“Eles sabem que explodem crianças”

Um texto dos diretores de NAZA, documentário que expõe o genocídio palestino em sua banalidade obscena. Na obra, soldados de Israel revelam a frieza da escolha dos alvos, quase todos civis. Consagrada em Veneza, obra estreia no Brasil em 1º/10

Por Yuval Abraham e Rachel Szor, em Outras Palavras

Vencedores do Oscar de 2025, por co-dirigirem No Other Land, (junto com os palestinos Basel Adra e Hamdan Ballal), os cineastas Yuval Abraham e Rachel Szor, dissidentes políticos em Israel, acabam de alcançar outro feito. Em 10 de setembro, ao estrear no Festival de Veneza, seu filme mais recente, NAZA, foi aplaudido por 26 minutos – algo nunca ocorrido antes, em 83 edições do evento. Dias mais tarde, obteve o Prêmio Especial do Júri.

NAZA retrata a banalidade do mal em Israel. O conceito foi cunhado em 1963 por Hanna Arendt para descrever o extermínio dos judeus, praticado muitas vezes não por nazistas convictos – mas por alemães comuns, pessoas cinzentas que obedeciam ordens de modo acrítico. Em novo sinal de como os dois genocídios se parecem, Yuval e Rachel identificam agora a mesma atitude em soldados de inteligência de Israel, que conseguiram entrevistar sob promessa de anonimato. Eles “realizavam a vigilância, calculavam quantas pessoas inocentes seriam mortas em cada casa e davam sinal verde para bombardear famílias inteiras”, afirmam os diretores, numa entrevista ao Guardian.

Eles sabem que a finalidade central das instruções que recebem não é combater o Hamas. “Você entende que o objetivo é destruir”, lembra um dos entrevistados. Ainda assim, pressiona a tecla. E a barbárie assume, às vezes, formas mais conscientes, desmentindo a ideia de “tolerância” em Israel . Uma horda de direitistas furiosos tentou invadir a casa da mãe de Yuval no dia em que No Other Land estreou no Festival de Berlin de 2024.

Ele e Rachel seguem filmando. Vale esperar, em duas semanas, a estreia de NAZA (A.M)

Nos últimos três anos, realizamos entrevistas noturnas nos telhados de Tel Aviv com 24 soldados israelenses que desempenharam papel ativo no ataque de Israel a Gaza. Eram, em sua maioria, oficiais de inteligência, trabalhando nos bastidores e participando remotamente do massacre de palestinos.

Os depoimentos deles formam a base de “NAZA”, um novo documentário que dirigimos — produzido pelo The Guardian e James Wilson e com produção executiva de Jonathan Glazer — que estreou em 10 de setembro no 83º Festival Internacional de Cinema de Veneza.

Entrevistamos esses soldados não porque essa fosse a única maneira de saber o que Israel fez em Gaza. Qualquer pessoa que tenha visto a devastação na faixa, ouvido os moradores de Gaza ou simplesmente acreditado na palavra dos líderes israelenses deveria ter reconhecido essa verdade há anos.

Fizemos este filme por uma razão simples: entendemos que os depoimentos de oficiais e soldados do exército que aniquilou Gaza — aqueles que realizavam a vigilância, que calculavam quantas pessoas inocentes provavelmente seriam mortas em cada casa e que repetidamente davam sinal verde para bombardear famílias inteiras — tornariam ainda mais difícil negar os crimes. E essa negação é parte do que permite que essas atrocidades continuem até hoje.

Este é um filme sobre um sistema. Ele se concentra em ordens, políticas e padrões de operação, não em desvios. A conclusão que tiramos dos depoimentos é clara: o massacre de civis palestinos em Gaza não foi um “efeito colateral trágico” de uma guerra contra o Hamas, como se diz comumente em Israel, mas um ato premeditado, calculado e intencional. É por isso que uma comissão da ONU, os principais grupos de direitos humanos do mundo e acadêmicos palestinos, israelenses e internacionais o descreveram como um genocídio.

O título do filme, “NAZA”, acrônimo hebraico para “danos colaterais”, é uma crítica à forma como Israel retrata o assassinato de civis — obscurecendo tanto o conhecimento prévio que possui sobre quantas pessoas provavelmente serão mortas em cada ataque, quanto a intenção de destruir que acompanha a campanha militar desde o início.

Um dos oficiais que entrevistamos descreveu como tinha pleno conhecimento, em tempo real, de centenas de casos em que famílias estavam vivendo suas vidas normalmente — um homem conversando com a esposa, o som de um programa de TV, uma oração, um bebê chorando — e então, dava a autorização para bombardeá-las. Quando questionado sobre o motivo, ele explicou: “Você entende que o objetivo é destruir”.

Sob essa perspectiva, a presença de uma pessoa que Israel considera alvo de assassinato em determinada casa torna-se uma questão “secundária”; aliás, em muitos casos, o alvo sequer estava presente. O objetivo era o próprio assassinato.

Uma visão para a escuridão

Os soldados que aparecem no filme concordaram em falar sob a condição de que suas identidades fossem cuidadosamente protegidas, devido ao receio de represálias de Israel por exporem informações comprometedoras. Alguns de seus depoimentos foram tão urgentes e aterrorizantes que os publicamos quase imediatamente em uma série de reportagens investigativas para a +972 MagazineLocal Call e The Guardian.

A maioria dos soldados que entrevistamos pertence ao que é comumente chamado de elite socioeconômica de Israel e serviu principalmente em unidades de inteligência de prestígio. Alguns admitiram abertamente ter participado de crimes graves e esperavam que, ao se manifestarem, pudessem romper as barreiras da negação e da justificação, forçando o público israelense a confrontar o que o exército fora enviado para fazer em seu nome. Outros concordaram em falar somente após meses de reflexão — seja por culpa, vergonha ou mesmo orgulho daquilo que consideravam suas realizações profissionais.

Nosso filme não se detém nas motivações dos envolvidos, o que foi uma escolha deliberada. Ele se concentra principalmente no assassinato em si e no que o torna possível. Dedicar muito tempo aos sentimentos morais e políticos das fontes envolvidas produziria o risco de desviar o foco das vítimas, algo que não queríamos fazer.

Garantir o anonimato a pessoas que, segundo seus próprios relatos, participaram de crimes horríveis não é algo que encaramos levianamente. Mas, dada a persistência desses crimes, sentimos a obrigação de tornar seus relatos públicos, na esperança de que isso possa contribuir para os esforços de pôr fim a essa onda de violência. Os depoimentos dos soldados também implicam um sistema muito maior, pelo qual os mais altos escalões da liderança política e militar de Israel têm a responsabilidade final. Esperamos que o filme possa contribuir para a responsabilização pelos graves crimes de Israel e para a justiça para suas vítimas.

Mas o filme não é apenas uma coleção de depoimentos de soldados. Também voltamos a lente da câmera para Tel Aviv e seus moradores à noite, investigando a cidade como uma bolha na qual a vida cotidiana continua enquanto palestinos são massacrados a apenas 60 quilômetros de distância. Através do nosso olhar sobre a cidade de onde a guerra em Gaza é gerenciada, tentamos observar os mecanismos de conformidade que permitem tamanha indiferença generalizada.

Ao fazermos isso, nos vimos fazendo perguntas que a geração de nossos avós fazia — perguntas que pessoas ao redor do mundo têm feito depois de tomarem conhecimento de atrocidades e genocídios em outros lugares: Como um grupo de seres humanos pode consentir com a completa desumanização de outro? E como é um sistema genocida visto de dentro?

Nos próximos anos — talvez numa era pós-Netanyahu, se é que tal era chegará — partes do campo liberal de Israel poderão tentar distanciar-se dos crimes em Gaza e atribuí-los ao governo de extrema-direita. Certamente, este governo é o principal responsável pelo assassinato de mais de 73.000 pessoas, na sua maioria civis, na sequência dos massacres criminosos do Hamas em 7 de outubro. Contudo, uma parte significativa desses assassinatos foi perpetrada por soldados oriundos do próprio centro do campo liberal de Israel: oficiais dos serviços de inteligência e da Força Aérea, servindo nas unidades mais prestigiadas das Forças Armadas.

Os pilotos da Força Aérea poderiam alegar que estavam simplesmente cumprindo ordens — que receberam um conjunto de coordenadas, lançaram a bomba e voltaram para casa sem saber o que haviam atingido. Os soldados da infantaria se defenderiam dizendo que nem sempre sabiam quem estavam atingindo, em parte devido à névoa da guerra. Por mais questionáveis que essas defesas possam ser, não se pode negar o que o pessoal de inteligência sabia.

Eles testemunharam com seus próprios olhos e ouvidos que as casas que estavam “incriminando” estavam cheias de famílias. Sabiam que as vastas “aprovações da NAZA” não estavam ligadas a alvos de qualquer valor militar significativo. E, no entanto, desempenharam seu papel na máquina da morte praticamente sem qualquer ato de recusa ou resistência.

O filme mostra como é um sistema de extermínio baseado na noção de que “não há inocentes em Gaza” — ou, como se poderia dizer em termos de inteligência, “não há NAZA em Gaza”. Como tal, o filme provavelmente irá minar a credibilidade dos negacionistas, dos semeadores de dúvidas e daqueles que ainda se sentem confortáveis vivendo na zona cinzenta entre saber e não saber sobre o que está acontecendo a 60 quilômetros ao sul de Tel Aviv.

O filme estreiou em 10/9 no Festival de Veneza. Em breve chegará a Nova York antes de ser distribuído pelo mundo todo. [Em São Paulo, poderá ser visto a partir de 1º/10.] Mas também se dirige para dentro, para a sociedade israelense. Foi filmado inteiramente à noite, refletindo a profunda escuridão em que foi criado e na qual vivemos. Mas sem um acerto de contas honesto com o que aconteceu na escuridão, nenhum de nós conseguirá ver a luz.

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