos Excluídos e Excluídas segue na teimosia e esperança em defesa da terra, moradia e direitos das mulheres

Manifestação também abordou a violência contra as mulheres, a soberania e a participação dos povos indígenas nas lutas sociais

Por Lígia Apel, do Cimi Regional Norte I

Mais de duas mil pessoas se reuniram em Manaus, no dia 7 de setembro, para participar do 32º Grito dos Excluídos e Excluídas. Realizado no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), o encontro promoveu debates e reivindicações em defesa da Terra, da paz e da moradia, das mulheres e da soberania nacional.

“As manifestações da população estão em todos os cantos gritando pelo direito à vida, e quando se grita junto, o povo se torna mais forte. Junto com as classes mais baixas da sociedade não indígena, estão os indígenas. Os povos indígenas estão juntos com os movimentos e coletivos abraçando todas as causas de luta, e por isso ficam mais fortes e resistentes”, afirmou a liderança indígena Rosângela Kambeba, conhecida como dona Rosa, da comunidade Puraquequara, na periferia de Manaus.

A sede do Inpa está localizada em uma área urbana que reúne fragmentos de mata nativa e espaços de preservação florestal destinados à pesquisa e à conservação ambiental. Foi nesse espaço que movimentos sociais, povos indígenas e outros grupos historicamente marginalizados se encontraram para reivindicar direitos e denunciar as desigualdades.

Com o tema permanente “A Vida em Primeiro Lugar”, a 32ª edição do Grito dos Excluídos e Excluídas adotou o lema “Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”.

Realizado em todo o país, o Grito surgiu na década de 1990 como contraponto às celebrações oficiais do Dia da Independência, em 7 de setembro. O objetivo é levar ao espaço público as reivindicações de grupos sociais que enfrentam exclusão, violência e falta de acesso a direitos.

Segundo os organizadores, a iniciativa procura tornar visíveis as dores e os sofrimentos que governos e autoridades tendem a ignorar. Em 1996, a ação foi assumida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e passou a se consolidar como uma manifestação de caráter ecumênico, vinculada às lutas populares por direitos.

A participação dos grupos excluídos nos espaços públicos deve ser compreendida como parte da construção de direitos e da reparação de desigualdades históricas

Para Guadalupe Peres, coordenadora das Pastorais Sociais da Arquidiocese de Manaus, o Grito dos Excluídos é uma das manifestações populares mais importantes do país por reunir movimentos do campo e da cidade, sindicatos, organizações de bairro, povos indígenas, quilombolas, pessoas em situação de rua, desempregados, trabalhadores informais, mulheres, negros e a comunidade LGBTQIA+, entre outros grupos.

“O movimento ressignifica a data 7 de setembro para questionar a soberania nacional a partir da realidade dos que vivem à margem da sociedade e funciona como um megafone desses grupos que raramente têm espaço nos debates políticos centrais”, afirmou.

Os eixos das atividades foram a ampliação da participação das minorias históricas, a pressão sobre o Estado brasileiro e os governos por políticas públicas e direitos, o fortalecimento da cidadania ativa e o questionamento da independência formal. “Não há verdadeira independência nacional enquanto houver exclusão social, miséria e desigualdade”, declarou Peres.

A coordenadora também destacou a permanência de desigualdades estruturais, do racismo, do machismo, da homofobia e da exclusão socioeconômica, apesar da ampliação dos meios digitais de comunicação.

“As redes sociais tendem a privilegiar discursos que geram engajamento por conflitos ou conteúdos de quem já detém privilégios, empurrando as pautas de grupos excluídos para a margem do debate público. As crises globais desproporcionais, climáticas, econômicas e sanitárias, afetam de forma muito mais severa as populações vulneráveis. E justiça social e democracia: afinal, uma sociedade só se consolida como democrática quando a pluralidade é real”, explicou.

Moradia: um direito

Manaus é marcada historicamente por processos de ocupação urbana. Desde o período colonial, passando pelo ciclo da borracha e pela instalação da Zona Franca, a cidade recebeu pessoas atraídas pela expectativa de melhores condições de vida.

A ausência de políticas habitacionais, a falta de recursos para organizar o setor e a pouca participação da sociedade nos debates sobre moradia contribuíram para o crescimento desordenado da cidade, segundo Dino Santos, assessor do Fórum Amazonense de Reforma Urbana (FARU).

“As pessoas vieram para a cidade atraídas pelas promessas de melhorias nas condições de vida e, como não há política habitacional, como faltam recursos para organizar o setor e não se promove debate com a sociedade sobre o problema, o efeito é a ocupação de forma desordenada pela comunidade sem teto, gerando as ocupações irregulares”, explicou.

A partir de estudos sobre a realidade habitacional da capital amazonense, o FARU estima um déficit de 120 mil moradias. Santos afirma que a ausência de políticas públicas leva famílias a ocupar áreas ociosas, inclusive terrenos que, segundo ele, foram grilados por especuladores, aumentando o risco de conflitos fundiários.

O Fórum também mapeou conflitos urbanos e rurais e situações de ameaça de despejo, incluindo casos envolvendo comunidades indígenas em contexto urbano. “Os dados de 2025 trazem que mais de 35 mil famílias no estado do Amazonas estão sob ameaça de despejo, sendo 16 de indígenas em contexto urbano. Se a gente multiplica isso por quatro pessoasporfamıˊliapessoas por família, quer dizer que em torno de 140 mil pessoas vivem o dilema de chegar um oficial de justiça, a polícia militar, em sua porta. E o que é pior, como tem sempre ocorrido, com muita violência”, denunciou Santos.

O FARU integra o Fórum Nacional de Reforma Urbana e reúne, no Amazonas, movimentos populares e sociais, organizações não governamentais, associações de classe e instituições de pesquisa

Segundo o assessor, ao longo dos quatro anos abrangidos pelo estudo, 380 famílias indígenas que vivem em contexto urbano foram despejadas de suas comunidades, em situações que ele descreve como violentas. As informações foram encaminhadas aos governos estadual, municipal e federal.

O FARU integra o Fórum Nacional de Reforma Urbana e reúne, no Amazonas, movimentos populares e sociais, organizações não governamentais, associações de classe e instituições de pesquisa. A articulação atua em defesa do direito à cidade e contra a segregação social e espacial. “Nosso papel é fazer a ponte entre a ausência da política e a necessidade de investimento, levar e pressionar os políticos a debaterem mais o direito fundamental à moradia e não mais criminalizar quem não tem onde morar”, afirmou Santos.

Entre as conquistas citadas pelo assessor está a criação da Comissão de Solução Fundiária do Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas. Ele também destacou a atuação conjunta com a Defensoria Pública do Estado, por meio do Núcleo de Moradia e Fundiária e da Câmara de Solução Fundiária. “A parceria já permitiu que mais de 15 mil famílias cessassem o medo de ter o toc-toc da polícia em sua porta para fazer o despejo”, comemorou.

Mulheres vivas

A violência contra as mulheres foi abordada a partir do depoimento de Edinelza Fernandes Frithz, mãe de Camila Vitória Frithz, jovem de 25 anos assassinada pelo ex-marido, o policial militar Olímpio Gomes Maia, em 2023. Edinelza relatou aos participantes as circunstâncias do crime e os comportamentos do agressor, incluindo as ameaças e os mecanismos de manipulação que, segundo ela, afetaram a filha e a família.

“Eu, como mãe, desconfiava do rapaz desde que minha filha começou a namorar, mas respeitei o desejo dela. E, em determinados momentos, até acreditamos na pessoa. Ajudamos os dois. Com o tempo, ele foi mudando. Cheguei a pedir várias vezes para minha filha se separar dele. Mas, ameaçada, tinha medo. Minha maior dor é não ter percebido que a violência já estava constante”, declarou.

Ela afirmou que o apoio dos amigos e o acolhimento recebido na paróquia ajudaram a aliviar o sentimento de culpa. Edinelza também disse confiar que a justiça será feita. O julgamento do acusado, inicialmente previsto para 18 de agosto, foi adiado para outubro de 2026. Sem compreender os motivos do adiamento, ela afirmou que continuará cobrando justiça pela filha e por todas as vítimas de feminicídio.

“A gente não pode, mesmo como homens, se calar diante do feminicídio que acontece em todo o Brasil. Aumentaram demais as mortes das mulheres, o desrespeito em relação às mulheres”, diz padre José Alcimar

“Transformei o meu luto em luta, e continuarei”, disse, agradecendo o espaço oferecido pelo Grito dos Excluídos para falar sobre a filha e outras mulheres vítimas de violência. “A Igreja hoje abriu as portas para minha luta. Aqui há uma voz que fortalece aquela mulher que está em casa, ameaçada e sofrendo em silêncio. A igreja precisa estar em campanha em favor da mulher, pelo direito e proteção à mulher. Nesse Grito está o grito de minha filha e de tantas mulheres”, afirmou. Edinelza defendeu que as vítimas de feminicídio não sejam esquecidas e que os responsáveis pelos crimes sejam responsabilizados.

Para o padre José Alcimar, vice-presidente da Cáritas Arquidiocesana de Manaus e assessor das pastorais sociais, a inclusão das mulheres como tema central do Grito representa uma defesa da vida e uma posição contrária à violência.

“A gente não pode, mesmo como homens, se calar diante do feminicídio que acontece em todo o Brasil. Aumentaram demais as mortes das mulheres, o desrespeito em relação às mulheres, então é importante levantar a voz junto com elas, denunciar e resistir à violência contra elas”, afirmou.

Indígenas: presente

A participação dos povos indígenas no Grito dos Excluídos também foi marcada pela presença de indígenas que vivem em contexto urbano em Manaus. “Ser indígena é ser indígena em todo lugar. O indígena que saiu da aldeia não deixou de ser indígena. O sangue dele nunca vai mudar”, afirmou a artesã Rosa Kambeba. Para ela, os conhecimentos indígenas sobre o cuidado com a natureza precisam estar presentes na vida urbana.

“Os primeiros zelosos foram os indígenas. A nossa mata, nosso rio, nossa floresta, só têm vida pelo zelo da sociedade indígena, que tem extremo cuidado com a Casa Comum. Essa sabedoria ancestral que o povo indígena carrega é do sangue. Hoje, vivemos tamanha degradação do ambiente: Super El Niño, temperaturas intensas, muita floresta desmatada. Não foi o indígena que causou. Não foram eles que subiram prédios, que desmataram para fazer empresas, todo esse cimento e asfalto. A sabedoria do zelo do indígena precisa estar no meio dessa sociedade, trazendo essa força ancestral. E aí, as pessoas olharem os indígenas como uma fonte de vida que transborda o cuidado”, defendeu.

O fortalecimento dos grupos de economia solidária depende do reconhecimento de práticas que associam produção, cultura e cuidado ambiental

Dona Rosa veio do interior do Amazonas há muitos anos em busca de melhores condições de vida. Atualmente, vive na comunidade Puraquequara, bairro distante de outras áreas de Manaus, e participa do Grupo de Mulheres Solidárias em Ação. Durante o Grito dos Excluídos, ela apresentou, junto com outros grupos de economia solidária, os artesanatos que produz.

“Essa economia que se criou através dos indígenas e dos grupos de economia solidária é sustentável, que nós trabalhamos com reutilização e temos, como indígena, nossas próprias características. Nosso artesanato vem da cultura, de gerações e gerações, sobretudo as pessoas que vêm lá do interior, onde estão os insumos. Usam as cascas que já não têm mais utilidade, usam a semente e não destroem a árvore para colher”, explicou.

Resistência e esperança

A programação terminou com uma missa celebrada por dom Samuel Ferreira de Lima. Durante a homilia, o bispo leu uma mensagem enviada por dom Joaquim Hudson, que comparou o Grito dos Excluídos e Excluídas ao encontro das águas que formam os rios da Amazônia. A imagem foi utilizada para destacar a presença de pessoas de diferentes bairros, comunidades, organizações e paróquias em uma manifestação comum.

“Pensemos no Grito dos Excluídos e Excluídas como o Encontro das Águas que se formam desde suas nascentes. Gente de todas as partes da cidade, de diversos grupos e organizações, comunidades e paróquias”, afirmou dom Joaquim na mensagem. O texto também destacou as reivindicações por terra, paz, moradia, direitos das mulheres, soberania e democracia.

“Gritamos profeticamente pela Defesa da Terra, Paz e Moradia. Gritamos profeticamente pelas Mulheres Vivas. Gritamos profeticamente pela Soberania e Democracia. Direitos de todas e todos e os direitos da natureza, sinais concretos da justiça ecossocial. Denunciamos e reivindicamos, sim, mas também celebramos a resistência, as conquistas e as teimosias e esperanças, pois confiamos em Deus e na força do Espírito Santo de Deus que faz nova todas as coisas”, afirmou.

Após a missa, os participantes seguiram em manifestação pelas ruas de Manaus, da sede do Inpa, no bairro Petrópolis, até a Bola do Coroado. O percurso foi marcado por palavras de ordem, denúncias e reivindicações por direitos, justiça e solidariedade.

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