No Seminário Nacional de Formação do Cimi, lideranças Pankararu, Kaiowá, Tupinambá, Juruna e Tapirapé compartilharam retomadas e denunciam violências sofridas
Por Ivan Cesar Cima – Coordenador do Cimi Regional Sul
“Nenhum presídio, nenhum Krenak, nenhum campo de concentração pode apagar um povo que avança”. A afirmação da liderança Pankararu Cleonice sintetiza a força das palavras apresentadas na segunda mesa do Seminário Nacional de Formação do Cimi, realizado em Luziânia (GO), nos dias 14 e 15 de setembro.
Com o tema “Retomadas: partilha das experiências e resistência dos povos”, a mesa reuniu lideranças indígenas que trouxeram para o centro do debate as lutas de seus povos pela terra, pela vida, pela memória e pelo direito de continuar existindo.
Mediada por Matias Benno, coordenador do Cimi Regional Mato Grosso do Sul, a mesa revelou que, para os povos indígenas, retomar um território não significa simplesmente recuperar uma área de terra. Significa retomar a vida, a cultura, a espiritualidade, a memória e o futuro.
Ao falar sobre a luta Pankararu e as ameaças da mineração no Vale do Jequitinhonha, Cleonice contrapôs duas concepções de riqueza. Enquanto os projetos econômicos enxergam os territórios a partir dos minerais que podem ser retirados do solo, os povos reconhecem sua riqueza nas plantas, nos rios, nos rituais, nos lugares sagrados e na possibilidade de viver em territórios livres de exploração.
“A retomada é a luta que garante o futuro, a identidade, a cultura, a religião, a educação e a saúde”, afirmou. Para ela, diante dos projetos que avançam sobre os territórios, retomar é também uma forma de afirmar a vida: “Se a gente quer os territórios livres e saudáveis, temos que fazer retomada”.
A demarcação que não chega e a violência que permanece
A liderança Kaiowá Cacilda Pereira trouxe à mesa a realidade enfrentada pelos povos Guarani e Kaiowá. A ausência da demarcação, afirmou, não produz apenas uma espera. Produz dor.
Assassinatos, torturas, atropelamentos, ataques aos territórios, barracos queimados e vidas permanentemente ameaçadas fazem parte de uma realidade que continua sendo enfrentada pelas comunidades. Mas a violência não conseguiu interromper a caminhada. Cacilda falou da relação dos Kaiowá com os matos e com as moradas dos Jara, os donos espirituais dos lugares.
Nessa relação com o território e com os seres que o habitam que o povo encontra também força para resistir
Sua fala terminou como um compromisso com a continuidade da luta: “Minha mãe morreu (assassinada), meus filhos foram torturados, minha família foi machucada, mas eu e meus filhos vamos avançar”.
Educação e organização para enfrentar os projetos de morte
Gilson Tupinambá apresentou a experiência de seu povo a partir de um processo de formação e organização construído no enfrentamento aos diferentes interesses que avançam sobre os territórios indígenas.
Foi preciso conhecer a Constituição, as leis, os artigos e as portarias. Também foi necessário identificar os diferentes agentes e interesses presentes nas várias frentes de exploração, da madeira ao garimpo e ao agronegócio.
Nesse caminho, a educação tornou-se instrumento de organização e resistência. A partir dela vieram articulações, conquistas e novas frentes de luta, entre elas a saúde. O povo também construiu seus próprios espaços de decisão e organização, assumindo o protagonismo na defesa do território.
“As retomadas de terra são, por excelência, a retomada da vida”, diz Gilson Tupinambá
Mas Gilson chamou atenção para algo fundamental: existe uma luta para fora, contra os grandes projetos, mas existe também uma luta para dentro, pela construção de formas próprias e saudáveis de ocupar o território.
A resistência, contudo, exige vigilância permanente. “Os inimigos não dormem”, lembrou. Diante das guerras de narrativa, é preciso ocupar os espaços, fortalecer as articulações e enfrentar os grandes projetos que ameaçam os territórios e os rios.
Ao recordar a mobilização das 500 lanças contra a Cargill, no rio Tapajós, Gilson reafirmou a capacidade dos povos de construir estratégias próprias de enfrentamento e defesa da vida.
A retomada dos espíritos e encantados
A liderança Juruna trouxe para a mesa a dor de um povo que precisa retomar aquilo que sempre reconheceu como seu. Nascido no Xingu, lembrou que seus pais e avós percorriam os rios apenas de remo. Para eles, aqueles lugares eram território, e ninguém deveria tocá-los. “Mas não é assim”, afirmou. Hoje, segundo relatou, existem cerca de 200 fazendas dentro daquele território.
Antes da luta externa, os Juruna compreendem que precisavam fortalecer o próprio povo. A luta espiritual, a preparação das comunidades e a presença dos encantados são parte inseparável da resistência. O Juruna questionou a demora do Estado em garantir os direitos territoriais dos povos indígenas e alertou para os riscos de transformar a chamada conciliação em negociação de direitos.
A mensagem deixada foi de atenção e resistência: não cair nas armadilhas que procuram transformar direitos originários em objetos de negociação
Entre os Tapirapé, a fala começou com um ritual para chamar os guerreiros. A memória dos antepassados, as pinturas, os cânticos e os elementos sagrados aparecem como fundamentos da luta territorial. O território foi demarcado em 1988, mas permanece, até hoje, sem ser totalmente desintrusado. A demarcação, portanto, não significou o fim da luta.
A experiência Tapirapé reafirma que a defesa territorial não pode ser separada da espiritualidade. As estratégias precisam ser construídas também em diálogo com o pajé e com os conhecimentos próprios do povo, inclusive para proteger as lideranças.
A retomada como caminho de futuro
As falas compartilhadas em Luziânia vieram de diferentes povos e territórios, mas encontraram um ponto comum: a terra não é mercadoria, e a retomada não é simplesmente uma disputa possessória. É uma luta contra o apagamento das memórias, a expulsão dos povos de seus territórios, a destruição dos lugares sagrados e os projetos que transformam rios, florestas e terras em mercadorias.
Retomar é reconstruir caminhos interrompidos pela violência colonial. É plantar novamente, recuperar os vínculos com os lugares, fortalecer a espiritualidade, educar as novas gerações e reconstruir a vida comunitária. As lideranças também deixaram um alerta: os direitos conquistados continuam ameaçados. Por isso, a resistência precisa ser permanente, organizada e coletiva.
No Seminário Nacional de Formação do Cimi, suas palavras reafirmaram uma verdade que atravessa as lutas dos povos indígenas: quando um povo retoma a terra, não está apenas recuperando um território. Está retomando a possibilidade de viver, celebrar seus ancestrais, proteger seus rios e garantir que seus filhos e netos possam continuar caminhando sobre a terra de seus antepassados. Retomar a terra é retomar a vida.




