CSHS debate como o clima afeta as comunidades – e o que fazer

Mesa redonda abordou como povos são afetados pelo extrativismo e por mudanças climáticas. Especialista questiona postura passiva das políticas públicas diante da crise ambiental

Por Gabriela Leite, Outras Palavras

A escolha de Manaus, capital situada no coração da Amazônia, para abrigar o 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CSHS), entre os dias 14 e 19 de setembro, foi certeira no sentido de expor as relações entre ambiente e saúde, hoje tão prementes. Nesse sentido, a mesa redonda “Emergência climática, racismo ambiental e saúde em territórios tradicionais: diálogos entre saberes, lutas e políticas públicas”, que aconteceu na sexta (18), trouxe alguns insumos importantes.

Entre as experiências expostas pelos participantes, destacou-se a situação da Ilha de Maré, localizada na Baía de Todos-os-Santos, formada principalmente por comunidades quilombolas. Ela foi narrada por Thais Mara Dias Gomes (UFRB), que denunciou as consequências da exploração de petróleo na região. Os poços próximos à ilha causam diversos problemas de saúde nas comunidades, além de afetarem a pesca e, portanto, a sua alimentação. Já os recursos gerados pelo petróleo nunca voltam ao território, que vive historicamente na precariedade.

Júlio Schweickardt, da Fiocruz Amazônia, expôs a situação de indígenas do Baixo Amazonas. Como ilustração, contou sobre um trabalho que realizou com algumas comunidades, para organizar um calendário etnográfico que articula práticas cotidianas – pesca, colheita, plantio – e narrativas sobre os ciclos da natureza num mesmo sistema de orientação do tempo. A constatação foi que poucos anos após a primeira versão desse calendário, esses ciclos já haviam se alterado, por causa das mudanças climáticas já perceptíveis em seu dia a dia – notadamente o prolongamento dos dias mais quentes.

“Não existe discussão das questões climáticas sem pensar nas pessoas e em onde estão”, defende Júlio, ao criticar o debate ambiental que não considera os temas da raça e do território. Para ele, que se utilizou da imagem de um navio negreiro, é preciso olhar para a crise climática a partir do porão, e não apenas do convés. Por isso, é necessário questionar o tipo de desenvolvimento hoje em curso – o mesmo que extrai petróleo da Ilha de Maré e não devolve nada ao território, se voltarmos aos relatos de Thais Mara. É preciso combater “a alienação que produz ruptura entre natureza e humanidade”, defendeu Maelison Neves (UFMT/NEAST), o terceiro convidado da mesa.

Diante disso, quais as respostas do poder público? Questionados por Outra Saúde sobre o recém-aprovado AdaptaSUS, o Plano Setorial de Adaptação à Mudança do Clima do SUS, que organiza ações para preparar a rede pública de saúde para enfrentar eventos extremos, os convidados levantaram algumas ressalvas. Thais Mara afirmou que o plano tem boa argumentação teórica, mas que na prática não funciona bem na organização do fluxo e da intersetorialidade – o diálogo entre defesa civil, vigilância e comunidades segue frágil. 

Já Maelison provoca ao questionar a escolha da palavra “adapta” para o plano do Ministério da Saúde. Ele lembra que é preciso sair da posição passiva, da reparação de danos, e ir para o ataque. Um exemplo lembrado por ele foram os indígenas de 17 etnias que ocuparam o terminal da Cargill em Santarém (PA) por 33 dias, em protesto contra decreto que incluía rios amazônicos no programa de privatização. Sua mobilização forçou o governo federal a revogar o decreto e retirar os rios do plano de desestatização.

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